Manifestantes incendeiam delegacia na Colômbia

Os protestos são parte de uma greve geral conflagrada na semana passada, após a apresentação de um projeto de reforma tributária.

5 mins read

Na noite da última terça-feira (3), manifestantes incendiaram uma delegacia de polícia em , durante um protesto contra o presidente da , Iván Duque. Informações iniciais apontam que cinco agentes da repressão ficaram feridos. O episódio ocorreu no Centro de Atendimento Imediato (CAI) da polícia, localizado no bairro La Aurora, na zona sul da cidade.

A tensão entre ativistas e a policiais começou cedo na capital colombiana, em vários setores da zona sul, e se espalhou por outras áreas onde organizações sociais denunciaram excessos por parte do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (Esmad).

Um dos confrontos mais intensos foi registrado no bairro Portal das Américas, na zona oeste da cidade, se prolongando por horas, com saldo de pelo menos três feridos e um ônibus incendiado. Rebeliões ocorreram também no bairro de Castela, onde os manifestantes foram reprimidos pela Esmad e um CAI também foi atacado.

Diversas imagens do ataque à delegacia de La Aurora foram compartilhadas durante a madrugada por perfis colombianos nas redes sociais. Algumas delas mostram o exato momento em que o grupo de revoltosos ateia fogo e arremessa o que parecem ser paus e pedras contra a unidade.

Os protestos são parte de uma conflagrada na semana passada, após a apresentação de um projeto de reforma tributária ao Congresso por Duque, que pretendia aumentar em 19% impostos sobre serviços públicos, como gás e energia.

Ainda que o presidente tenha solicitado ao Congresso para retirar o projeto da pauta no domingo, uma conquista da paralisação, os atos continuam pedindo a revogação completa da proposta e não somente a exclusão dos pontos mais polêmicos, conforme alegou que faria Duque.

Na esteira da pandemia, a pobreza monetária na Colômbia subiu 6,8 pontos no ano passado, para 42,5%, o que significa que o número de pessoas pobres no país aumentou em 3,6 milhões de pessoas – de 17,4 milhões para 21 milhões, de acordo com o Dane (Departamento Administrativo Nacional de Estatística).

Neste contexto, um aumento draconiano dos impostos, que afeta principalmente a classe média e aqueles que menos ganham, acendeu a pólvora da indignação popular, e as manifestações convocadas por sindicatos ganharam adesão de pessoas de todos os estratos sociais, em um movimento que, após mais de uma semana de mobilizações nas ruas, parece imparável.

A escalada da revolta em todo o país — tendo a região do Vale do Calca como epicentro — bloqueou as estradas principais, destruiu dezenas de pedágios e incendiou centenas de edifícios privados e governamentais. Em Cali, indígenas Mizak derrubaram um monumento a Sebastian Belalcazar, colonizador espanhol do século XVI.

“As manifestações não são gerenciadas por ninguém, é o povo cansado de anos de miséria”, escreveu terça-feira (3) no Twitter César Pachón, um experiente líder camponês que em 2013 participou dos protestos de trabalhadores rurais contra o governo anterior e hoje ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo Movimento Alternativo Indígena e Social (MAIS).

Os atos repudiam ainda a recorrente violência estatal contra a população colombiana. “No momento temos 1.089 casos de violência policial, dentro dos quais conseguimos identificar pelo menos 124 feridos, 726 detenções arbitrárias, seis atos de violência sexual, 27 homicídios, 12 jovens perderam a visão e mais de 45 defensores dos direitos humanos tiveram sua capacidade de exercer esse trabalho limitada”, denunciou Martha Alfonso, vice-presidente do Fecode, o sindicato dos professores.

Além das mortes confirmadas, foram registrados ainda 87 desaparecimentos de manifestantes, conforme relatado pela Defensoria Pública local. Ainda de acordo com o órgão, mais de 800 pessoas foram feridas.

Segundo o instituto Indepaz, desde o início da gestão de Duque, em 2018, pelo menos 576 ativistas já foram executados no país. Outro informe aponta que paramilitares apoiadores do governo foram responsáveis por crimes que vitimaram 267 militantes de movimentos sociais.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de mídia independente anticapitalista. Isso significa que o nosso conteúdo não é apenas livre de influência de partidos políticos e agências governamentais, mas também de ONGs e fundações. Não estamos dispostos a restringir nosso trabalho por essas organizações, mas isso significa que cada centavo de nosso financiamento deve vir diretamente de nossos seguidores. Funcionamos sem qualquer tipo de propaganda. Nosso trabalho é feito por quem acredita que jornalismo não é publicidade e que portanto tem uma função social fundamental para conseguirmos transformar a realidade de uma sociedade.

Deixe seu comentário

Your email address will not be published.

Últimas Notícias