O problema não é o P2, mas a ação direta

O incômodo com a fotografia não é a possibilidade de ser um P2, mas a ação direta e com ela a criminalização da manifestação. O debate é sobre violência e não sobre um possível infiltrado.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Como um filme repetido, grande parte da brasileira novamente reproduz o discurso do Estado de criminalização de manifestantes que praticam ação direta em protestos de rua.

O que é “ação direta”?

Para quem não conhece, ação direta pode ser: uma panfletagem; um trabalho de educação popular; um mutirão para distribuição de agasalhos e alimentos; um mutirão para organização e limpeza de uma para moradia de centenas de famílias sem casa; colocar uma faixa ou cartaz em algum órgão do governo denunciando violações do Estado; destruir uma viatura da polícia; incendiar uma agência bancária; uma ação violenta contra instituições de poder do Estado; entre tantos outros exemplos. Todas essas ações políticas podem ser traduzidas como “ação direta”.

O que é P2?

P2 é um termo popular usado para identificar um policial à paisana, disfarçado, infiltrado; ou um agente do Estado, não necessariamente policial, infiltrado.

O verdadeiro X da questão

O verdadeiro incômodo com a imagem não é a possibilidade de ser um P2, mas a ação direta e com ela a criminalização da manifestação. Setores da tratam essas ações como “violência” e por isso preferem acreditar que toda ação radicalizada é realizada por um “infiltrado”.

A grande questão é quais ações diretas são aceitas dentro da legalidade em que a esquerda institucional está inserida e quais não são. Esse é o ponto.

O debate é sobre violência e não sobre P2.

Agente do Estado (P2) infiltrado em manifestação de esquerda sempre ocorreu e sempre vai acontecer. Não há como impedir ou controlar ações contrainsurgentes de qualquer governo. O importante é identificá-los e, se possível, monitorá-los.

Em geral, P2 são identificados em todos os protestos e não causam polêmica ou algum tipo de estardalhaço nas redes sociais. O que causou, repito, foi o ato de ação direta que para uma parte da esquerda brasileira visa “deslegitimar as manifestações”. Essa esquerda moderada, para dizer o mínimo, está preocupada em enquadrar-se no status quo de que destruir patrimônio público ou privado é crime, sem qualquer análise histórica mais profunda do que representam esses “patrimônios”.

É a mesma esquerda que ano passado aplaudia as derrubadas de estátuas (patrimônio público) de colonizadores pelo mundo; comemorava e compartilhava aos montes as fotografias e os vídeos das revoltas no Chile em 2019 e os levantes antirracistas nos EUA em 2020. Mas no Brasil não pode. No Brasil isso é violência e prática de P2.

A hipótese do P2, levantada de forma especulativa por Rodrigo Cebrian em sua conta no Twitter, levou a milhares de compartilhamentos e “certezas” de que ali não era um manifestante. Cebrian é ex-diretor da Globo e atualmente é diretor do Que Mundo É Esse?, da GloboNews.

Publicação de Rodrigo Cebrian em seu perfil no Twitter, com objetivo de denunciar uma ação que supostamente visava deslegitimar a manifestação. Na prática, esse tipo de “denúncia” deslegitima a ação direta como forma de protesto, induzindo ao pensamento de que a violência é uma ferramenta para boicotar manifestação. Consequentemente, criminaliza esse tipo de ação.

Não há como saber se a pessoa é um manifestante ou um infiltrado. O coturno trajado pela pessoa, elemento tratado como argumento irredutível de que era um policial, não é de uso especial de militares. O calçado é vendido em lojas e é comum ver manifestantes vestindo a botina, anarquistas inclusive.

A câmera na mão é outro detalhe interessante que não prova nada. O registro da própria ação pode ser usada tanto para “deslegitimar a manifestação” como o seu inverso, propagandear e legitimar uma ação direta. O que para o da institucionalidade é algo impensável.

O símbolo do Anarquismo (o A dentro de um círculo) pixado de forma não comum, sem o círculo, não determina absolutamente nada, porque, inclusive, nem há como saber se a pixação foi feita pela pessoa que está na fotografia disseminada nas redes. Ela pode ser obra de outra pessoa.

Continuando no da especulação, sequer levanta-se a hipótese de que na tensão de uma manifestação e da ação direta, a pessoa simplesmente não conseguiu terminar a pixação. Ponto.

Concordo que não podemos desconsiderar a chance de ser um agente do Estado, com o objetivo de pautar a imprensa e seus discursos contra a violência. Mas isso está longe de ser o determinante, quando sabemos que essas ações são majoritariamente praticadas por manifestantes – de esquerda – revoltados com a situação política do país.

Em 2020 parte esquerda boicotou os protestos antirracistas que ocorriam pelo mundo e preferiu se calar, usando a pandemia como argumento para não ir às ruas. Um dos receios era de que a radicalização ocorrida nos EUA pudesse chegar aqui e assim legitimar uma postura ainda mais violenta e autoritária do presidente Jair Bolsonaro. Esse pensamento não era exclusividade da esquerda partidária e institucionalizada, presa à legalidade estatal, mas também de alguns movimentos sociais e coletivos de mídia alternativa, que chegaram a promover uma espécie de campanha pela passividade.

A publicação do parlamentar do PSOL Flávio Serafini em seu perfil no Twitter, segue a linha de diversos parlamentares enquadrados no da esquerda institucional, que trata ação direta como “boicote” de manifestação, criminalizando este tipo de atuação política.

Para o professor do Departamento de Filosofia da USP e escritor Vladimir Safatle “a esquerda brasileira falhou e, pior, insiste no erro. Seus fracassos ajudaram a conduzir a extrema direita ao poder no Brasil. Ela não soube fazer a leitura de junho de 2013 e dar uma resposta para o desejo anti-institucional que anima parte importante da população brasileira. Ao contrário do conservador, que enxergou a insustentabilidade da política de conciliação e colocou de pé um projeto de ruptura, a esquerda insiste no modelo de construção de consenso responsável pela paralisia da sociedade brasileira.”

Safatle faz uma análise contundente e desnuda o caráter legalista da esquerda partidária brasileira, que nega qualquer radicalização da política. Ignoram um princípio simples: há posições políticas e concepções da vida social radicalmente antagônicas, portanto, política é conflito, e não conciliação.

O apagamento desse antagonismo é feito para dar a ideia de que nenhuma rup­tura radical é possível no político, de que não há nada mais a esperar da política, a não ser discussões sobre a melhor maneira de administrar o modelo socioeconômico hegemônico nas sociedades ocidentais.

A insensatez desse tipo de posicionamento é o que rege uma parcela grande da esquerda no Brasil, sem dúvida uma das mais legalistas do mundo. Em um contexto crítico em que a extrema direita está no poder, ela ainda sonha em acabar com o no Brasil pela legalidade.

O general Luiz Eduardo Ramos disse em entrevista de junho de 2020: “o próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora, o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”, declarou. Ele foi ministro-chefe da Secretaria de Governo do presidente Jair Bolsonaro entre 13 de junho de 2019 até 29 de março de 2021 e é atualmente o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência. Não é difícil traduzir o que o militar deixa nas entrelinhas.

Ou seja, eles querem uma oposição mansa, domesticada.

A esquerda “deixou de ser esquerda” e tornou-se “estúpida”, como afirmava o escritor e militante José Saramago no fim de sua vida. Difícil discordar.

Rafael Daguerre

Fotojornalista/Videorrepórter

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

1 Comment

  1. Muito bom Daguerre! Lúcido, histórico e transparente! Essa gente esqueceu de libertar ao pensar sair da escravidão; optaram pela burguesia, vulgarmente “boa” e pelo capitalismo, cinicamente construtivo, e acreditam ser isto um “desenvolvimento” que levará ao “sócialismo”! Arre! Arre! Arre! Até o Tancredo Neves soube o que dizer ante a farsa: “canalhas! canalhas! canalhas!!!

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