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Meinhof: uma guerrilheira comunista

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Este artigo faz parte do projeto #RevolucionáriasPeloMundo

A proposta do projeto é contar a história de luta de diferentes militantes e suas organizações . A história a seguir é apresentada em partes, narrando o início da luta e a formação da organização, as ações, o processo de perseguição política pelo qual os militantes passavam e a continuidade da luta, enfrentando essa repressão.

PARTE I – Movimento estudantil à RAF

Ulrike Meinhof, militante comunista, nasceu em 07 de outubro de 1934, na Alemanha. Lutou no movimento estudantil dos anos 60, que era amplamente perseguido em todo o país, especialmente, no lado Ocidental de Berlim.

Meinhof ficou nacionalmente conhecida em 1961 durante um processo contra o então Ministro da Defesa, Franz-Josef Strauss. Fazia campanha antinuclear, era do movimento socialista estudantil, filiada ao clandestino Partido Comunista Alemão (KPD), e redatora-chefe da revista Konkret, financiada pelo partido.

Foi se radicalizando diante dos fatos ocorridos na Alemanha, passando a defender o uso da violência como luta política. Em 02 de abril de 1967, um estudante foi baleado por um policial durante uma manifestação e em 11 de abril de 1968 o líder estudantil Rudi Dutschke, amigo de Meinhof, sofre um atentado realizado por um militante da extrema direita alemã.

Em abril desse ano conheceu Andreas Baader e Grudrun Ensslin, junto com Thorwald Proll e Horst Söhnlein, em Frankfurt, durante o julgamento dos quatro. Eles estavam sendo julgados por terem colocado fogo, na noite de 2 de abril de 1968, em estabelecimentos comerciais de Frankfurt. Fizeram a ação para protestar contra a ordem política da República Federal da Alemanha e contra a guerra no Vietnã – onde os Estados Unidos atacaram o país, usando armas químicas e um número incontável de bombas.

Cumpriram parte da pena e foram postos em liberdade. Baader e Ensslin fogem do país quando seu recurso é rejeitado. Baader foi preso novamente em abril de 1970, em uma batida policial.

Ulrike Meinhof

Meinhof participa da ação que conquistou a liberdade de Baader, sugerindo um plano. Sob o pretexto de escrever um livro com Meinhof, Baader foi conduzido, em 14 de maio de 1970, à biblioteca do Instituto de Questões Sociais de Berlim. Um grupo entraria e libertaria Baader. Mas durante a ação há um tiroteio e um funcionário é ferido. O grupo, incluindo Baader, foge pela janela. Meinhof vai junto, entrando na clandestinidade.

A fotografia de Meinhof e de Baader começou a circular na mídia corporativa, como no jornal de Axel Springer, criminalizando o movimento. Um filme de Meinhof chega a ser retirado da programação. Em 2 de julho, um manifesto do grupo é publicado, sendo assinado como Rote Armee Fraktion (Fração do Exército Vermelho). É a primeira vez que o nome RAF aparece publicamente.

PARTE II – As ações da RAF

A RAF foi uma organização comunista que realizou diversas ações armadas, iniciando uma guerrilha urbana contra a exploração do povo, o imperialismo e o sistema capitalista. Afirmava que a República Federal Alemã era uma continuação do Antigo Reich e, portanto, uma continuidade do nazismo. Muitos membros do Partido Nazista permaneceram no comando da Alemanha Ocidental, submetida aos Estados Unidos da América.

Meinhof e outros membros da RAF foram para a Jordânia, fazer treinamento de guerrilha em campos da Frente Popular para a Libertação da Palestina e do Al Fatah.

Logo que retornou, a organização planejou e realizou assaltos simultâneos a três bancos para arrecadar dinheiro para armas. Enfrentando o sistema, a RAF atacou com bombas fábricas e bases militares estadunidenses, denunciando as violências que os Estados Unidos exerciam durante a guerra do Vietnã.

No início de 1971, Meinhof publica clandestinamente “O Conceito de Guerrilha Urbana”, influenciada pelo livro de Carlos Marighella “Manual do Guerrilheiro Urbano”. Em outubro desse ano, participou de um tiroteio com a polícia de Hamburgo durante uma tentativa de prisão, mas conseguiu fugir.

Em novembro de 1971, Renate Riemeck publica uma carta pedindo que Meinhof, sua filha adotiva, desistisse da luta. Meinhof responde, reescrevendo a carta sob o ponto de vista de uma mãe escrava que pede a sua filha para que ela não lutasse pela liberdade e continuasse sendo escrava. Sua resposta foi encontrada na lata do lixo, três semanas após a carta de sua mãe. Meinhof não aceita os pedidos da mãe e, assim, corta ainda mais os laços com seu passado.

Em 11 de maio de 1972, em Frankfurt au Main, a RAF colocou bombas em um Quartel General do Exército dos Estado Unidos, destruindo o local, matando um tenente-coronel estadunidense – condecorado no Vietnã – e deixando treze soldados feridos. O Comando Petra Schelm (assassinada pela polícia no dia 15 de julho de 1971) da RAF reivindica a ação, afirmando que a Alemanha Ocidental e que Berlim Ocidental não devem ser uma retaguarda tranquila para os estrategistas da destruição do Vietnã, exigindo que os Estados Unidos parassem de bombardear o país e defendendo a guerrilha revolucionária.

Em 12 de maio, outras duas bombas são colocadas em uma central de polícia, em Augsburg, deixando ao menos cinco policiais feridos. No mesmo dia, Meinhof, Baader, Raspe e Ennslin são acusados de serem os autores de outra explosão, em Munique, num estacionamento da Polícia, que deixa dez feridos e cem carros destruídos.

Dias depois ocorre um ataque a bomba contra o juiz federal Wolfgang Buddenberg. O Comando Manfred Grashof da RAF afirma que ele é responsável por drogar à força a ativista Carmen Roll, que está presa, e pela sua situação de isolamento, exigindo a aplicação da Convenção sobre os Direitos do Homem e a Carta das Nações Unidas sobre o direito dos prisioneiros.

No dia 24, outro ataque à bomba contra um clube de oficiais de Heidelberg. Além disso, explosivos são colocados em um carro no estacionamento do Quartel General do Exército dos Estados Unidos e três militares são mortos. A RAF, novamente, assume as ações e distribui comunicados sustentando que são em resposta aos bombardeios que os Estados Unidos realizam no Vietnã, onde se jogaram mais bombas que em toda a Segunda Guerra Mundial. Exigem a saída das tropas Estadunidenses desse país.

Meinhof e três militantes colocam seis bombas escondidas em mochilas nos escritórios da editora Springer, em Hamburgo. Os conservadores jornais de Axel Springer atacavam e criminalizavam o movimento tendo, inclusive, feito circular as fotos de Meinhof e de Baader após a ação que organizou a fuga da prisão de Baader. As telefonistas foram avisadas com antecedência, para que todos pudessem sair do prédio, mas não acreditaram no recado. Há três mortos e alguns feridos.

Outra tantas ações foram feitas pela RAF. A Organização possuia amplo apoio popular. Suas ações eram admiradas pelo povo que, muitas vezes, prestou apoio direto à organização. A população alemã chegou a apelidar o BMW de “Baader-Meinhof-Wagen” (Carro-Baader-Meinhof) – a organização tinha preferência em roubar BMW para suas ações de assalto a banco.

Em inglês, “O Conceito de Guerrilha Urbana” (não encontramos a versão em português on-line. Caso você tenha o link, entre em contato por e-mail).

Meinhof durante uma entrevista, maio de 1969 | Foto: Mehner/ullstein bild

PARTE III – A luta na prisão e durante o julgamento

Para acabar com a RAF e sua luta pelo , o Estado Alemão realizou uma campanha de perseguição política e de violência contra seus militantes. Meinhof foi presa em junho de 1972, próximo a Hanover. Meinhof e Müller estavam hospedados na casa de um professor, que avisa à polícia. Müller desce para telefonar e é preso. Meinhof é presa no apartamento e ficará isolada na prisão de Ossendorf, Colônia.

Em 5 de setembro de 1972, o Setembro Negro sequestrou atletas israelenses durante as Olimpíadas de Munique. A organização Palestina denunciava a violência que o Estado genocida de Israel realizava contra o povo palestino.

O Setembro Negro exigia a libertação de pelo menos 200 presos políticos palestinos em Israel, de Meinhof e de Baader, que permaneciam presos na Alemanha. O Exército ataca o avião, um helicóptero explode, cinco ativistas e nove reféns são mortos. Um policial também morre. No dia 7 de setembro, aviões israelenses bombardeiam campos de refugiados no Líbano, matando duzentos civis. As práticas de extermínio realizadas pelo Estado de Israel não cessam. A RAF publica “A ação do Setembro Negro em Munique: por dentro da estratégia da luta anti-imperialista”, defendendo a ação do grupo palestino.

Ulrike passou 8 meses isolada em Ossendorf, Colônia, e é retirada do isolamento apenas em dezembro de 1972, para ser testemunha no julgamento de Mahler. Meinhof afirma ser antifascita e critica o nazismo, a Alemanha e o Estado de Israel.

Em 17 de janeiro de 1973, quarenta prisioneiros políticos começam uma greve de fome, pedindo o fim dos isolamentos e, em especial, que Meinhof saia do isolamento da prisão de Colônia. No dia 9, colocam-na em uma cela isolada em uma prisão masculina, de onde ela consegue ouvir ruídos humanos. A greve de fome foi agravada pelo Estado, que suspendeu a entrega de água aos presos. Acaba em 12 de fevereiro.

Em 8 de maio de 1973, oitenta presos políticos começam uma greve de fome para ter os mesmos direitos que os demais presos e para ter acesso à informação. Novamente, o Estado suspende a entrega de água e a greve acaba em 29 de junho.

Alguns integrantes da RAF perseguidos pela polícia.

Submetida a péssimas condições, Meinhof ficou em situação de isolamento completo em diversos momentos. Meinhof foi conduzida para a prisão de segurança máxima de Stammheim, onde uma ala foi construída para manter encarcerados os membros da RAF. Essa ala ficava ligada a um anexo onde foram construídas as instalações de um “tribunal”, onde ocorreria o julgamento dos membros da RAF, para que não precisassem ser retirados do presídio durante o processo.

Após dois anos, Meinhof foi condenada a oito anos de reclusão por sua participação na libertação de Andreas Baader, em 1970. Em 13 de setembro de 1974, ocorre outra greve de fome. A RAF argumenta que essa é uma forma coletiva de se defender. Em novembro, Meins – membro da RAF – morre, com em torno de quarenta quilos. Manifestações ocorrem em toda a Alemanha.

No dia 12 de novembro, é executado Von Drenkmann, Presidente do Kammergericht, o “Tribunal Regional Superior” de Berlim. Em 21 de novembro, uma bomba explode em frente a casa de Gerd Ziegler, juiz de Hamburgo. Em 24 de abril de 1975, quatro membros da RAF atacam a embaixada da Alemanha Ocidental em Estocolmo, pressionando para que os presos políticos fossem libertados. Dois diplomatas são mortos e uma bomba explode. Dois militantes da RAF morrem nessa ação.

Em 1975, Meinhof e outros membros da RAF foram acusados de 4 homicídios, 54 tentativas de homicídio e por organização criminosa.

A legislação alemã chegou a ser alterada, evidenciando o processo político pelo qual os membros da RAF passavam. Tornou-se possível realizar audiências sem a presença dos réus e as conversas com os advogados já não eram mais sempre privadas. Os encontros de Meinhof com sua irmã sempre foram presenciados por oficiais alemães.

Os membros da RAF consideram-se prisioneiros de guerra, exigindo que todas as ações contra as bases dos Estados Unidos da América sejam consideradas no contexto da Guerra do Vietnã.

A prisão, o processo e o julgamento foram espaços de luta e propaganda política: os militantes atacaram os juízes e o Judiciário, se negaram várias vezes a ir às audiências e, em diversos, momentos foram irônicos.

PARTE IV – FINAL
Assassinato e continuidade da luta: Meinhof Vive!

Em 4 de maio de 1976 teria sido a última aparição pública de Meinhof, em juízo, a pedido de seus advogados. Eles solicitaram que a militante apresentasse provas do envolvimento da Alemanha Ocidental na Guerra do Vietnã. Meinhof afirmou que isso foi uma das razões para sua radicalidade e pediu que a ela fosse garantida a condição de prisioneira de guerra.

Na noite de 8 para 9 de maio de 1976, Meinhof foi executada pelo Estado Alemão, que sustentou a tese de suicídio, afirmando que ela teria sido encontrada morta em uma cela da prisão de Stammheim. Apresentando exames fraudados, as autoridades alemãs tentaram, através da mídia corporativa, mostrar uma Meinhof “arrependida” e “fraca”, matando-a uma segunda vez.

Grandes manifestações ocorrem em todo o país e bombas explodem em Nice e em Paris. A militante da RAF foi enterrada seis dias depois, em Berlim. O cérebro de Meinhof foi retirado pelos patologistas antes do enterro, para ser estudado. Apenas em 2002, com uma ação contra o Estado movida pela filha de Meinhof o cérebro é colocado junto aos restos mortais da militante.

A RAF não se intimida. Em primeiro de junho de 1976, uma ação contra o Quartel General dos Estados Unidos da América, em Frankfurt, deixa dezesseis feridos. Em 10 de junho, um atentado contra Lagner, advogado de Margrit Schiller, militante da RAF, deixa um morto e cinco feridos.

Em janeiro de 1977, o juiz Prinzing retira-se da Presidência do “Tribunal” por conta de seu comportamento parcial.

No dia 30 de março, os presos iniciam outra greve de fome, pedindo o reagrupamento em grupos, conforme as recomendações médicas, e exigem as garantias dos prisioneiros de guerra.

Em 07 de abril de 1977, Siegfried Buback, membro do Partido Nazista e então “Generalbundesanwalt”, ou seja, Procurador-Geral da República Federal da Alemanha, foi executado por militantes da RAF. Buback era responsável por acusar os membros da RAF, inclusive Meinhof, em juízo. Enquanto esteve no cargo, investigava e perseguia os revolucionários, assim como fez o nazismo em todo o mundo. Sua ascensão de carreira na Alemanha mostra a relação evidente entre o governo dos Estados Unidos da América e os nazistas alemães. Com a execução do nazista que a acusou, a RAF, mais uma vez, fazia justiça.

Em 28 de abril de 1977, os membros da RAF foram condenados e sentenciados a prisão perpétua. Os presos continuam com a greve de fome. No dia 30, o Ministro da Justiça land de Bade-Wurtemberg promete o reagrupamento dos prisioneiros, que suspendem a greve de fome diante dessa promessa. Fica faltando apenas transferir novos presos a Stammheim, para que os grupos sejam formados conforme as indicações dos médicos.

A sentença impulsiona o “Outono Alemão”, com uma sequência de ações da RAF. Em junho, membros da RAF iniciam uma greve de fome exigindo que fossem transferidos para a mesma prisão onde estão os outros membros da RAF, em Stuttgart-Stammhein. O advogado de Baader, Klaus Croissant pede asilo na França, em 11 de julho de 1977.

Em 30 de julho, três integrantes da RAF matam o presidente do Dresdner Bank, Jürgen Ponto, em sua casa em Frankfurt. Em agosto, parte dos prisioneiros de Stammhein é transferida a outras prisões e se restabelece o isolamento. Inicia outra greve de fome, que é intensificada diante da postura inflexível do Estado.

Em 5 de setembro, o presidente da Federação de Empregadores da Alemanha e da Confederação das Indústrias alemã, Hanns-Martin Schleyer, um dos mais importantes burgueses da Alemanha e símbolo do capitalismo, foi sequestrado. Schleyer, nazista, foi oficial da SS (“Tropa de Proteção”, organização paramilitar ligada ao partido nazista e a Hitler). A RAF exigia a liberdade dos presos políticos.

A lei antiterrorista é aprovada com modificações. O controle de correspondência entre os presos e seus advogados aumenta. Em setembro, o advogado de Baader é detido em Paris. Ocorrem inúmeras manifestações.

Em 13 de outubro de 1977, militantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina, agindo em conjunto com o comando Comando Siegrified Hausner, da RAF, sequestraram um avião da Lufthansa, levando-o para a Somália. Os ativistas exigiam a liberdade de 11 membros da RAF, incluindo os presos de Stammheim, e de mais dois palestinos presos, além de 15 milhões de dólares.

O Estado alemão não realizou a troca, atacando e executando três dos quatro militantes envolvidos em 18 de outubro. Nesse mesmo dia, o Estado matava Baader, Ensslin e Raspe, sustentando, novamente, a tese de suicídio, afirmando que foram “encontrados mortos” nas celas de Stammheim, em Stuttgart.

Também Möller foi gravemente ferida com quatro facadas no peito e no pescoço mas não morreu. Após tentar matar Möller, o Estado alemão deixa a militante da RAF durante meses na solitária, sem poder se comunicar com o mundo externo. Möller seguiu afirmando que os militantes da RAF foram dopados e assassinados, refutando a tese de suicídio apresentada pelo Estado.

Schleyer, símbolo do capitalismo que havia sido sequestrado pela RAF, é encontrado morto no dia 19 de outubro. É aprovada uma nova lei antiterrorista, que entrou em vigor em 1978.

A RAF continuou realizando suas ações durante muitos anos, até os anos 90. A mídia corporativa apresentou uma carta supostamente assinada pela RAF em 1998, informando sua dissolução. Por outro lado, novas notícias tem circulado indicando ações com o envolvimento de membros da RAF.

Em maio de 2020 completou o 44º aniversário da morte de Ulrike Meinhof. A guerrilheira comunista que enfrentou o imperialismo permanece viva na luta das revolucionárias de todo o mundo.

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