Uma mulher trans morreu após ter sido esfaqueada na noite da última quinta-feira (18), no centro de Aracaju, Sergipe. A cabeleireira Laysa Fortuna, de 25 anos, sofreu uma hemorragia e faleceu no dia seguinte, enquanto estava internada no Hospital de Urgência Sergipe (Huse). O ataque foi cometido pelo flanelinha Alex da Silva Cardoso, de 36 anos. Segundo testemunhas, Alex havia feito provocações a um grupo de mulheres transgênero, citando o político Jair Bolsonaro (PSL). Em seguida, reapareceu com uma faca e desferiu uma série de golpes em Laysa, atingindo principalmente a região do tórax.

A militante trans-feminista Linda Brasil conta que  retornava para casa de carro quando avistou Laysa ferida na Rua Estância, esquina com a Rua Itabaianinha, próximo ao DAGV (Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis, da Polícia Civil). “Outras trans conseguiram rendê-lo até a chegada da polícia. Eu fiquei desesperada”.

O agressor chegou a ser autuado em flagrante pelo crime, mas foi liberado. O delegado de plantão classificou como “lesão corporal leve” os ferimentos sofridos pela vítima.  A ativista criticou o descaso dos policiais:

”Pedi ao delegado para colher os depoimentos de testemunhas, mas fomos ignoradas. Também fomos desrespeitadas na delegacia porque nos tratavam no masculino”, denuncia Linda, que era amiga de longa data da cabeleireira.

Linda explica que os atentados contra a comunidade transgênero já eram frequentes, mas se intensificaram por causa da atuação de apoiadores do presidenciável de extrema direita.

“Nós somos um público que já é alvo de violência, mas nos últimos dias ele gritava “Bolsonaro” para assustá-las. Não sei se pode dizer que a motivação é política, mas os discursos que esse candidato prega estão incentivando esses atos” avalia.

Este é o terceiro assassinato a facadas cometido com os criminosos declarando apoio ao ex-deputado (e o segundo a ter como alvo uma pessoa trans).  Há 28 anos na vida pública, o militar da reserva é conhecido por sua incitação ao ódio contra mulheres, negros, indígenas e LGBTs.

Na madrugada do último dia 16, uma travesti, identificada como Priscila, morreu após ser esfaqueada  por um grupo de cinco homens no Largo do Arouche, região central de São Paulo. Testemunhas afirmaram que os agressores gritavam “Bolsonaro” e “ele sim” enquanto atacavam a vítima.

Em 8 de julho, o capoeirista Moa do Katende, de 63 anos, foi morto com 12 facadas nas costas pelo bolsonarista Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos, após uma discussão política. O crime aconteceu na saída de um bar no bairro de Engenho Velho de Brotas, em Salvador.

O corpo de Laysa foi sepultado na tarde do último sábado (20), no Cemitério São João Batista, na capital sergipana. Amigos e familiares ecoaram palavras de ordem contra a transfobia (ódio a travestis e pessoas transgênero) e a frase “Laysa, Presente!”.

“Ela sempre enfrentou os casos de violência que via nas ruas. Ela sempre foi muito ativa. Ela lutava por todo mundo”, conta o amigo e homem trans, Daniel Lima. “A mensagem que fica é que nós estamos aqui. Vamos continuar aqui, resistindo por Laysa e tantas outras”, afirmou a amiga e também trans Geovana Soares.

O homicídio de Laysa endossa uma grave estatística. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), já são 131 mortes de travestis e trans no país somente em 2018. “Lutamos diariamente para que essas pessoas não virem estatísticas. A Justiça vai muito além da prisão dos culpados”, conclui Geovana.