Ucrânia: Zelensky, o “Herói da Democracia”, extrema direita e corrupção

Falar da Ucrânia, da extrema direita e de Zelensky não justifica nem desculpa as ações da Rússia, nem faz de Putin menos autocrata. Assim como Putin ser autocrata e ter ordenado a invasão da Ucrânia não pode ser uma carta branca para melhorar a imagem de um estado refém de oligarcas e da extrema direita.

Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia — Foto: Agência de Imprensa Presidencial via AP / Montagem: Mídia1508

Por Francisco Norega

Enquanto preparamos um artigo de fundo para ajudar a compreender o que está acontecendo na Ucrânia, como chegamos aqui e como podemos sair, convidamos vocês a uma visita à ascensão ao poder de Zelensky, esse líder do bastião da “democracia e liberdade” que é a Ucrânia. Nesta viagem, encontraremos também os seus principais aliados e as suas ligações com a extrema direita, corrupção, offshores e nepotismo.

Como veremos, nada mais errado do que as ideias de que a extrema direita ucraniana é um mito inventado por Putin, ou que tem apenas um deputado. Os jornais podem repetir uma mentira mil vezes, mas isso não a torna verdade.

A invasão russa da Ucrânia, iniciada na semana passada, é indefensável e viola de forma gritante o direito internacional, com consequências trágicas para o povo ucraniano. Falar da Ucrânia, da extrema direita e de Zelensky não justifica nem desculpa as ações da Rússia, nem faz de Putin menos autocrata. Assim como Putin ser autocrata e ter ordenado a invasão da não pode ser uma carta branca para melhorar a imagem de um estado refém de oligarcas e da extrema direita.

Em nome da decência, nos sentimos obrigados a responder à violenta campanha de desinformação veiculada pela mídia, que tenta passar Zelensky por aquilo que não é e fazer dele um herói mundial.

Imagem: GUILHOTINA.INFO

Na guerra, uma das primeiras vítimas é a verdade. Vamos aos fatos.

Servo do Povo?

Depois de três anos a fazer o papel de presidente fofinho numa série televisiva no segundo maior canal ucraniano, Zelensky foi catapultado para a posição de Presidente da Ucrânia. Candidato pelo partido com o mesmo nome da série, o “Servo do Povo”, conseguiu uma vitória esmagadora nas eleições presidenciais de 2019 através de uma campanha centrada em 3 promessas: acabar com a guerra; fazer frente aos oligarcas para lutar contra a corrupção nas esferas mais altas do governo ucraniano; e processar o seu predecessor, Petro Poroshenko, por crimes de natureza política e econômica. Até hoje, nenhuma foi cumprida.

A ascensão “surpresa” de Zelensky, sem experiência prévia na política, faz lembrar fenômenos como Beppe Grillo e Donald Trump, e teria que estar obviamente ligada a algum grande grupo econômico ou midiático – neste caso, ambos. Zelensky tem uma relação íntima com Ihor Kolomoisky, um dos maiores oligarcas da e, entre muitas outras coisas, o acionista maioritário do 1+1, um dos maiores conglomerados de media ucranianos, de que faz parte o canal que transmitiu as três temporadas do “Servo do Povo”, entre outros 7 canais televisivos e várias plataformas online de notícias.

A produtora da série, a “Kvartal-95” Studio, foi fundada pelo próprio Zelensky em 2003, e produz vários materiais para as televisões do oligarca desde 2012. Por sua vez, em 2017, pouco depois de o partido ter sido registrado e quando a candidatura de Zelensky ainda nem estava anunciada, a liderança do partido “Servant of the People” (Servo do Povo) era composta integralmente por pessoas ligadas ao Kvartal-95, sendo Ivan Bakanov simultaneamente CEO do Kvartal-95 e líder do partido. Foi também o conglomerado 1+1 que impulsionou e financiou desde o primeiro momento a candidatura de Zelensky.

E, como continuaremos a ver, o papel de Kolomoisky não acaba aqui.

Há ou não há extrema direita no parlamento?

É comum ouvir hoje que a extrema direita ucraniana é uma coisa do passado, estando atualmente representada por um único deputado do Svoboda, um partido ultranacionalista. Infelizmente, não é verdade.

A esse deputado, somam-se três membros do UKROP eleitos para o parlamento como independentes. O UKROP, ou Associação Ucraniana dos Patriotas, é um partido de extrema direita que tem na sua gênese figuras ligadas a grupos armados como o Setor Direito, aos batalhões de Azov e Dnipro-1, e, como não podia faltar, também o oligarca Ihor Kolomoisky.

Uma destas deputadas chama-se Iryna Konstankevych, uma firme defensora do ucraniano como a única língua de ensino. Segundo um texto publicado no site do partido, enquanto participava nas comemorações dos heróis da II Guerra Mundial em 2017, proferiu as seguintes palavras:

A nossa família não está sozinha neste luto, houve centenas de milhares de famílias nesta situação. As mulheres tinham que carregar um pesado fardo, pois a vitória sobre os nazistas foi apenas o início de um longo e difícil caminho. O meu avô paterno e os seus irmãos estavam nas fileiras da UPA.

A UPA, ou Insurgente Ucraniano, foi uma organização paramilitar criada em 1942 pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN), que tinha como objetivo estabelecer uma independente e etnicamente pura. Ativa entre 1942 e 1956, colaborou em diversas ocasiões com a Alemanha nazista em combates contra as forças soviéticas durante a 2ª Guerra Mundial e levou a cabo processos de limpeza étnica contra populações polacas nas regiões da Volhynia e da Galicia que custaram a vida a cerca de 100 mil pessoas. 

Nas eleições parlamentares de 2019, para além destes três deputados, foram eleitos pelas listas do “Servant of the People” oito deputados que fizeram no passado parte do UKROP.

Os líderes do Servo do Povo não consideram problemática a presença destes elementos no seu partido. Nas palavras de Oleksandr Kornienko, na altura líder do partido:

“O UKROP não foi a pior força política nos últimos 5 anos. Nunca teve muito poder, está amplamente representado no poder local, onde não se humilhou excessivamente, como outros partidos políticos fizeram.”

A verdade é que alguns deles acabaram por se humilhar durante estes dois anos e meio de legislatura. Bohdan Yaremenko, antigo presidente do braço local do UKROP em Kiev, foi apanhado em troca de mensagens sobre serviços sexuais com uma mulher numa plataforma online de encontros, durante uma sessão parlamentar, e acabou por ser expulso do partido Servant of the People. O também membro do UKROP de Kiev, Oleksandr Yurchenko, teve o mesmo destino depois de se ter descoberto estar envolvido num esquema de subornos, entre outros escândalos.

Destacar também Andriy Parubiy, eleito como número 2 nas listas do European Solidarity, o partido de “direita moderada” liderado pelo anterior Presidente ucraniano, Petro Poroshenko. Parubiy foi, em 1991, um dos fundadores do Partido Social-Nacional da Ucrânia (SNPU) e, entre 1998 e 2004, liderou a organização paramilitar Patriot of Ukraine, uma organização que se dissolveu em 2014, com os seus membros a integrarem-se no batalhão Azov e em outros grupos paramilitares.

Assim, contamos um total de pelo menos 13 deputados de extrema direita no parlamento ucraniano, a maior parte perfeitamente integrados em partidos “moderados”. Isto sem fazer uma análise exaustiva sobre cada deputado e deputada eleitos, através da qual provavelmente apanharíamos mais alguns.

Nada de novo num sistema político em que diferentes oligarcas e grupos de extrema direita altamente organizados, frequentemente com ligações entre si, exercem uma enorme influência na política institucional ucraniana. Uma influência que nem sequer começou em 2014, com o Maidan – não é por acaso que o “moderado” pró-UE Yuschenko, já em 2010, atribuiu o título de Herói Nacional a Stepan Bandera, um dos principais líderes dos nacionalistas ucranianos durante a II Guerra Mundial e um dos atores centrais nas limpezas étnicas contra populações polacas no Oeste da Ucrânia.

Também não é por acaso que o “moderado” Petro Poroshenko, que tinha estado aliado a Yuschenko nos anos 2000, reconheceu e integrou o batalhão de Azov na Guarda Nacional ucraniana em Novembro de 2014. E o batalhão de Azov é apenas um entre tantos outros batalhões controlados por forças de extrema direita.

Kolomoisky, o verdadeiro gangster

Um dos primeiros a empurrar a Ucrânia para uma direção pró-europeia, Kolomoisky também foi, desde 2014, uma figura chave nos combates no Leste. Ajudou a criar e financiar vários grupos armados, incluindo os batalhões de voluntários Dnipro-1 e Dnipro-2, duas unidades de defesa territorial, o batalhão Donbas e também, nas suas fases iniciais, os batalhões de Shakhtars’k e Azov, todos eles comandados ou com a participação de membros do Setor Direito, do Svoboda e de outras organizações de extrema direita. Segundo um artigo da Forbes de Maio de 2014, Kolomoisky gastava na altura cerca de 10 milhões de dólares todos os meses para pagar salários, alimentação, uniformes e combustível a 3000 voluntários em diferentes batalhões.

Segundo informes do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, vários destes batalhões cometeram crimes de guerra e violações do direito internacional, muitas vezes com a cumplicidade das autoridades, mas poucos foram julgados.

Kolomoisky é ainda acusado de contratar assassinos para remover os seus obstáculos do jogo e tem por hábito alimentar um tubarão que vive num aquário gigante no seu escritório como forma de intimidar os seus visitantes. Entre 2014 e 2015, foi governador da região de Dnipropetrovsk.

Para além de tudo o que já falamos, Kolomoisky é também banqueiro e protagonista de uma das maiores fraudes da história recente da Ucrânia. O PrivatBank, fundado por ele nos anos 90, era uma das maiores instituições bancárias do país até que, em 2016, o oligarca transferiu mais de 5 mil milhões de dólares do PrivatBank para uma sucursal no Chipre, pouco tempo antes deste ser nacionalizado depois de anos de fraude. O buraco deixado por esta operação foi equivalente a 33% do total dos depósitos da população ucraniana.

Kolomoisky fugiu da para evitar consequências legais. Um dos oficiais responsáveis pela reforma bancária ucraniana demitiu-se do seu cargo depois de um caixão aparecer à porta de sua casa, num bom exemplo de como é que este oligarca resolve os seus problemas.

O oligarca esteve no “exílio” entre 2016 e 2019, dividindo o tempo entre a Suíça e Israel, onde foi regularmente visitado pelo atual presidente da Ucrânia. Em 16 de Maio de 2019, menos de um mês depois das eleições que deram a vitória a Zelensky, Kolomoisky regressou à Ucrânia no seu jato privado, vindo de Israel. Qual não é a surpresa quando do jato sai também um dos donos da Kvartal-95, que acompanhava Kolomoisky na sua viagem de regresso.

Ser judeu – o ÁS de trunfo

Ihor Kolomoisky é judeu, assim como o porta-voz do Setor Direito, Boryslav Iukhimovych Bliakher-Bereza. Zelensky também, o que é frequentemente usado como argumento para suportar a ideia de que não existe extrema direita na Ucrânia. Como se ser judeu significasse algo mais do que isso mesmo – afinal, não há extrema direita em Israel? Que judeus possam ser fascistas não é surpreendente, o que surpreende na extrema direita ucraniana é que judeus convivam fraternalmente com neonazis assumidos, negacionistas do holocausto e defensores de limpezas étnicas, inclusive de judeus.

Mas há mais.

Corrupção e Nepotismo – As revelações dos Pandora Papers

Os Pandora Papers, tornados públicos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos em Outubro de 2021, mostram que Zelensky e os seus parceiros na Kvartal-95 têm uma rede de empresas offshore que se estende do Chipre a Belize, passando pelas British Virgin Islands. Os documentos filtrados indicam que a rede foi estabelecida em 2012, o ano em que a empresa começou a produzir conteúdo para as televisões de Ihor Kolomoisky.

Mesmo antes das eleições, Zelensky ofereceu a Serhiy Shefir, um dos seus parceiros de negócios, as suas ações numa das empresas offshore centrais do esquema, a Maltex Multicapital Corp, registrada nas British Virgin Islands. Apesar de abdicar das suas ações, os documentos mostram que foi feito um acordo para permitir que a offshore continuasse a pagar dividendos a uma outra empresa que agora pertence à sua mulher.

Zelensky nunca mencionou a Maltex em nenhuma declaração de rendimentos e propriedades, incluindo a que apresentou em 2018, quando ainda tinha 25% da companhia.

Dois dos parceiros de Zelensky na rede offshore, que também eram parte da produtora Kvartal-95, ascenderam a posições importantes no aparelho de estado ucraniano. Um deles, Serhiy Shefir, é agora o principal assessor de Zelensky.

O outro é Ivan Bakanov, o tal que em 2017 foi simultaneamente CEO do Kvartal-95 e líder do partido, e que foi nomeado por Zelensky para diretor-adjunto dos SBU, os serviços secretos ucranianos, e para chefe da Direção Geral para o Combate contra a Corrupção e o Crime Organizado.

Segundo o Organized Crime and Corruption Reporting Project, Borys Shefir, irmão de Serhiy, também detém parte da Maltex Multicapital Corp mas diz que não estava a par dos detalhes do esquema, apontando para o atual diretor dos serviços secretos, Bakanov – “Bakanov era o nosso diretor financeiro, ele é que desenhou o esquema financeiro da nossa empresa”.

Ucrânia – Bastião da democracia e liberdade?

Depois de nos apercebermos de tudo isto sobre o ídolo do momento e os seus comparsas, fica evidente porque é que, apesar da intervenção (semi-)dissimulada do Ocidente “livre e democrático”, durante e depois do Maidan, a continua atrás de países como a Indonésia, a Índia, o Brasil, o e a própria no Índice Global de Corrupção.

Zelensky falhou desde o primeiro momento, e até hoje, em cumprir as promessas eleitorais pelas quais foi eleito. É por isso que não surpreende que, no final de 2020, pouco mais de ano e meio depois de ter tomado posse, as suas taxas de aprovação já tivessem caído para níveis historicamente baixos. Putin, com a sua invasão brutal, assegurou a inversão dessa tendência, mas não apaga a viragem cada vez mais autoritária feita por Zelensky para se conservar no poder, interferindo na independência judicial, aumentando a censura e alimentando divisões étnicas e tensões religiosas. Recomendamos a leitura do artigo:

Why Zelensky’s Ukraine Is Becoming Increasingly Autocratic, de onde tiramos o seguinte excerto:

“Nos jornais ocidentais (…) há uma opinião generalizada de que, ao contrário da Rússia, a Ucrânia, não tem problemas e está seguindo um caminho democrático de desenvolvimento. (…) Esta ilusão baseia-se na assunção de que a escolha a favor da integração na UE (União Europeia) declarada pela significa uma escolha a favor da democracia liberal, o alcançar de liberdades e direitos civis, e de tudo o que é bom e verdadeiro no mundo. Os regimes políticos da Hungria e da Polônia oferecem a resposta à falácia desta assunção.”

O artigo saiu em Abril de 2021 na revista National Interest, publicada por um think tank estabelecido em 1994 pelo ex-presidente Richard Nixon e sediado em Washington, DC. Não, não é uma publicação comunista saudosista da União Soviética, é um think thank conservador. Continua:

“Estamos, de fato, a assistir ao estabelecimento de um regime autoritário pró-ocidental na Ucrânia, onde o poder se concentra nas mãos do presidente, a sociedade é mobilizada para combater os inimigos externos e internos, e qualquer dissidência é rotulada como apoio ao inimigo e é reprimida pela força. É pouco provável que acabe bem.”

Qualquer semelhança com o que agora também começamos a sentir, por aqui, talvez não seja mera coincidência.

Como é hábito, a realidade é bem mais complexa do que a querem fazer parecer. Zelensky, não é um homem comum e bondoso que foi apanhado de surpresa por uma sequência fortuita de eventos, muito menos digno de ser chamado um defensor da democracia e da liberdade por oposição ao fascismo representado por Putin. Esta não é mais do que uma manobra de ilusionismo dos líderes do mundo ocidental e dos seus jornais – que, surpresa, fazem propaganda e manipulam a realidade para servir os interesses dos EUA, OTAN e UE, tal como a RT faz para servir os interesses da Rússia.

Que caia a máscara e se conheça Zelensky e o seu bando pelo que são, e não pelos heróis da liberdade e da democracia com que todo o mundo proclama, em coro, “Slava Ukraini” (Glória à Ucrânia), um slogan ao qual se responde “Heroiam Slava” (Glória aos Heróis). 

Parecem slogans fascistas? Talvez por isso tenham sido o equivalente do Heil Hitler para o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), os tais que levaram a cabo limpezas étnicas de polacos, e sejam hoje amplamente usados pelos grupos nacionalistas e neonazistas ucranianos.

Para aprofundar alguns temas, recomendamos as seguintes leituras:

Sobre Zelensky e os Pandora Papers
Pandora Papers Reveal Offshore Holdings of Ukrainian President and his Inner Circle – OCCRP

Zelensky e Kolomoisky
Ukraine: How Really Weird This Whole Thing is | DCReport.org

Os Oligarcas
Ukraine’s Omnipresent Oligarchs – Carnegie Europe – Carnegie Endowment for International Peace
Who Are the Oligarchs Counting on in Ukraine’s New Parliament? (hromadske.ua)

As Promessas de Zelensky
Vladimir Zelensky «Kvartal» of unfulfilled promises | by Daniel Bootman | Medium

O PrivatBank e os 5,5 mil milhões de dólares
Oligarchs Weaponized Cyprus Branch of Ukraine’s Largest Bank to Send $5.5 Billion Abroad – OCCRP

Estudo aprofundado sobre as organizações de extrema-direita na
Between Frontline and Parliament: Ukrainian Political Parties and Irregular Armed Groups in 2014–2019

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Texto originalmente publicado por Guilhotina.INFO aqui.
Tradução: Mídia1508

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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