Libaneses atacam bancos e prédios governamentais em mais um dia de protesto após explosão e primeiro-ministro renuncia

“Vamos todos nos unir contra esse governo que matou nossos familiares e nos roubou tudo”, conclamava na tarde de domingo uma jovem manifestante.

Foto: Hannah McKay/Reuters

Manifestantes invadiram ministérios do governo em Beirute e danificaram os escritórios da Associação de Bancos Libaneses, neste sábado (8), enquanto tiros eram disparados, em protestos cada vez maiores após a explosão devastadora da semana passada. Cerca de 10.000 pessoas se reuniram na praça dos Mártires, algumas arremessando pedras. A polícia lançou gás lacrimogêneo quando alguns manifestantes tentaram quebrar uma barreira que bloqueava a rua que leva ao Parlamento.

Os revoltosos entoavam “o povo quer a queda do regime” e “Revolução! Revolução!”, bordões populares durante a Primavera Árabe, em 2011. “Saiam, vocês são todos assassinos” diziam em seus cartazes. Um grupo invadiu o Ministério das Relações Exteriores, onde queimou uma fotografia do presidente libanês, o militar Michel Aoun, representante para muitos de uma classe política que governou o por décadas e que entendem ser culpada pela profunda crise econômica e social que estão vivendo.

Imagens da TV local mostraram populares invadindo também os ministérios da Energia e da Economia. Eles defendem que os políticos deveriam ser enforcados e punidos pela negligência que, segundo eles, levou à gigantesca explosão de terça-feira que matou 158 pessoas e feriu outras 6.000.

“Vamos todos nos unir contra esse governo que matou nossos familiares e nos roubou tudo”, conclamava na tarde de domingo uma jovem manifestante. O sangue vertido de libaneses, entre eles o de Alessandra, uma criança de três anos convertida no rosto da ira popular, junto com os 300.000 moradores que ficaram desabrigados nos bairros mais afetados, deixou em choque o país ao mesmo tempo em que despertou o temor de que ocorram confrontos armados entre seguidores dos partidos tradicionais e manifestantes contra contra o governo.

Renúncia

Nesta segunda-feira (10) o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, renunciou e anunciou a dissolução de seu gabinete. As renúncias de integrantes de sua equipe já demonstravam o enfraquecimento do governo e uma vitória parcial das manifestações. Em pronunciamento à televisão, Diab afirmou que as explosões no porto de Beirute foram o resultado de uma “corrupção endêmica” e disse que toma a decisão de renunciar para “caminhar com o povo”.

Informações preliminares apontam como causa provável da tragédia a explosão de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, material inflamável habitualmente usado na fabricação de fertilizantes e explosivos. Apreendida de um navio abandonado em 2013, a substância estava armazenada no porto de Beirute havia seis anos, sem as condições de segurança adequadas. Mas não se sabe o que teria detonado a substância.

Manifestantes incendeiam um prédio / Foto: Diego Ibarra Sanchez/CNN

Protestos vêm desde outubro de 2019

Embora tenha ganhado novo fôlego após a recente explosão, a onda de protestos contra o atual governo libanês, baseado na partilha de cargos entre políticos xiitas, sunitas e cristãos (muitos há décadas no poder), remonta há pelo menos desde outubro do ano passado. O estopim foi a tentativa do então Ministro das Comunicações, Mohammed Choucair, de instituir um imposto a 2 dólares por mês a todos os usuários de aplicativos grátis para celulares.

Inconformados com a medida – apelidada de “imposto Whatsapp” – milhares de jovens, muitos deles vindos dos segmentos mais empobrecidos do país, manifestaram-se nas grandes cidades. Em 18 de outubro – um dia após o anúncio do tributo – bloquearam as principais estradas e ocuparam em massa pontos emblemáticos do país, como a famosa Praça dos Mártires.

O governo fechou edifícios, universidades e escolas públicas, paradoxalmente encorajando os manifestantes ainda mais a tomar as ruas. O fechamento dos bancos por duas semanas, a partir do início dos protestos, serviu de combustível para a , já que a população não pôde acessar seus depósitos.

Como resultado, o então primeiro ministro Saad Hariri renunciou em 30 de outubro, e em 19 de dezembro Aoun pediu ao seu ministro da Educação, Hassan Diab, que formasse um governo de tecnocratas. A tentativa não teve o consenso das ruas.

Em abril de 2019, Hariri havia lançado medidas de “austeridade” inéditas, prometendo que estabilizariam a economia. Também queria atender as demandas dos principais credores externos do Líbano. Para assegurar US$ 11,2 bilhões em empréstimos e apoio à infraestrutura, oferecidos na Conferência para o Desenvolvimento Econômico por meio de Reformas e com Empresas (Cedre), em Paris, em abril de 2018, o governo comprometeu-se a reduzir seu déficit orçamentário em 1% do PIB anuais, ao longo de cinco anos – uma promessa praticamente impossível.

O orçamento de 2019, só aprovado em julho pelo parlamento, atingiu o setor público com um congelamento de contratações, um veto de três anos às aposentadorias antecipadas e redução dos subsídios aos gastos dos filhos dos servidores públicos com escolas infantis.

O movimento que começou em outubro respondeu diretamente a esse arrocho e seu impacto no setor público e na classe média; mas também à contínua alta de impostos, que afeta especialmente os trabalhadores. O governo recuou do “imposto Whatsapp” após os protestos, mas o aumento do tributo sobre o consumo, em 2017 e as elevações das alíquotas sobre álcool e fumo continuam vigentes. Os protestos também são resultado da condenação unânime à corrupção da classe dirigente e à falta de serviços públicos de qualidade: 20% da população não tem acesso a água potável e cortes de eletricidade frequentes costumam estender-se por até 3 horas em Beirute e 22 horas no restante do país.

Manifestantes enfrentam a polícia de choque em frente ao Hotel Le Gray, no centro de Beirute / Foto: Diego Ibarra Sanchez/CNN

“Lutar contra o poder dos bancos”

Os manifestantes se insurgem também contra o poderio do sistema financeiro no país. Um de seus slogans é “Lutar contra o poder dos bancos”. De Beirute a Nabatieh, no sul do Líbano, e a Tripoli, no norte, houve repetidas manifestações diante dos escritórios do Banco do Líbano e das principais instituições bancárias provadas, que detêm respectivamente 35,3% e 40,1% da dívida do Estado. Desde a guerra civil (1975-90), os governantes buscaram financiar obras de reconstrução por meio de empréstimos junto aos bancos (alguns dos quais são propriedade de políticos), que se aproveitaram das taxas de juros.

Esse repúdio ao capital financeiro, que ficou claro com a invasão e destruição no sábado da Associação de Bancos Libaneses [vídeo], já havia sido demonstrada em atos realizados em junho deste ano. Na ocasião diversas agências bancárias foram incendiadas em todo o país, inclusive uma do Banco Central, em Trípoli.

Dentre as demandas ouvidas nas ruas estão a renegociação da dívida libanesa junto aos bancos, a redução do peso dos juros e a realocação de uma parcela maior do orçamento nacional em benefício dos mais pobres. Num país sob comando do neoliberalismo, são ideias de forte sentido contestador.

No entanto, nem todos os setores do movimento têm consenso a esse respeito, havendo também aqueles que se dariam por satisfeitos com uma versão mais “limpa” do capitalismo libanês, considerando suficientes uma nova lei eleitoral e medidas de combate à corrupção.

À beira da falência

A economia do Líbano está próxima do colapso e há severa desigualdade: o 1% mais rico controla 42% da riqueza nacional e 23% da renda, de acordo com relatório do Laboratório Mundial de Desigualdade. Segundo a lista publicada em 2019 pela Forbes local, cinco das seis maiores fortunas do país pertencem a políticos.

A guerra civil na Síria, desde 2011, provocou impacto na produção agrícola libanesa, já frágil, especialmente em regiões periféricas como o Vale de Bekaa e o distrito de Akkar, que sobreviviam graças ao comércio com cidades sírias como Homs. Desde a queda dos preços do petróleo, em 2014, o fluxo de fundos dos países do Golfo Pérsico secou, assim como a entrada de turistas da Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes.

A pandemia agravou ainda mais a crise. A libra – moeda local – perdeu cerca de 70% de seu valor desde outubro. Os preços de produtos básicos aumentaram 60%, e mais de 200.000 trabalhadores perderam seus empregos nos últimos meses, o que situa a taxa de desemprego em mais de 35% – ou seja, um em cada três cidadãos libaneses não tem emprego. De acordo o Banco Mundial, 45% dos libaneses estão vivendo abaixo da linha de pobreza.

À crítica situação financeira de um país que importa 80% dos que consome, soma-se a acolhida de 1,5 milhão de refugiados sírios e mais de 400.000 palestinos, o que faz do Líbano um dos países com o maior número de refugiados por mil habitantes.

“Apoio” dos EUA às manifestações

Outro fator que tem pesado sobre a vida dos libaneses são as duras sanções impostas ao país pelos Estados Unidos, como forma de enfraquecer o Hezbollah (partido xiita contra o qual Israel guerreia). No sábado (8/8), enquanto protestos dos mais radicais tomavam conta das ruas de Beirute, a a embaixada estadunidense local afirmava por meio de seu Twitter defender uma mudança “pacífica” para o Líbano.

Print de publicações da Embaixada dos EUA em Beirute, Líbano.

“O povo libanês sofreu muito e merece ter líderes que os ouçam e mudem o curso para responder às demandas populares por transparência e responsabilidade” escreveu o órgão, obviamente omitindo a responsabilidade dos próprios Estados Unidos em todo esse sofrimento. “Nós os apoiamos em seu direito ao pacífico e encorajamos todos os envolvidos a se absterem da violência”.

O assédio da potência imperialista é previsível. Diante da relação do Líbano com o Irã, nada mais natural que os EUA tentem se aproveitar de qualquer levante que possa desestabilizar um governo não aliado. Isso não deve servir, no entanto, para deslegitimar a revolta popular que ocorre no país. Apenas coloca para o movimento o desafio de saber reconhecer essa tentativa de cooptação e não se deixar desencaminhar por ela de suas justas reivindicações.

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