Há 100 anos, em 18 de novembro de 1918 iniciava a Insurreição Anarquista no . Os planos, que envolveram diretamente mais de 400 operários e indiretamente milhares de outros, incluíam a tomada e o isolamento do Palácio do Governo, o estabelecimento de uma geral relâmpago, a implantação de 1.600 bombas para a sabotagem das linhas de energia e transporte e a imobilização de possíveis focos de através da ocupação de delegacias e quartéis. Porém um tenente do , com apoio da polícia, se infiltrou no grupo e revelou os planos para os órgãos de repressão.

No início de 1918, notícias esparsas sobre o sucesso alcançado pela Revolução Bolchevique na Russia se espalharam pelas principais capitais brasileiras. Mesmo sem saber muito bem quem eram os tais “bolcheviques”, diversos grupos anarquistas passaram a se organizar com a intenção de derrubar o governo central no Brasil.

Paralelamente, a gripe espanhola se espalhava pelo país, fazendo milhares de vítimas. Como conseqüência da Primeira Guerra Mundial, o custo de vida se elevava, levando boa parte da população à fome, o que resulta em diversos saques à armazéns.

Nas fábricas, as condições de trabalho são péssimas. O ambiente é sombrio e carregado de fumo. Não havia banheiros, mas um buraco no chão, onde os empregados faziam suas necessidades. Entre eles, crianças e mulheres grávidas, que não tinham nenhum tipo de regime diferenciado de trabalho. Todos vigiados por capangas e sujeitos a castigos físicos e descontos salariais por qualquer erro cometido durante a jornada laboral, que era de 12 horas por dia.

Ainda no começo do ano, é criada a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro. Em 1º de março, é fundada a UGT (União Geral dos Trabalhadores), substituindo a FORJ (Federação Operária do Rio de Janeiro), que, em agosto de 1917, havia sido fechada pela repressão.

Desde o seu surgimento a UGT também é alvo de perseguição da polícia que reage a boatos de uma suposta greve geral, nos moldes da que havia parado o Brasil no ano anterior. Apesar de proibidas, multiplicavam-se grandes reuniões de trabalhadores, nas quais oradores e pensadores engajados discursavam para centenas e, por vezes, milhares de pessoas.

Em 1º de maio de 1918, é decretado estado de sítio na cidade do Rio de Janeiro, após operários e anarquistas se organizarem para a comemoração do Dia do Trabalhador nas sedes sindicais, em salões e mesmo num teatro da cidade (Maison Moderne que à época existia na Praça Tiradentes).

No mês de agosto, os funcionários da Companhia Cantareira e da Viação Fluminense entram em greve por melhores salários e jornada de trabalho de oito horas, paralisando os transportes de barca Rio – Niterói e a circulação dos bondes. A mobilização é duramente reprimida. A é tamanha que revoltou até um grupo de soldados do 58º Batalhão de Caçadores do Exército, que pegou suas armas para lutar do lado dos grevistas.

Nos meses de setembro e outubro continuariam os embates entre operários e policiais nas ruas da capital. Neste clima, se reuniriam para prepararem uma insurreição anarquista, que seria finalmente marcada para o dia 18 do mês seguinte. Seu objetivo era derrubar o Estado e substituí-lo por uma rede de conselhos de trabalhadores.

Na manhã do dia 18 de Novembro os empregados da indústria têxtil declararam greve simultânea nas fábricas de Niterói, Petrópolis, Magé, Santo Aleixo e Rio de Janeiro. Rapidamente aderem à paralisação operários do setor metalúrgico e da construção civil. À tarde, cerca de 400 trabalhadores se reuniram no Campo de São Cristóvão, diante do qual é mobilizado o aparato repressivo estatal com objetivo de dispersá-los.

Os manifestantes reagem iniciando uma verdadeira batalha. Duas bombas explodem em uma delegacia próxima e a multidão a toma de assalto. Pouco depois soldados das Forças Armadas cercam o local desocupando a delegacia e dispersando os grevistas que lá estavam. O conflito se estende pelas ruas vizinhas com os militares tentando impedir a massa, que tinha a intenção de ocupar a Intendência do Exército.

No entanto, ao ser colocada em andamento, a tentativa de derrubada do poder é frustrada. As autoridades já tinham conhecimento de todos os planos. O tenente Jorge Elias Ajuz, que participara de todas as reuniões dos insurgentes, era, na verdade, um espião.

Após a tomada a Intendência, trabalhadores e militares revoltosos rumariam para o centro e atacariam a Prefeitura, o Palácio da polícia e o quartel da brigada policial. Na zona sul outro grupo de operários ocuparia o Palácio do Catete e a Câmara de Deputados destituindo o presidente e demais políticos. Nada disso aconteceu.

José Oiticia/ Foto: Reprodução

No inicio da tarde foram presos todos os principais articuladores do levante – José Oiticica, Manuel Campos, Astrogildo Pereira, Carlos Dias, Álvaro Palmeira, José Elias da Silva, João da Costa Pimenta e Agripino Nazaré – que nos dias que se seguiram foram deportados ou expulsos para outros estados do país.

Foram detidos mais de 200 trabalhadores, 78 deles diretamente vinculados aos sindicatos anarquistas. Na porta da fábrica Confiança, o confronto entre a polícia e os trabalhadores resultou na morte do sindicalista Manuel Martins e no ferimento de outro operário que morreu dias depois. Os cortejos fúnebres de ambos seriam proibidos pela polícia, mas ainda assim aconteceriam, acompanhados por centenas de operários.

A greve de metalúrgicos, construtores civis e da indústria têxtil duraria ainda mais duas semanas. No dia 20, a sede dos sindicatos destes setores é fechada e a UGT é dissolvida por decreto federal. A insurreição seria ainda amplamente utilizada como desculpa para que Delfim Moreira, presidente em exercício, perseguisse e acabasse com inúmeras organizações anarquistas, muitas delas sem qualquer envolvimento com o ocorrido. Nem mesmo as escolas modernas em diversas capitais brasileiras seriam poupadas.

A Insurreição Anarquista de 1918 conta um pouco da história dos direitos trabalhistas no Brasil, que, longe de terem sido uma bondosa concessão de Getúlio Vargas, são, ao contrário, fruto de uma longa e sangrenta luta de classes.