Antifascistas protestam contra comício da extrema direita na Espanha

Manifestantes antifascistas protestaram contra o comício de pré-campanha do Vox, partido de extrema direita da Espanha.

A polícia, mais uma vez, atacou manifestantes antifascistas em proteção à extrema direita, em Granada, Espanha, na última quinta-feira (16/04), antes do comício do Vox na Plaza de Las Pasiegas — Foto: LFR

Na última quinta-feira (16), manifestantes antifascistas protestaram contra o comício de pré-campanha do Vox, partido de extrema direita da Espanha, na Plaza de las Pasiegas, na cidade de Granada. 

O evento do Vox, no qual o presidente nacional do partido, Santiago Abascal, apoiou o candidato às eleições regionais, Manuel Gavira, teve seu início atrasado.

Atrás de um cordão policial na rua Pie de la Torre, os manifestantes gritavam slogans e cânticos contra a guerra e o fascismo, como “eles não passarão”, momento em que Abascal tomou a palavra para denunciar o que considerava “um crime eleitoral” e exigiu que o comando da polícia a dissolvesse o grupo de manifestantes, caso contrário, eles seriam “expulsos” da rua.

Em seguida, ocorreram confrontos com a polícia e apoiadores do Vox. Segundo a imprensa local, a polícia abriu processo contra o grupo antifascista.

A repressão policial resultou na prisão de uma pessoa por agressão a um agente e na identificação de várias outras pessoas após o protesto. A informação foi confirmada à Europa Press por fontes da Polícia Nacional, que detalharam especificamente a prisão de uma pessoa por agressão a um agente da polícia, que foi atingido com um mastro de bandeira.

A Seção de Investigação do Tribunal de Primeira Instância nº 1 de Granada, atuando como tribunal de plantão, ordenou a libertação provisória do homem detido por agredir agentes da Polícia Nacional durante os confrontos. Ele está sendo investigado pelo suposto crime de “agressão a agentes da lei”.

O grupo antifascista se reuniu perto da Plaza de las Pasiegas, enfrentando uma forte presença policial — Foto: Luis F. Ruiz

Vox e o fascismo

Entre seus líderes e deputados no parlamento, encontramos empresários e financistas, aristocratas, profissionais altamente qualificados, um general de brigada aposentado que fez carreira em missões internacionais de “paz”, políticos que durante 34 anos foram membros do parlamento pelo partido conservador, prefeitos franquistas e simpatizantes da Falange Espanhola, o partido fascista fundado em 1933 que durante quatro décadas atuou como o único partido do Estado.

Eles fazem o barulho que atrai os setores populares desencantados, os mesmos onde procuram apoio. Eles quebram moldes da mesma forma em que seus ancestrais ideológicos da década de 1930 quebraram cabeças. Usam roupas caras e afirmam ter sensibilidade social: criaram o sindicato Solidariedade para a defesa dos trabalhadores espanhóis, porque se declaram contrários à imigração que, dizem, é favorecida por ONGs e partidos progressistas, quando os estrangeiros (mouros, negros, sudacas), segundo eles, gerariam insegurança trabalhista e delinquência. Toda noite, os deputados voltam para suas casas nas áreas residenciais mais exclusivas de Madri.

O Vox é o partido da extrema direita espanhola. A direita que “não sente complexo” em se reconhecer em expressões radicais. Iniciou suas atividades em 2014 e mal recebeu 0,20% dos votos válidos nas eleições gerais de 2016. Já em 2019, recebeu mais de 15% dos votos, tornando-se o terceiro partido mais votado, com 52 deputados em um parlamento nacional de 350 assentos. Os resultados das eleições parlamentares regionais foram mais modestos, mas seu apoio tem sido indispensável para sustentar os governos do Partido Popular (PP), a direita conservadora tradicional.

O Vox e o PP compartilham um discurso semelhante desde 2018: dizem que o governo socialista formado naquele ano é ilegítimo, pois chegou ao poder por meio de uma moção de censura; que o governo de coalizão entre os socialistas e a esquerda reunidos no Unidas Podemos, que comanda o país desde 2019, também é ilegítimo, pois faz acordos com partidos separatistas catalães e bascos para conseguir maioria. Não importa que nenhuma das medidas aprovadas por esse amplo acordo respeite escrupulosamente a Constituição.

O Partido Popular foi formado em 1989 pela união da Alianza Popular (AP) a pequenos partidos de ideologia democrata-cristã e liberal que, por sua vez, se formaram a partir da desintegração da União do Centro Democrático (UCD). A UCD e a AP surgiram em 1977 para disputar as primeiras eleições democráticas após a morte de Franco. Os dois partidos eram formados por personalidades que, em sua maioria, haviam feito sua carreira política durante a ditadura (1939–1977).

O presidente da UCD e do governo nomeado pelo rei em 1976, confirmado nas urnas um ano depois, era Adolfo Suárez, que havia sido diretor-geral da televisão estatal durante a era Franco e, em 1975, havia sido nomeado secretário-geral do Movimento Nacional, o único partido cujo líder tinha um cargo de ministro. A UCD adotou um projeto de democratização que incluía o esquecimento do passado e a exoneração das responsabilidades pelas quatro décadas de ditadura. Os empresários deram-lhe total apoio em um momento de grave crise econômica.

Os fundadores da AP pertenciam à geração anterior, quase todos os seus líderes haviam sido ministros de Franco na década de 1960, anos do desenvolvimento econômico. Alguns por convicção e outros por erro de cálculo, eles acreditaram que muitos simpatizantes do regime anterior não gostavam ou temiam as consequências de uma ruptura como aquela que estava sendo proposta, a qual incluía a legalização do Partido Comunista, então a principal força da oposição democrática, e adotaram um discurso neofranquista que foi severamente punido nas urnas. Metade do grupo parlamentar da AP votou contra a Constituição aprovada em 1978. Nos anos seguintes, após sucessivos fracassos, o partido tornou-se mais moderado. Transformado em PP, em 1996 o partido chegou ao poder sob o comando de Aznar, permanecendo no governo por oito anos. O PP retornou ao governo entre 2011 e 2018.

Coexistiam, no PP, elementos da direita conservadora e liberal, ultracatólicos e setores muito secularizados que não defendiam leis sobre o aborto ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como fizeram os socialistas; eles as enviavam ao Tribunal Constitucional, mas não as adotavam quando era sua vez de governar. Sempre houve, também, elementos de extrema direita no PP, nostálgicos da ditadura, que atraem um voto radical.


Fontes:
Los altercados antes del mitin de Vox en Granada dejan un detenido y varios identificados
Um espectro sombrio: o Vox na Espanha e a extrema-direita internacional

Mídia1508

A 1508 é um coletivo anticapitalista de jornalismo independente, dedicado a expor as injustiças sociais e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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