Itália: 50.000 protestam contra o despejo de centro social antifascista

O centro social Askatasuna, cujo nome significa “liberdade” em basco, tem sido um ponto de referência central para a esquerda autônoma e radical da cidade desde 1996.

Manifestantes entram em confronto com a polícia pelo despejo do centro social Askatasuna — Foto: Marco Alpozzi/LaPresse

Mais de 50.000 pessoas de toda a Itália marcharam pelas ruas de Turim no último sábado (31.01) em uma manifestação contra o despejo do antigo centro social Askatasuna, ocorrido ano passado, em 18 de dezembro de 2025.

O protesto reuniu uma ampla gama de movimentos, incluindo grupos de direitos à moradia, coletivos estudantis de escolas e universidades, ativistas sindicais e antifascistas, o Movimento No Tav do Vale de Susa e organizações que se mobilizam em apoio à Palestina e ao Curdistão.

A manifestação foi organizada em três marchas separadas. Um deles partiu do Palazzo Nuovo, lar do corpo docente da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Turim, que havia sido ocupado por estudantes nos dias que antecederam o protesto e fechou pela segunda vez em uma semana. “Isso faz parte de uma guerra geral para suprimir a dissidência, que está ameaçando seriamente outros centros-chave de oposição social”, disse um participante.

Uma segunda marcha partiu da estação ferroviária Porta Nuova, liderada pelo Movimento No Tav, enquanto a terceira começou mais cedo a partir de Porta Susa sob o slogan “Contra o governo da guerra: por habitação, escolas e renda”.

Os três grupos convergiram na Piazza Vittorio Veneto antes de se mover em direção ao distrito de Vanchiglia, aproximando-se do edifício que abrigou Askatasuna até o mês passado.

Manifestantes entram em confronto com a polícia pelo despejo do centro social Askatasuna — Foto: Marco Alpozzi/LaPresse

Confrontos eclodiram perto do local enquanto a polícia procurava bloquear o avanço dos manifestantes. A polícia usou canhões de água e gás lacrimogêneo, enquanto os manifestantes ergueram barricadas improvisadas e resistiram a repetidos ataques contra o protesto.

Segundo participantes e observadores legais, os confrontos duraram várias horas. Grupos de ativistas relataram inúmeros ferimentos, alguns descritos como graves, e disseram que pelo menos 10 pessoas foram presas.

“Era um protesto pacífico até às 18h, quando a polícia começou a agredir todos os manifestantes na linha de frente que carregavam cartazes com inscrições antifascistas”, relatou um manifestante. “A partir desse momento, um grupo de pessoas com a tática Black Bloc surgiu e começou a atacar os policiais que agrediam os manifestantes pacíficos, e a partir daí a situação se tornou uma guerrilha”, concluiu.

Mais de 30 pessoas foram espancadas até sangrar e um fotógrafo foi agredido diversas vezes por policiais. Em um determinado momento, um policial ficou isolado e foi cercado por vários manifestantes que o atacaram, em resposta às agressões. O governo italiano não se pronunciou sobre as agressões, e os noticiários, controlados pelo governo, apenas compartilharam o vídeo em que o policial é agredido.

Foto: Freedom News

Askatasuna

Askatasuna, cujo nome significa “liberdade” em basco, tem sido um ponto de referência central para a esquerda autônoma e radical da cidade desde 1996. Ao longo dos anos, acolheu assembleias políticas, eventos culturais, concertos e serviços comunitários, incluindo aconselhamento habitacional, atividades para crianças e projetos de ajuda mútua.

O centro também esteve intimamente envolvido em importantes ciclos de protesto em Turim, desde o Movimento No TAV no Vale de Susa até mobilizações contra guerra e o fascismo.

Há muito tempo serve como um centro para os movimentos autônomos e seu despejo ocorreu apesar de um recente acordo com o município destinado a reconhecer o edifício como um “bem comum”.

Autoridades do governo defenderam o despejo como uma questão de ordem pública, enquanto ativistas argumentam que é parte de uma repressão mais ampla à oposição, intensificada durante os recentes protestos sobre a genocídio de Israel em Gaza.

Na Itália, durante os anos 70, houve uma onda de insurreições que levou ao nascimento de muitas associações e grupos de esquerda extraparlamentar. Ao mesmo tempo o livro “domínio e sabotagem” (Dominio e Sabotaggio, 1978) de Antonio Megri, filósofo marxista, alimentou a onda de centros sociais autônomos ocupados nos anos 80. Muitos estavam ativos até hoje. Outros fecharam para nascer em novos locais e alguns se transformaram em outras coisas. As pessoas que criaram estes centros construíram também muitas associações (como, por exemplo, para salvar refugiados no Mar Mediterrâneo) que fazem desobediência civil e ativismo.

Nos últimos cinco anos (mesmo sendo uma constante ao longo dos anos) a repressão contra todos esses espaços aumentou drasticamente e a Askatasuna é apenas a última de muitos que sucumbiram à perseguição de um governo de extrema direita (fascista).

Despejo do centro social Askatasuna, 18 de dezembro de 2025 — Foto: GlobalProject

Prefeito recua em acordo após protestos por Gaza

O centro social Askatasuna foi desocupado na madrugada do dia 18 de dezembro de 2025, pondo fim há quase 30 anos de ocupação. A operação envolveu a polícia política DIGOS e veículos blindados, com o bloqueio de diversas ruas. A polícia entrou no antigo prédio municipal de quatro andares no início da manhã para realizar buscas e, em seguida, lacrou o local. Segundo ativistas, seis pessoas estavam dentro do prédio no momento da operação. As casas de cerca de dez ativistas ligados ao centro social e coletivos estudantis foram alvo de buscas simultâneas, em conexão com recentes protestos de solidariedade à Palestina, incluindo uma ação na sede da fabricante de armas Leonardo.

Durante o dia do despejo, a polícia usou um canhão de água para dispersar uma crescente multidão de apoiadores que se reuniram em frente ao prédio, enquanto o trânsito na área foi bloqueado e pelo menos uma linha de bonde próxima foi suspensa. Duas escolas na região foram fechadas por ordem da prefeitura.

O prefeito de Turim, Stefano Lo Russo, afirmou que a cidade se retirou de um “pacto de colaboração” com a Askatasuna, vigente desde o início de 2024, quando a Câmara Municipal reconheceu formalmente o prédio ocupado como um “bem comum” e iniciou um processo de gestão compartilhada. A prefeitura declarou que inspeções realizadas pelas autoridades de segurança pública constataram violações das condições do acordo.

Despejo do centro social Askatasuna, 18 de dezembro de 2025 — Foto: GlobalProject

Ativistas e grupos de solidariedade contestam essa versão, argumentando que a operação policial e a retirada do pacto ocorreram em paralelo e que a pressão do governo de extrema direita de Giorgia Meloni desempenhou um papel decisivo — de forma semelhante ao despejo do centro social Leoncavallo, em Milão, no início deste ano.

Diversas declarações descreveram o despejo com o objetivo de enfraquecer os movimentos sociais, em particular aqueles envolvidos na organização de protestos contra o genocídio em Gaza e o papel da Itália em alianças militares internacionais.

Poucas horas após o despejo, dezenas de organizações em toda a Itália emitiram declarações de solidariedade, incluindo sindicatos, grupos estudantis e redes de centros sociais. Muitas enquadraram a operação como parte de um endurecimento mais amplo das políticas de ordem pública sob o governo de Meloni. Uma declaração conjunta de centros sociais do nordeste da Itália descreveu a operação em Turim como um “ato exemplar” concebido para intimidar e alertou que os espaços autônomos estavam sendo cada vez mais tratados como alvos da repressão.

Foto: Freedom News
Foto: Freedom News
Foto: Freedom News
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency
Foto: Elisa Marchina/NurPhoto Agency


Fontes:
Turin: 50,000 protest Askatasuna eviction
Turin: Askatasuna social centre evicted

Mídia1508

A 1508 é um coletivo anticapitalista de jornalismo independente, dedicado a expor as injustiças sociais e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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