Casa do bairro carioca de Rio Comprido onde o embaixador Elbrick foi mantido refém — Foto: Fundo Última Hora

Brasil: um 7 de setembro revolucionário para não esquecer

Em 1969, cansados da paralisia dos partidos de esquerda, movimentos revolucionários sequestraram um embaixador norte-americano e salvaram vidas.

Em uma das mais espetaculares ação da urbana contra a ditadura militar no Brasil, um grupo formado por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) captura o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, em uma rua no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Em troca do diplomata, as duas organizações passam a exigir a libertação de 15 presos políticos e a divulgação em rádio e TV de um manifesto revolucionário. O prazo fixado para resposta era de 48 horas. E foi cumprido.

A ação ocorreu no dia 4 de setembro de 1969, com intuito de trocar o embaixador por presos políticos e estudantes que corriam risco de morte.

O sequestro surpreendeu a Junta Militar, que havia assumido o poder poucos dias antes. Alguns oficiais das Forças Armadas foram contra a libertação dos presos, mas a pressão do governo dos EUA, fiador do de 64 e da ditadura brasileira, falou mais alto. Os militares se viram forçados a libertar os 15 presos políticos e os devolveram o embaixador. Logo após ter sido libertado, Charles Burke fez um depoimento surpreendentemente simpático aos guerrilheiros, que ele descreveu como “jovens inteligentes, fanáticos e determinados”. O que gerou mal-estar político e extraoficialmente, supõe-se que seu afastamento decorra também por esse depoimento.

Em de 1969 é liberado o embaixador americano e os 15 presos são libertados. Em função do AI-13* são banidos e sofrem um exílio forçado. O embarque das quinze pessoas escolhidas ocorreu em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira), um Hércules 56, que os conduziu até o México, onde foram libertados. Todos os militantes foram convidados por Fidel Castro a seguirem para Cuba e lá ficarem, se tivessem interesse em treinamentos de guerrilha, clandestinidade etc.

Presos trocados pelo diplomata norte-americano pouco antes do embarque para o México — Foto: Iconographia

O embarque dos “banidos” em um Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) e a viagem ao foram cercados de tensão, devido ao temor de que o avião fosse atacado no solo ou em voo por militares descontentes com a libertação dos presos políticos. Depois da chegada do grupo na Cidade do México, o embaixador Elbrick foi libertado pelo comando da ALN e do MR-8. Era um domingo, 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil e da maior humilhação até então imposta à ditadura.

Dois dias depois, foi baixado o AI-14, instituindo a pena de morte e a prisão perpétua em casos de “guerra revolucionária e subversiva”. Nos anos seguintes, em ações cada vez mais desgastantes e arriscadas, seriam sequestrados e trocados por presos políticos os embaixadores da Alemanha e da Suíça e o cônsul do Japão em São Paulo.

Manchete do “Jornal do Brasil” de 5 de setembro de 1969

Reproduzimos aqui parte do manifesto com as exigências pela libertação do embaixador estadunidense, na luta contra a ditadura militar no Brasil:

“(….) A vida e a morte do sr. embaixador estão nas mãos da ditadura. Se ela atender a duas exigências, o sr. Burke Elbrick será libertado. Caso contrário, seremos obrigados a cumprir a justiça revolucionária. Nossas duas exigências são:

a) A libertação de quinze prisioneiros políticos. São quinze entre os milhares que sofrem as torturas nas prisões-quartéis de todo o país, que são espancados, seviciados, e que amargam as humilhações impostas pelos militares. Não estamos exigindo o impossível. Não estamos exigindo a restituição da vida de inúmeros combatentes assassinados nas prisões. Esses não serão libertados, é lógico. Serão vingados, um dia. Exigimos apenas a libertação desses quinze homens, líderes da luta contra a ditadura. Cada um deles vale cem embaixadores, do ponto de vista do povo. Mas um embaixador dos também vale muito, do ponto de vista da ditadura e da exploração.

b) A publicação e leitura desta mensagem, na íntegra, nos principais jornais, rádios e televisões de todo o país.

Os quinze prisioneiros políticos devem ser conduzidos em avião especial até um país determinado – Argélia, ou México – onde lhes seja concedido asilo político. Contra eles não devem ser tentadas quaisquer represálias, sob pena de retaliação.

A ditadura tem 48 horas para responder publicamente se aceita ou rejeita nossa proposta. Se a resposta for positiva, divulgaremos a lista dos quinze líderes e esperaremos 24 horas por seu transporte para um país seguro. Se a resposta for negativa, ou se não houver resposta nesse prazo, o sr. Burke Elbrick será justiçado. Os quinze companheiros devem ser libertados, estejam ou não condenados: esta é uma “situação excepcional”. Nas “situações excepcionais”, os juristas da ditadura sempre arranjam uma fórmula para resolver as coisas, como se viu recentemente, na subida da junta militar.

As conversações só serão iniciadas a partir de declarações públicas e oficiais da ditadura de que atenderá às exigências.

O método será sempre público por parte das autoridades e sempre imprevisto por nossa parte.

Queremos lembrar que os prazos são improrrogáveis e que não vacilaremos em cumprir nossas promessas.

Finalmente, queremos advertir aqueles que torturam, espancam e matam nossos companheiros: não vamos aceitar a continuação dessa prática odiosa. Estamos dando o último aviso.

Quem prosseguir torturando, espancando e matando ponha as barbas de molho. Agora é olho por olho, dente por dente.

Ação Libertadora Nacional (ALN)
Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8)”.

Trechos extraídos do disco “Rádio Jornal do Brasil – A História de 69 em Música e Informação”:



* O AI-13 (Ato Institucional Número Treze) endureceu ainda mais o regime militar, pois institucionalizou o banimento ou expulsão do Brasil de qualquer cidadão que fosse considerado “inconveniente” para a ditadura.

Fonte: Memorial da Democracia

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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