Condenar os palestinos é desprezível

Em tese, "condenar" é um verbo que pode ser aplicado a qualquer ato que desencadeie sentimentos de forte reprovação. Na prática, ela é usada mais para se opor à violência dos oprimidos do que à opressão que causa essa violência.

Mural na Irlanda do Norte que diz: “Resistência não é Terrorismo” - Foto: Reprodução/Twitter

Por David Cronin.
Tradução: Mídia1508.

Aprendi a palavra “condenar” desde cedo. Foi usada constantemente em boletins de notícias irlandeses na década de 1980.

Em tese, “condenar” é um verbo que pode ser aplicado a qualquer ato que desencadeie sentimentos de forte reprovação. Na prática, ela é usada mais para se opor à violência dos oprimidos do que à opressão que causa essa violência.

A partilha da Irlanda e da foi iniciada pela Grã-Bretanha.

Além de dividir os dois países, a adotou políticas semelhantes em ambas as situações.

Pessoas de uma etnia e religião eram encorajadas a discriminar – sistematicamente – pessoas de outra. Em ambos os casos, a discriminação ocorreu em um contexto de colonização-colonialismo.

Com essa história tendo consequências que perduram até hoje, a deveria ser condenada rotineiramente por todos que se opõem à injustiça.

Se a mídia realmente fizesse seu trabalho e expusesse os crimes do Reino Unido, os comentários feitos nos últimos dias por James Cleverly, o ministro das Relações Exteriores, teriam credibilidade zero.

Segundo Cleverly, o Reino Unido “condena inequivocamente os horríveis ataques do Hamas contra civis israelenses”. O Reino Unido, acrescentou, “sempre apoiará o direito de Israel de se defender”.

Os “ataques” a que aludiu foram, na verdade, uma resposta à brutal subjugação do povo palestino. A Grã-Bretanha pôs essa subjugação em movimento já em 1917, quando Arthur James Balfour, um dos antecessores de Cleverly como ministro das Relações Exteriores, assinou sua infame declaração de apoio ao movimento sionista e seu projeto de colonização.

Direito de defesa?

Tudo o que se fala sobre o “direito de Israel de se defender” é uma completa baboseira [is utter bollocks] – se me permitem usar um termo com o qual Cleverly está indubitavelmente familiarizado.

Israel – que submete Gaza a um bloqueio total desde 2007 e bombardeia seu povo com uma regularidade assustadora – não tem o direito de se defender. A verdade é que os palestinos têm o direito – reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas – de se defenderem da ocupação de Israel e de toda a sua consequente agressão.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, tentou soar ainda mais irritada do que Cleverly. Ela fulminou “o ataque realizado por terroristas do Hamas”, classificando-o como “terrorismo em sua forma mais desprezível”. Não é nem preciso dizer que Von der Leyen não tinha nada a declarar sobre como a mima Israel – procurando ativamente relações mais estreitas com esse Estado, mesmo quando o seu governo assume um caráter abertamente fascista. A própria Von der Leyen endossou implicitamente a limpeza étnica sobre a qual Israel foi fundado em 1948, elogiando o sonho sionista de fazer “o deserto florescer”.

Com esse registro, não é surpreendente que Von der Leyen seja seletiva em sua indignação.

Ariel Kallner, membro do Knesset (parlamento de Israel), reagiu à operação liderada pelo Hamas pedindo uma nova Nakba.

A Nakba – árabe para catástrofe – envolveu a expulsão de aproximadamente 800.000 palestinos de suas casas. Kallner defendeu uma “Nakba que ofusque a Nakba de 48”, argumentando que “não há outro caminho”.

Kallner preside uma comissão no Knesset que trata das relações de Israel com a UE. No entanto, sua ligação não suscitou nenhum comentário de von der Leyen ou de outros atores seniors da burocracia de Bruxelas.

As reticências de Von der Leyen são coerentes. Se ela deu sua bênção à primeira Nakba, então por que ela teria algum escrúpulo em relação a uma nova?

Antissemitismo vil

Sua companheira alemã Katharina von Schnurbein – coordenadora da UE para o combate ao antissemitismo – expressou “total a Israel e ao povo judeu” desde a operação liderada pelo Hamas.

Ao circular essa mensagem, von Schnurbein cometeu um ato antissemita.

Ela promove incansavelmente a definição e os “exemplos” de antissemitismo adotados pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto – um grupo de lobby formado por Israel e governos que o apoiam.

Um exemplo é “responsabilizar judeus coletivamente por ações do Estado de Israel”.

Ao expressar dessa forma, von Schnurbein está afirmando que Israel está agora bombardeando torres residenciais em Gaza em nome de judeus em todo o mundo. Ela deveria ser formalmente censurada por esse antissemitismo vil, mas podemos ter certeza de que ela não será.

Embora a operação liderada pelo Hamas tenha pego todos de surpresa, a resposta dos EUA era totalmente previsível. Joe Biden, o presidente, afirmou que “Israel tem o direito de se defender – ponto final”.

Com esse “ponto final”, ficou claro que começaria a derramar lágrimas por todos os palestinos que agora estão sendo mortos com as armas fabricadas pelos EUA no arsenal de Israel.

Bernie Sanders – o senador que já argumentou que “vidas palestinas importam” – não está genuinamente comprometido com a liberdade palestina.

Como tantos outros políticos, ele se apressou em condenar a operação liderada pelo Hamas, sem dizer uma palavra sobre os assassinatos implacáveis de palestinos por Israel, que este ano já haviam ultrapassado o terrível total do ano passado, mesmo antes dos eventos mais recentes.

As condenações rituais que ouvi crescer na Irlanda não salvaram uma única vida. Só quando foi feito um esforço concertado para resolver as injustiças subjacentes é que uma paz – ainda que falha e frágil – pôde ser estabelecida.

As condenações rituais dos combatentes da nos últimos dias também não salvarão uma vida.

Ao flanquear as condenações com lixo enganoso sobre o “direito de se defender” de Israel, os políticos do Ocidente estão ao lado do opressor. Estão dando carta branca a Israel para continuar matando palestinos.

O seu coro de condenação não merece senão desprezo.


David Cronin é um editor associado do site The Electronic Intifada. É autor dos livros Balfour’s Shadow: A Century of British Support for Zionism and Israel e Europe’s Alliance with Israel: Aiding the Occupation, entre outros.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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