Guerra sem fim: “não é um conflito onde há heróis e mocinhos, aqui todos são responsáveis”

A CIA armou, treinou e patrocinou os chamados Mujahadeen (hoje Talibã), guerreiros árabes, persas, afegãos e paquistaneses, para combater o governo comunista do Afeganistão da época.

Foto: Yan Boechat

A reportagem do jornalista Yan Boechat, que esteve no Afeganistão em 2020, traz um retrato do que para muitos na região era questão de tempo, a volta do ao poder. Texto e fotos: Yan Boechat.
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À primeira vista, a Cedar’s House se parece mais com uma prisão. Paredes altas, grandes portões de ferro, nenhuma placa, nenhum nome, nenhuma cor. Do lado de fora, homens armados com fuzis AK-47 e pistolas 9mm passam dias e noites dentro de uma pequena guarita de concreto protegida por sacos de areia. São a primeira barreira de segurança deste misto de hotel, pousada e centro de convenções no bairro de Shahr-e Naw, na área central de Cabul.

Qualquer um que tente chegar à recepção do Cedar’s House precisará passar por eles e por mais três barreiras de segurança. É um trajeto curto, de pouco mais de 20 metros entre a rua e o aprazível jardim onde dezenas de passarinhos fazem uma algazarra permanente no viveiro rodeado de figueiras. Mas é um trajeto lento. Cada visitante, hóspede ou não, precisa cruzar quatro portas de ferro, duas paredes anti-bomba, detectores de metal, revistas pessoais e mais um pequeno batalhão de soldados bem armados.

O Cedar’s House é uma das pousadas mais simples e baratas da região central de Cabul. Não recebe chefes de missões estrangeiras, trabalhadores de importantes Organizações Governamentais ou mesmo integrantes de grandes companhias internacionais que fazem negócios no Afeganistão. Entre seus hóspedes não estão nem mesmo afegãos proeminentes, políticos importantes de províncias distantes ou empresários locais que precisam vir a Cabul lidar com a burocracia estatal. Ainda assim, o hotel precisou se converter em uma fortaleza.

“Tenho mais de 20 homens armados fazendo a segurança aqui, é um batalhão de pequeno porte”, me conta Youssuf Hazar, o gerente do hotel. Além da milícia particular, o Cedar’s oferece a seus hóspedes um quarto blindado no subsolo com mais de 15 camas, protegido por três portas anti-bombas. Ali mantém um estoque de alimentos, remédios e água para ao menos três dias. De lá, um túnel da acesso a uma das ruas laterais. “Estamos seguros, se ouvir uma explosão muito forte nossa recomendação é de que você pare tudo e corra o mais rápido possível para o subsolo. Em um minuto as portas se fecharão. Mas não se preocupe, é tempo suficiente para chegar lá de qualquer parte do hotel”, me diz ele, tranquilo, como se estivesse dando instruções a respeito do café da manhã.

Tanta precaução faz sentido. Ataques do têm se repetido com uma frequência tão grande que se tornaram parte do cotidiano dessa cidade de mais de três milhões de habitantes. Suicidas com explosivos grudados ao corpo, carros bomba, atiradores solitários, operações coordenadas com vários combatentes, bombas de detonação remota… A lista de métodos usados para matar civis e militares é tão vasta quanto o perfil daqueles escolhidos como vítimas. “Já não há mais estratégia, já não há mais objetivos claros, todos estamos alvos nessa guerra”, conta Youssuf. “Ainda não fomos atacados, espero que isso não aconteça, mas não posso negar que esperamos isso todos os dias”.

Cabul é uma cidade com medo. Assim como no Cedar’s, em qualquer loja, hotel, prédio público ou mesmo simples restaurantes da cidade há uma pequena operação de guerra na tentativa de conter a resiliência dos militantes do dispostos a dar a vida para provar aos Estados Unidos que o Afeganistão jamais será conquistado por uma força estrangeira. As estratégias de defesa, no entanto, não têm sido suficientes. No ano passado, o Afeganistão viu as condições de segurança se deteriorarem em todo o país, mas em especial em Cabul, de uma forma que ainda não via em anos. De acordo com um levantamento da ONU, entre julho e setembro de 2019 morreram mais civis no Afeganistão do que em qualquer trimestre dessa guerra que se arrasta há quase duas décadas. “Julho especialmente foi o mês mais sangrento, com 425 mortes e mais de 1,1 mil feridos, jamais havíamos registrado tantas vítimas civis em um só mês desde que iniciamos esse controle sistemático, em 2009”, diz o relatório da Missão de Assistência ao Afeganistão das Nações Unidas (Unama, na sigla em inglês).

Foto: Yan Boechat

O relatório que mostrou em números o que se percebe no país chegou em uma data simbólica: 17 de outubro. Nesse mesmo dia, 18 anos antes, as primeiras tropas especiais americanas saíam em dois helicópteros Chinook de uma base no Uzbequistão para entrar pela primeira vez de forma oficial no Afeganistão. Começava ali o mais longo conflito armado da história americana. Começava também a grande aventura americana no Oriente Médio que viria a desestabilizar toda a região e que segue sem sinal de resolução quase 20 anos depois.

A Guerra ao Terror iniciada pelo ex-presidente George W. Bush em 2001 ao invadir o Afeganistão como resposta aos atentados de 11 de setembro espalharam-se por dezenas de países em diferentes graus de atuação e levaram com que o Oriente Médio entrasse em um conflito permanente desde então. Ao longo dessas duas décadas os Estados Unidos invadiram o Iraque, entraram na Síria, apoiaram os aliados da Arábia Saudita no Yemen e conduziram o que classificam como “ações anti-terroristas” em mais de 80 países mundo à fora.

De acordo com um levantamento do projeto “Costs of War”, patrocinado pelo Instituto Watson da Universidade de Brown, a Guerra ao Terror americana deixou um rastro de mais de 850 mil mortes, quase a metade delas, de civis. O levantamento mostra ainda que cerca de 21 milhões de pessoas se tornaram refugiadas, seja em países diferentes dos seus ou em seus próprios países. Ao todo, mostra o estudo, mais de US$ 6 trilhões foram drenados dos cofres americanos para os esforços de guerra mundo à fora. O assassinato do general iraniano Qassem Suleimani a mando do presidente americano Donald Trump no início desse ano e suas prováveis consequências mostram que este é um conflito que promete se estender por anos.

Cobaias

O Afeganistão foi o principal laboratório. Além de destruir a Al Qaeda e o Talibã, Washington decidiu que construiria ali uma democracia liberal ao estilo ocidental. Até agora não conseguiram nem uma coisa, nem outra. Ao longo dessas quase duas décadas os americanos já enviaram mais de 770 mil homens para o país que serviu de abrigo para Osama Bin Landen e sua Al Qaeda. Desses, 2,3 mil perderam a vida e outros mais de 20 mil retornaram para os Estados Unidos feridos ou mutilados. Ao todo, o governo americano já gastou cerca de US$ 2 trilhões nos esforços de guerra apenas no Afeganistão. Despejou quase US$ 150 bilhões de dólares na tentativa de reconstruir o país à sua imagem e semelhança — mais do que todo o investimento feito na reconstrução europeia no Plano Marshal, em volumes financeiros atualizado pela inflação do período.

Para os afegãos, os custos foram ainda maiores. Nesses quase 20 anos, mais de 40 mil civis foram mortos. Outros cerca de 65 mil afegãos que se juntaram às forças militares ou policiais treinadas pelos Estados Unidos e pelos países que integraram a coalizão internacional na invasão ao país também perderam a vida. Entre os combatentes do Talibã, estima-se que mais de 42 mil deles tenham morrido. Os números de pessoas afetadas de forma permanente pela guerra é uma incógnita, mas estimativas da Cruz Vermelha dão conta de que cerca de 1,5 milhão de pessoas tenham algum tipo incapacidade motora, maior parte delas causadas por ferimentos de bombas, tiros ou minas. O governo afegão estima que cerca de 250 mil crianças estejam órfãs.

Foram esforços em vão. Os resultados desses quase 20 anos de guerra mostram que a estratégia americana para o Afeganistão foi um fracasso absoluto. Hoje o controla mais de 50% do território, atinge as grandes cidades com seus ataques suicidas com a mesma facilidade com que as armas ultramodernas dos Estados Unidos atingem posições remotas desse país árido e montanhoso cortado ao meio por uma extensa cordilheira que chega a ter até 7 mil metros de altitude em seus pontos mais extremos, o Hindu Kush. O grupo também está presente em todas as províncias do país e controla uma extensa cadeia de produção, refino e distribuição de opiáceos, que vão desde o ópio puro, passando pela morfina até chegar a heroína.

O grupo visto como um dos inimigos prioritários dos Estados Unidos no início dos anos 2000 por dar apoio à Al Qaeda de Bin Laden está mais forte hoje do que há 20 anos. O próprio governo americano estima que o número de combatentes tenha crescido mais de 50% na última década e hoje esteja em mais de 65 mil membros, algo como quase 5 vezes o número de soldados americanos que ainda seguem em solo afegão. “A história mostra que os afegãos tem uma estranha tenacidade, estamos vivendo há 40 anos em guerra, quase todos os dias temos dezenas de mortes ocorrendo em todos os cantos do país, os americanos precisam entender que este conflito não será resolvido de forma militar, essa guerra jamais terá fim”, diz Abdul Hakim Mujahid, ex-embaixador do na ONU em Nova York em 2001, quando os EUA sofreram o maior ataque terrorista de sua história. “Ainda fiquei lá até outubro, mas já não havia mais nada a fazer. Me permitiram sair e me exilei no Paquistão, quando pude retornar ao Afeganistão. Já não faço parte do Talibã há quase 20 anos”, conta ele em seu escritório em um edifício de arquitetura tipicamente soviética, construído quando os russos dominavam o país, na década de 80.

Há pouco mais de um ano os americanos entenderam que se não abandonassem a ideia de vencer militarmente o teriam destino semelhante ao da Inglaterra e ao da Rússia. As duas potências também tentaram conquistar o país em campanhas militares faraônicas. O Império inglês tentou manter controle sobre o Afeganistão por quase 100 anos entre o início do século 18 e início do século 19. Envolveu-se em três guerras de grande escala contra os afegãos, perdeu quase 30 mil homens e, em 1919 desistiu oficialmente de manter o país como uma de suas colônias. Em 1979 foi a vez de a União Soviética invadir. Por 10 anos tentou dominar os afegãos. Perdeu 14 mil homens, levou para casa mais de 50 mil feridos e, para muitos, selou seu destino ao despejar bilhões de dólares que já não dispunham em uma operação fadada ao fracasso. Nove meses após a saída do último soldado do do país, o Muro de Berlim caiu.

Desde 2011 os Estados Unidos vem tentando encontrar uma maneira de negociar com o Talibã. Contatos breves e pouco produtivos por meio de intermediários ocorreram em 2011, pouco depois de o governo de Barack Obama enviar um adicional de mais de 35 mil homens para o país na tentativa de sufocar o grupo militarmente e conquistar um acordo em bons termos para a saída do país.

Os acordos não prosperaram e, com a decisão de Obama de cessar o uso de militares americanos em operações militares de grande porte em 2014, o Talibã se expandiu de forma impressionante. Só nos últimos cinco anos, mais de 40 mil homens da Polícia Nacional Afegã e das Forças Armadas Afegãs morreram em combate ao grupo. Antes restrito a algumas províncias de maioria pashto, — a etnia majoritária do país e que historicamente controlou o Afeganistão — o Talibã se expandiu por todas as regiões do Afeganistão e passou a atrair combatentes de diferentes grupos étnicos. A nova estratégia de treinar as forças locais e oferecer apenas suporte logístico e aéreo se mostrou pouco efetiva. “Nossas tropas são leais, são guerreiras, são resilientes, mas não se constrói um exército em 10, 15 anos. É preciso muito mais tempo”, diz o ex-secretário executivo do Ministério da Defesa do Afeganistão no governo do ex-presidente Hamid Kharzai, Tamim Assi. Não há dúvida de que os Estados Unidos e os europeus não podem simplesmente deixar o país de uma hora para outra, seria o caos”.

Desde que assumiu o governo em 2017 o presidente Donald Trump está determinado em retirar as tropas americanas do Afeganistão. Em outubro do ano passado escalou o ex-embaixador para o país, Zalmay Khalilzad, para abrir negociações diretas com o Talibã em busca de uma saída honrosa do conflito. Ao longo de todo o primeiro semestre os antigos inimigos se reuniram em Doha, no Catar, na tentativa de fazer um acordo que permitisse o fim das batalhas, o retorno do Talibã ao sistema político legal afegão e a consequente retirada das tropas americanas do país.

Em setembro, pouco antes das eleições presidenciais afegãs — que até o início desse ano ainda não tem um vencedor reconhecido -, tudo parecia pronto para um acordo. O Talibã comprometia-se a conservar alguns direitos para as mulheres, a impedir que grupos terroristas transnacionais como a Al Qaeda e o Estado Islâmico usassem seu território e, finalmente, integrar-se à comunidade internacional. Os Estados Unidos, por sua vez, comprometiam-se a não encarar mais o Talibã como um grupo terrorista e iniciar uma retirada gradual de suas tropas do país. Mas um atentado com um carro bomba em Cabul que tirou a vida de um soldado americano no início de setembro fez Donald Trump suspender as negociações. E as batalhas, os ataques, as mortes e o sofrimento continuaram. De forma ainda mais feroz. De acordo com o mesmo relatório divulgado pela ONU em outubro, nos nove primeiros meses desse ano as forças americanas e afegãs mataram mais civis que o Talibã.

“Esse não é um conflito onde há heróis e mocinhos, aqui todos são responsáveis pela tragédia afegã”, dizia em outubro o analista político afegão Waheed Mujhda. Duro crítico do governo do presidente Ashraf Ghani, da política americana e da ação dos líderes do Talibã, Mujhda era conhecido por ser dono de opiniões fortes a respeito da realidade do país. Poucas semanas após conceder uma entrevista para o Valor, foi assassinado por dois homens armados na proximidade da mesquita que frequentava em Cabul. No dia em que me recebeu em sua casa, fez previsões sombrias a respeito do futuro do país. “Não haverá solução para esse conflito sem a presença do Talibã no governo e é absolutamente impossível acreditar que o Talibã, com a força que está hoje, irá se submeter a esse sistema de governo criado pelos Estados Unidos”, dizia ele. “O acordo de paz é uma farsa, se trata na verdade da capitulação americana, as chances de um acordo genuíno se perderam há muitos anos, quando os Estados Unidos redesenharam o conjunto de forças no país e não permitiram que o Talibã tivesse um lugar nele”, dizia, poucas semanas antes de ser morto. “Uma nova guerra está sendo gestada”.

Antigos aliados

Até a chegada de Osama Bin Laden ao Afeganistão, em 1995, os Estados Unidos não tinham o Talibã como um grupo inimigo. Ao contrário. Em meio ao caos de uma guerra civil brutal que se deu após a expulsão dos soviéticos em 1989, os Estados Unidos viam com bons olhos o grupo liderado por Mulá Omar. Em um momento em que a questão islâmica ainda não polarizava o Ocidente, o fato de que Omar e seus seguidores seguirem uma interpretação bastante fundamentalista do Alcorão não parecia um problema para o Departamento de Estado Americano.

Na década anterior, com o apoio do Paquistão e da Arábia Saudita, a CIA havia armado, treinado e patrocinado os chamados Mujahadeen, os guerreiros árabes, persas, afegãos e paquistaneses que conseguiram vencer os soviéticos em uma guerra baseada em preceitos religiosos, bastante parecida com que os americanos agora travam nas montanhas afegãs. Conhecida como Ciclone, foi uma das ações mais longas e mais caras operações da história da CIA. Estima-se que Central Americana de Inteligência tenha gasto cerca de US$ 8 bilhões apoiando os jihadistas na guerra contra os soviéticos. Entre os principais líderes da miríade de grupos que tentavam expulsar o estavam exatamente Osama Bin Laden e Mulá Omar. Por isso, quando o Talibã surgiu em 1994, foi natural que o serviço secreto paquistanês, o ISI, a Arábia Saudita e os Estados Unidos passassem a oferecer apoio aos antigos aliados.

Foto: Yan Boechat

Foi só quando Bin Laden e a Al Qaeda passaram a atacar de forma mais direta os Estados Unidos, com o atentado à embaixada dos EUA no Quênia em 1998, que o Talibã começou a ser visto como uma ameaça para os americanos. Por mais de dois anos os Estados Unidos tentaram convencer o Talibã a entregar Bin Laden. Os Estados Unidos não queriam atacar o país, que negociava com companhias americanas a construção de um imenso gasoduto que poderia retirar da Rússia o domínio do fornecimento de gás natural para a Europa.

Mas então veio o 11 de setembro e tudo mudou. Caçar Bin Laden, destruir a Al Qaeda e retirar o Talibã do poder passou a ser prioridade da Casa Branca. “Isso foi feito de forma rápida, em poucos meses os Estados Unidos tomaram Cabul, o Talibã estava destruído”, lembra Waheed Mujhda. “Mas o maior erro foi tentar transformar o Afeganistão em um país ocidental”.

Rahiba Rahimi é uma jovem cheia de certezas, sonhos e energia que não se lembra dos tempos em que o Talibã controlava o país. Era uma menina de apenas três anos quando o grupo tomou Cabul e passou a impor uma série de regras anacrônicas com base em uma interpretação revisionista dos ensinamentos islâmicos. Rahiba, por exemplo, nunca usou burca, uma exigência dos tempos em que Mula Omar dominava o Afeganistão. Tampouco se lembra de quando ouvir música, ver televisão ou mesmo ter fotografias de seus entes queridos era punido por chibatas pela Hisba, a polícia religiosa do regime. Aos 26 anos, formada em administração pela Universidade Americana de Cabul, ela mais se parece uma jovem americana que se mudou para o Afeganistão para trabalhar em uma das tantas Organizações Não Governamentais que surgiram no país após a chegada dos soldados.

Não segue os rituais tradicionais dessa sociedade extremamente conservadora e patriarcal. Beija no rosto e aperta a mão dos homens que encontra, nunca cobre o cabelo e acredita que a igualdade de gênero é uma premissa para a paz no país. Dona de uma boutique, se transformou na mais famosa estilista afegã. Não raro, é usada como exemplo de como o Afeganistão conseguiu abandonar as práticas medievais impostas pelo Talibã. “Eu acredito que a transformação passa por nós, mulheres, nós é quem vamos transformar esse país”, diz ela, num inglês perfeito.

Rahiba é o exemplo mais bem acabado do projeto que os Estados Unidos tentou implementar no Afeganistão após retirar o Talibã do poder. Em algum momento após a rápida vitória sobre os combatentes de Mulá Omar o governo americano acreditou que poderia transformar o Afeganistão em um modelo de democracia e desenvolvimento para toda a região. Logo o Afeganistão, um , um país tribal, sem tradição de governo central, que no início dos anos 2000 já estava devastado por mais de 20 anos de uma guerra absolutamente brutal que havia deixado, estima-se, mais de 500 mil pessoas mortas. Eu estive no Afeganistão nos primeiros anos da invasão americana, em 2003, e a impressão que tive desse lindo país vivia em um estágio pré- Industrial. Naquele momentos, poucos oficiais americanos pareciam se dar conta da imensa tarefa que teriam pela frente.

Ao longo dos últimos 18 anos a Casa Branca despejou exatos US$ 133 bilhões na tentativa de fazer do Afeganistão uma cópia dos Estados Unidos na Ásia Central. É mais dinheiro, ajustada a inflação do período, do que o que foi gasto durante o Plano Marshall, que tinha um objetivo aparentemente mais complexo: reconstruir a dilacerada Europa após o fim da 2ª Guerra Mundial. Estradas foram abertas, escolas construídas, obras de infraestrutura se espalharam pelo país. Em um primeiro momento, alguns resultados apareceram, como a redução do analfabetismo entre as mulheres, diminuição da mortalidade infantil e uma melhora no atendimento geral de saúde. Mas os avanços duraram pouco, e ficaram concentrados nos centros urbanos, onde uma nova elite formada por funcionários públicos com acesso a essa avalanche de dinheiro enriqueceu.

Miséria e atraso

Nesta virada de década, o Afeganistão segue como era em 2001 em boa parte de seus indicadores socioeconômicos. É hoje um dos países mais miseráveis e atrasados do mundo. Em nenhuma parte do planeta os índices de mortalidade infantil são tão altos quanto no Afeganistão, de acordo com dados do próprio governo americano. De cada 1.000 nascidos vivos, 108 morrem antes de completar um ano. A taxa de mortalidade materna é a 11ª maior do planeta e a expectativa de vida no país é de meros 52 anos, a menor do mundo. Hoje apenas 24% das mulheres sabem ler e escrever no país. Apenas no Chad, na África Subsaariana, menos mulheres são alfabetizadas. Apenas metade dos homens afegãos sabe ler e escrever, índice semelhante só encontrado em alguns poucos países africanos. “Osama Bin Laden deve estar rindo em sua cova vendo o quanto nós gastamos no Afeganistão e o quanto conseguimos em retorno”, disse em entrevistas secretas ao próprio governo americano Jeffrey Eggers, um ex-comandante das unidades especiais da Marinha dos Estados Unidos que serviu como analista de segurança da Casa Branca nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Foto: Yan Boechat

Oficialmente, o governo americano jamais admitiu o fracasso de sua aventura afegã. Mas internamente, generais, consultores, analistas e políticos graduados da Casa Branca sabiam que as coisas iam extremamente mal. Tão mal que muitos passaram a comparar as operações no Afeganistão com a Guerra do Vietnã. Em dezembro do ano passado o jornal americano Washington Post venceu uma longa batalha judicial contra o governo para ter acesso a entrevistas secretas realizadas com mais de 600 pessoas, a maior parte delas militares. Era uma tentativa, ainda que secreta e que não deveria vir a público, da Casa Branca e do Pentágono tentar entender o que estava de fato acontecendo na mais longa guerra da história dos Estados Unidos.

Batizado pelo Post como os “Afghanistan Papers”, o conjunto de mais de dois mil documentos traçam um cenário sombrio. “Ao analisar esses documentos percebemos que Washington tentou de forma estúpida reinventar o Afeganistão à sua própria imagem impondo uma democracia centralizada e uma economia de livre mercado em uma sociedade tribal, arcaica e que em nenhum momento estava preparada para isso”, escreveu Craig Whitlock, o repórter que por três anos buscava as entrevistas feitas em segredo pelo governo americano.

Cabul é onde o mundo sonhado pelos Estados Unidos e o mundo real afegão se encontram, quase sempre em permanente conflito. Nas ruas mulheres elegantes de salto alto caminham lado a lado com mulheres de burca, uma tradição vista como uma imposição religiosa pelo Ocidente que segue firme em todo o país. Homens de terno bem cortados dividem as mesas dos restaurantes com líderes tribais vestidos com as mesmas roupas que seus antepassados usavam há centenas de anos. Todos sempre assustados, atentos, preparados para mais um atentado. Todos cansados dessa guerra sem fim. “Eu já não me importo mais se o Talibã vai voltar e exigir que tenhamos que manter a barba, como antes, nós só queremos paz e ordem”, me dizia Abdulah, um senhor de 73 anos que vende tapetes simples no milenar mercado de Cabul.

Para os afegãos não há dúvida de que o Talibã retornará ao poder no país. Na verdade, há um desejo incontido em todos aqui para que um acordo de paz seja alcançado o mais breve possível para que a violência no país seja reduzida. As grandes dúvidas residem em como isso vai acontecer e que consequências o retorno do grupo trará para áreas urbanas do país, como Cabul e outras grandes cidades. “Você acha que os jovens vão aceitar tomar chibatadas porque não têm as barbas longas ou porque não foram à mesquita fazer uma das cinco rezas diárias”, questiona Shinkai Karokhail, uma ex-deputada afegã, responsável pela criação de uma lei que pune os homens que agridem suas mulheres. “Eu sei que as coisas não são simples, em minha tribo há violência doméstica em mais de 90% dos lares, eu sei disso, mas essa nova geração de mulheres não vai aceitar ser obrigada a voltar a usar uma burca. Eu não aceitarei”, diz ela, uma das tantas mulheres ameaçadas de morte pelo Talibã.

No final de dezembro os Estados Unidos retornaram as conversas com o Talibã para retomada do acordo de paz. Em um gesto de boa vontade o Talibã concordou com um cessar fogo temporário, de uma semana. Nos bastidores diplomáticos, as informações são de que as conversas caminham bem e que um acordo final pode ocorrer nas próximas semanas. Mas, como tudo por aqui, as mudanças de rumo podem ocorrer na rapidez de uma explosão. No Cedar’s House, Yossuf Hazar, o voluntarioso gerente, diz não ter planos para desmobilizar seu batalhão de seguranças. “Já nos esquecemos o que é viver em paz”, diz ele. “Todos a querem, mas ninguém mais se lembra mais como ela é. Melhor ter cautela”, me conta.

Foto: Yan Boechat

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Texto e fotos: Yan Boechat — Guerra sem fim
Reportagem de 2020 de Yan Boechat, jornalista profissional há quase 20 anos e colabora para diferentes jornais, revistas e sites. Atua na cobertura de conflitos em diferentes países do mundo.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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