Ucrânia: brincando com fogo

Os EUA, o Reino Unido e a União Europeia (UE) brincam com fogo na Ucrânia e, assumindo uma atitude provocativa, arrogante e aventureira em relação a uma Rússia ofendida e ameaçada, podem empurrar o mundo para um conflito de prognóstico incerto.

Militares ucranianos na região de Lugansk, na Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022 — Foto: Anatolii Stepanov/AFP

Visto em termos estritos, de fato, o reconhecimento da das autoproclamadas repúblicas populares de Donetz e Lugansk viola o direito internacional. Como, na época, a reintegração da Crimeia ao país eslavo. Abordei o fato neste espaço (La Jornada, 20/03/2014).

Mas esta grave situação surgiu porque o outro lado, liderado pelos Estados Unidos (EUA), não se cansou de incorrer até hoje naquilo que hoje Moscou, mesmo na própria Europa e na mesma Ucrânia. É o caso do de Estado de 2014 em Kiev, claramente dirigido, organizado e financiado pelos EUA, que ali estabeleceram um estado vassalo de gângsteres cheio de armas e gangues desenfreadas, muitas vezes compostas por admiradores de Hitler.

As operações da OTAN na ex-Iugoslávia, o bombardeio impiedoso da e a descarada proclamação da independência do Kosovo, então uma república autônoma do país balcânico, também não foram uma violação flagrante do direito internacional? Seria impossível enumerar neste espaço as violações perpetradas pelos EUA contra o direito internacional, contra a soberania e independência dos povos. Apenas reunir suas intervenções na e no Caribe cronologicamente levou 4 volumes do diligente e dedicado pesquisador argentino Gregorio Selser.

Os EUA, o Reino Unido e a União Europeia (UE) brincam com fogo na Ucrânia e, assumindo uma atitude provocativa, arrogante e aventureira em relação a uma ofendida e ameaçada, podem empurrar o mundo para um conflito de prognóstico incerto. É difícil de acreditar, mas a crescente impopularidade do presidente dos EUA, Joseph Biden, e do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, está atuando como um importante motor e catalisador para esse conflito.

Ambos pretendem aumentar sua popularidade escalando a tensão pegajosa com Moscou e, cegos pela banalidade, subestimaram o presidente Vladimir Putin e a necessidade urgente de prestar atenção às garantias de segurança para a Rússia que ele e a diplomacia do Kremlin exigiram insistentemente aos e a OTAN há anos, mas em particular, desde novembro de 2021. Biden e Johnson, seguidos pelo grupo servil e medíocre da UE, recorrem oportunisticamente na Ucrânia ao velho truque de escapar de graves problemas internos exacerbando ao máximo um conflito de política exterior.

A crise de liderança de Biden é tamanha que a derrota democrata nas eleições de novembro e o retorno do trumpismo à Casa Branca nas eleições presidenciais de 2024 já são dados como garantidos, com ou sem Trump na chapa. Johnson vivia uma crise terminal devido aos escândalos sobre os partidos em sua residência oficial durante a quarentena do e a reforma de seu luxuoso apartamento com recursos do Partido Conservador até que viu na Ucrânia o caminho para se livrar do impeachment pelos próprios correligionários.

Salvar Kiev de uma suposta ameaça russa e de uma iminente invasão anunciada há três meses para o dia seguinte é o mantra com o qual o morador da Casa Branca e da 10 Downing Street tentam desviar a atenção de sua crise política interna. Do quase nada político ao aparecimento de líderes “ocidentais”, estadistas fortes capazes de unir a UE frente ao urso russo, uma UE que – exceto nos espaços hegemônicos da mídia – está em um dos momentos mais fracos de toda a sua história em termos de liderança e hegemonia.

Há uma causa fundamental por trás deste conflito e é a política de desestabilização, balcanização e perseguição seguida por Washington contra Moscou desde logo após o colapso da URSS. O avanço da OTAN (fantoche estadunidense) para o leste (La Jornada, 13/1 e 20/2012) já foi explicado neste espaço, em total oposição à promessa feita verbalmente pelo secretário de Estado norte-americano James Baker e pelo Chanceler Helmut Kohl a Mikhail Gorbachev, antes da reunificação da Alemanha e da retirada das tropas soviéticas da República Democrática Alemã (1989).

Somente aqueles que prometeram reformar a URSS, mas em vez disso a destruíram, poderiam incorrer na surpreendente ingenuidade de não exigir a assinatura de um tratado que refletisse o compromisso de Washington e Berlim em um assunto tão importante. Mentiram à Rússia e desde então a grande maioria dos antigos países socialistas da Europa e várias ex-repúblicas soviéticas, como a Lituânia, a Estônia e a Letônia, aderiram à belicista aliança atlântica. Assim, a distância e o tempo de voo dos mísseis nucleares dos EUA para seus possíveis alvos na Rússia foram sucessivamente reduzidos a um ponto já intolerável para Moscou. É imperativo negociar seriamente com a Rússia, não aplicar sanções com fedor eleitoral que continuam a aumentar a tensão.

Texto por Ángel Guerra para teleSUR.
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Ángel
é latinoamericanista e analista internacional, colunista do jornal mexicano La Jornada. Convidado frequente no teleSUR. Foi diretor do jornal Juventud Rebelde (1968-71), da revista Bohemia (1971-1980) e de outros.

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