Guerrilheiros indígenas matam policiais em Mianmar

O ataque ocorreu em Naungmon, no estado de Shan. Cerca de uma dezena de grupos armados condenam como ilegítima a junta militar no governo birmanês e se comprometeram a ficar do lado dos manifestantes.

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Foto: Reprodução

Uma aliança de três exércitos étnicos de atacou neste sábado (10/04) uma delegacia de polícia no noroeste do país, matando pelo menos 14 agentes. Os guerrilheiros se opõem à repressão policial brutal aos protestos contra o golpe militar de 1º de fevereiro.

O ataque ocorreu em Naungmon, no estado de Shan. Cerca de uma dezena de grupos armados condenam como ilegítima a junta militar no governo birmanês e se comprometeram a ficar do lado dos manifestantes, em um momento em que a violência se intensifica, prenunciando uma guerra civil.

Pelo menos 618 civis já foram mortos pelas forças de segurança na repressão às manifestações no país, conforme a Associação para a Assistência de Presos Políticos (AAPP), a qual adverte que o número pode ser significativamente maior devido à dificuldade de corroborar os dados.

Segundo o veículo Mianmar Now, somente no sábado, 82 manifestantes foram assassinados, inclusive com o auxílio de lança-granadas.

“É como um genocídio” declarou ao jornal local Mianmar News o ativista Ye Htut, um dos organizadores dos protestos. “Eles estão atirando contra qualquer sombra.”

O golpe de Estado encabeçado pelo general Min Aung Hlaing derrubou o governo civil da conselheira de Estado e Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, cuja Liga Nacional pela Democracia (NLD) obtivera vitória esmagadora nas eleições parlamentares de 2020. Os militares exigiram revisão dos resultados, mas não foram atendidos pela Comissão Eleitoral.

Golpe financiado por império empresarial militar

Os ativistas denunciam que a instalação da ditadura em Mianmar foi financiada pela Corporação Econômica de Mianmar (CEM) e pela Empresa Pública de Holdings Econômicas de Mianmar Limitada (EPHEML) , dois conglomerados empresariais controlado por membros do alto comando da Forças Armadas.

Estabelecidos na década de 1990, quando o governo começou a privatizar as indústrias estatais, os dois grupos econômicos  se tornaram uma fonte importante de riqueza para o Tatmadaw (Exército de Mianmar), com participações em negócios que vão desde bancos e mineração até tabaco e turismo. A EPHEML também opera o fundo de pensão militar.

Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2019, estimulado pela repressão de Mianmar às comunidades rohingya, concluiu que as receitas comerciais aumentaram a capacidade dos militares de cometer abusos contra direitos humanos com impunidade.

Na avaliação da ONU, por meio de uma rede de empresas pertencentes aos conglomerados e afiliadas, o Tatmadaw foi capaz de “se proteger da responsabilização e da supervisão”.

Detalhes sobre a estrutura e finanças do EPHEML também foram revelados em dois relatórios internos: um arquivado pelo conglomerado em janeiro de 2020 e o outro vazado pelos grupos ativistas Justiça por Mianmar e Anistia Internacional.

O dados divulgados dão conta de que, entre 1990 e 2011, o grupo econômico pagou a seus acionistas 108 bilhões de kyats em dividendos (US$ 16,6 bilhões, de acordo com as taxas de câmbio oficiais da época).

Vários líderes militares e suas famílias também têm grandes participações comerciais e foram sujeitos a sanções no passado.

Aung Pyae Sone, filho do general e líder golpista Min Aung Hliang, possui várias empresas, incluindo um spa, e tem uma participação majoritária na operadora nacional de telecomunicações Mytel.

Na visão dos críticos do Tatmadaw, o golpe pode ser entendido como uma tentativa de preservar esse poderio financeiro.

Em um comunicado à emissora britância BBC, o Justiça por Mianmar acusou os militares de estarem em “um conflito ilegal de interesses”.

“A riqueza roubada pelos militares e seus negócios pertence ao povo de Mianmar e deve ser devolvida a eles”, afirma.

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