Protesto por justiça para Kathlen, jovem assassinada pela PM, pede fim da polícia

Kathlen era designer de interiores e fez um post recentemente em seu Instagram celebrando a gravidez: "Neném, já me sinto pronta pra te receber, te amar, cuidar".

8 mins read
Jovem manifestante carrega cartaz durante o ato — Foto: Rafael Daguerre/Mídia1508

Na noite desta quarta-feira (9/6), familiares, moradores, amigos e protestaram exigindo justiça para Kathlen Romeu, jovem de 24 anos, assassinada na terça-feira (8/6) em ação policial no Complexo do Lins, Zona Norte do Rio de Janeiro.

A manifestação caminhou pelas ruas da região angariando apoio das pessoas em suas casas, que acenavam das janelas. Aos gritos de “Fim da Militar” e “Essa polícia só mata pobre”, os manifestantes entraram na e seguiram até a UPP Lins, onde confrontaram a PM, denunciando os violações de direitos humanos dos policiais no Complexo do Lins.

Para a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), Kathlen foi morta em uma operação ilegal da Militar.

“A gente já sabe que foi uma operação ilegal que vitimou a Kathlen”, disse Rodrigo Mondego, procurador da comissão.

Mondego explicou que a ação da última terça-feira (8/6) descumpriu a determinação do Supremo Tribunal Federal (ADPF 635/STF) que restringe operações policiais em favelas. Qualquer investida em comunidades precisa ser avisada ao Ministério Público e ter uma justificativa.

Um adolescente de 16 anos foi baleado no fim da tarde de quarta-feira (9) no Morro São João, no Engenho Novo, na Zona Norte do Rio. A fica na mesma região da cidade que o Complexo do Lins, onde Kathlen morreu.

Kathlen foi morta com um tiro durante uma operação da Polícia do Rio de Janeiro, comandada pelo governador Claudio Castro (PSC). Ela estava grávida de 14 semanas e já chegou ao hospital sem vida.  

Em resposta, no mesmo dia, moradores da região fecharam a autoestrada Grajaú-Jacarepaguá para protestar. Os dois sentidos da via foram fechados e os manifestantes colocaram caçambas de lixo no meio das pistas, exigindo justiça.

Kathlen era designer de interiores e fez um post recentemente em seu Instagram celebrando a gravidez: “Neném, já me sinto pronta pra te receber, te amar, cuidar”. Uma moradora que preferiu não se identificar afirmou ao site Ponte Jornalismo que a vítima visitaria o salão de beleza de uma prima, quando foi baleada e que a “policia já chegou atirando”.

Kathlen Romeu — Foto: Reprodução/Redes sociais

A Defensoria Pública acompanha o caso e está em contato com a família da jovem para prestar assistência jurídica: “O que aconteceu no Lins é muito triste, uma mulher grávida, vindo a óbito, a partir de uma situação de violência armada, com intervenção de Estado, dentro de uma favela, é mais um lamentável capítulo desse processo de violência contra as favelas”, avaliou Guilherme Pimentel, ouvidor do órgão, também em entrevista à Ponte.

Segundo ele, esta não foi a única ocorrência de violência policial atendida pela Defensoria Pública hoje. “Nós orientamos lideranças e moradores em Niterói, onde também houve uma operação que teria sido altamente letal, também atendemos pedidos de ajuda de moradores do Complexo do Alemão, que passaram por tiroteios, são inúmeras denúncias de invasão de residências, de agressões físicas. Então este problema é um problema generalizado. E a Kathlen infelizmente é mais uma vítima dessa brutalidade que de segurança não tem nada, que viola direitos o tempo inteiro”. 

Moradoras do Lins se manifestam em apoio ao protesto — Foto: Rafael Daguerre/Mídia1508

Pelas redes sociais, o advogado Joel Luiz Costa, fundador do Instituto de Defesa da População Negra, que atua no Jacarezinho, também na zona norte, se manifestou sobre o ocorrido. “Queremos investigação já! Atendimento e igualdade psíquica, financeira e material para a família de Kathlen. Queremos que a ADPF das favelas seja respeitada, queremos o direito de viver e criar nossos filhos. Cláudio Castro, a culpa é sua!”, disse.

“Um mês depois da chacina do Jacarezinho, estamos mais uma vez reunidos gritando que não merecemos morrer atravessados ​​por uma bala do estado, sem vacina e com fome”, complementou na mesma postagem.

De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, que monitora violência urbana no estado do Rio de Janeiro, 15 grávidas foram baleadas no Grande Rio desde 2017, quatro delas em operações policiais – oito morreram.

Quase 80% das mortes em “operações policiais” são de negros

Segundo dados oficiais, do Atlas da Violência 2020, divulgado em agosto do ano passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os homicídios de pessoas negras cresceram 11,5% na década entre 2008 e 2018, no caminho inverso dos homicídios de brancos, amarelos e indígenas, que caíram 12,9% – as categorias são definidas no estudo.

A disparidade racial foi evidenciada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, também do FBSP, apontou que 74,4% das vítimas de homicídio em 2019 eram negros.

“Quando a gente fala de violência no Brasil, a desigualdade racial e o racismo vêm à tona”, diz à BBC News Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP. “E isso é ainda mais exacerbado em operações policiais.”

Quase 80% das mortes resultantes dessas operações são de negros, segundo os dados obtidos pelo Fórum a partir da análise de boletins de ocorrência de todo o país. Como nem todos os boletins têm dados detalhados, é possível que haja subnotificação, explica Bueno.

Moradores fazem manifestação após Kathlen ser morta no Lins (8/6) — Foto: Reprodução

Mídia1508

Somos um coletivo de mídia independente anticapitalista. Nosso conteúdo é livre de influência de qualquer instituição política. Funcionamos sem qualquer tipo de propaganda. Nosso trabalho é feito por quem acredita que jornalismo não é publicidade e que portanto tem uma função social fundamental para conseguirmos transformar a nossa realidade.

Deixe seu comentário

Your email address will not be published.

Últimas Notícias