Casa Nem: ocupação LGBTQIA+ convoca apoiadores para ato contra ordem de despejo no Rio

Na opinião de um dos ocupantes, que prefere não ser identificado, o pedido de despejo é derivado do preconceito.

Foto: Reprodução

A Stonewall Inn – Casa Nem, situada na Rua Dias da Rocha, no bairro de Copacabana, zona sul do Rio, onde vivem cerca de 52 pessoas, em sua maioria mulheres trans e travestis, está ameaçada de despejo. Para resistir à ordem de reintegração de posse, programada para esta segunda-feira (27), as moradoras estão convocando apoiadores e movimentos sociais para um ato no local, no mesmo dia, a partir das 6h da manhã.

Coordenadora do projeto, Indianare Siqueira explica que a Casa Nem surgiu em 2016 para atender as necessidades de um cursinho pré-vestibular voltado às pessoas LGBTQIA+, o PreparaNem. “Algumas alunas estavam em abrigo em condições precárias e outras sofriam violências das próprias famílias”, recorda. Desde então, o espaço já passou por endereços nos bairros da Lapa, Bonsucesso e Vila Isabel, tendo sofrido sucessivas remoções.

Em Copacabana, além da ameaça vinda do Estado, as moradoras também têm de conviver com a hostilidade de parte da vizinhança, conhecido reduto de bolsonaristas. No último dia 15 de julho, o espaço foi invadido por dois homens armados, se dizendo policiais:

“Chegaram perguntando qual partido apoia a Casa, pois o local tem estado constantemente nas manifestações “Fora Bolsonaro”, e lançamos o grito “Eles Não. Fora Bolsonaro, Fora Guedes e Mourão”. Um deles proferiu ameaças lgbtifóbicas dizendo : ‘É por isso que a gente mata logo essas porras’” – conta a coordenadora.

Na opinião de um dos ocupantes, que prefere não ser identificado, o pedido de despejo é derivado do preconceito: “As pessoas que moram em Copacabana acreditam que nós não merecemos morar aqui, não merecemos esse prédio. Eles não nos aceitam, em Copacabana só moram ‘pessoas de bem’ da alta sociedade”.

Reintegração de posse

O processo tramita no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro desde julho de 2019, na 15º Vara Cível. Segundo o advogado da Casa Nem, André de Paula, da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), o imóvel está abandonado há mais de 10 anos pelos proprietários em função da especulação imobiliária. A Iliria Administração de Imóveis e Negócios Ltda, que se diz administradora do imóvel, entrou na justiça em julho de 2019, mesmo período em que houve a ocupação.

Em 18 de junho, a juíza Daniela Bandeira, da 15ª Vara Cível do Rio de Janeiro, decidiu por um novo mandado de reintegração de posse do imóvel marcado para a próxima segunda-feira (27). Em 22 de janeiro, a magistrada já havia expedido uma decisão desfavorável às moradoras da Casa, na qual era afirmado que o desalojo “não afetará a sociedade civil, ou a um grupo significativo da sociedade civil”

Porém, segundo o parecer técnico enviado pela defesa da Casa Nem, o despejo não poderia acontecer em meio à pandemia. Danielle Ribeiro de Moraes, especialista em Medicina Preventiva e Social, Mestre e Doutora em Saúde Pública, explica no documento que o despejo irá aumentar o risco para a saúde individual e comunitária.

“É preciso compreender que a doença ainda apresenta transmissão sustentada na região (Copacabana). E, uma vez que as pessoas que habitam a Casa Nem têm mantido estritamente as recomendações de proteção individual e coletiva para evitar a propagação da pandemia, chama a atenção o perigo para a vida dessas e de outras pessoas que pode suceder de seu desalojamento”, alerta.

Desde março, com o começo da quarentena, a ocupação recebeu apoio de profissionais da saúde para aprender a se proteger, além de assistência médica às ocupantes. Foi criada uma área separada para que novos moradores possam ficar isolados por pelo menos 15 dias, seguindo as recomendações e medidas de prevenção estabelecidas pela OMS, e, assim evitar uma possível disseminação do vírus entre os residentes do local.

As moradoras confeccionaram também cerca de 20 mil máscaras para serem distribuídas para a comunidade. “A gente não tá aqui só ocupando esse espaço, também ajudamos o próximo e essa casa é um espaço social com diversas atividades para a comunidade LGBTQIA+, acolhemos pessoas novas todos os dias. Eu estou aqui desde o começo da ocupação em Copacabana e foi muito difícil chegar aqui, hoje em dia temos móveis e um espaço organizado. Nós não temos para onde ir, são mais de 40 pessoas que iriam ficar sem casa no meio da pandemia” afirma Duda Correia, de 24 anos, moradora e comunicadora da Casa há cerca de um ano.

Liberdade

Duda explica veio para o Rio de Janeiro em busca de uma nova vida, longe do preconceito em sua cidade natal. “Eu venho de uma cidade muito pequena no Ceará, eu não tinha muita convivência com pessoas LGBTQIA+ na minha cidade. Então pra mim foi tudo muito novo, conviver com pessoas iguais a mim. Somos todos iguais aqui na casa e isso é uma experiência muito maravilhosa”.

A importância de um lugar seguro para pessoas que, cotidianamente, enfrentam todo tipo de agressão e, ainda, estão à margem da sociedade, vai muito além de uma moradia.

“Essa liberdade que nós temos aqui dentro, ninguém tem lá fora, é uma oportunidade de ser quem somos. Meu pai falava ‘você é mulher lá fora, aqui dentro você é homem’. Na ocupação eu posso pintar a unha, usar minhas roupas. Eu tô no meio de um povo que me acolheu, me recebeu de braços abertos, um espaço maravilhoso que nunca virou as costas pra mim. O mundo é muito transfóbico, todo dia uma mulher trans é morta no Brasil, assassinada pelo ódio. Se o mundo fosse como é aqui dentro, ele seria muito mais livre e melhor”, conta Kley Kardashian, 19 anos, de Belfort Roxo, também moradora da Casa.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de mídia independente anticapitalista. Isso significa que o nosso conteúdo não é apenas livre de influência de partidos políticos e agências governamentais, mas também de ONGs e fundações. Não estamos dispostos a restringir nosso trabalho por essas organizações, mas isso significa que cada centavo de nosso financiamento deve vir diretamente de nossos seguidores. Funcionamos sem qualquer tipo de propaganda. Nosso trabalho é feito por quem acredita que jornalismo não é publicidade e que portanto tem uma função social fundamental para conseguirmos transformar a realidade de uma sociedade.

Deixe seu comentário

Your email address will not be published.