Covid-19 em aldeias acirra racismo contra indígenas no interior do Mato Grosso do Sul

Diante da situação a prefeitura deixou de divulgar os casos positivos de forma separada, entre área urbana e aldeias indígenas, no boletim diário.

Foto: Reprodução

O avanço de casos de Covid-19 nas aldeias do município sul-mato-grossense de Miranda, distante 202 quilômetros de Campo Grande, gerou uma onda de ódio contra Terena por parte dos moradores da área urbana da cidade. Em áudios enviados em grupos de WhatsApp, alguns sugerem até mesmo o extermínio dos povos que vivem na região.

“Vamos ajuntar todo mundo. Vamos invadir a aldeia e matar todo mundo lá. Pronto. Bom que já extermina essa raça inútil do caralho”, afirma um homem entre um dos áudios enviados. “Tem que fechar a cidade e não deixar eles virem para a cidade”, opina outra moradora.

Escute os áudios:

Diante da situação a prefeitura deixou de divulgar os casos positivos de forma separada, entre área urbana e aldeias indígenas, no boletim diário. São 11 casos confirmados do novo coronavírus, além de uma morte. No site institucional do município, constava na última terça-feira a informação de que o primeiro caso confirmado, no dia 16 de julho, foi na comunidade indígena da Aldeia Moreira.

No entanto, um caso exportado de coronavírus já havia sido registrado em um preso vindo de São Paulo, detido no município, no mês de maio. Na época, um policial da Delegacia de Miranda, chegou a contrair a doença. A única morte ocorrida até agora envolveu um homem de 46 anos, que estava internado na Santa Casa de Corumbá.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o município de Miranda aparece, no último Censo (2010), com uma população de 6.475 indígenas, formando a segunda maior de , atrás apenas de Amambai com 7.225.

Desde o primeiro resultado positivo na área indígena, lideranças e caciques intensificaram as barreiras sanitárias nessas localidades. A entrada de pessoas de fora está restrita e as medidas de prevenção para que o surto da pandemia não avance foram adotadas.

Vice-cacique de Aldeia Moreira, Sebastião Gonçalves da Silva, afirma que são 9 casos de covid-19 confirmados entre os moradores da comunidade com 1,5 mil habitantes. “Os casos foram importados”, explicou à imprensa local.

Segundo ele, muitos indígenas precisavam sair da aldeia para trabalhar ainda no início da pandemia. Alguns foram demitidos, voltaram para casa e acabaram trazendo o vírus com eles. “Quando foi gente deles [moradores da área urbana] que ficaram doente, nós fizemos uma oração para proteger a gente, eles e todo o Mundo disso. Agora eles agem assim. Nós queremos respeito agora”, afirmou.

O indígena ressaltou que desde maio, a aldeia conta com uma barreira sanitária montada pelos próprios indígenas.

Casos de contaminações entre indígenas também foram registrados nos municípios de Aquidauana e Dourados. Conforme boletim epidemiológico divulgado pela Sesai (Secretaria Especial de ), no Estado foram confirmados 312 casos de covid-19, sendo que nove morreram.

A Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) contabiliza dez mortes no Estado e 579 em todo o País.

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