Depois de chamarem a de “lixo urbano”, em janeiro deste ano, os deputados estaduais Rodrigo Amorim e Alexandre Knoploch, ambos do PSL, protagonizaram mais uma agressão à comunidade indígena existente há mais de 13 anos no local, que fica na zona norte do Rio. Escoltados por homens armados, os parlamentares bolsonaristas invadiram o terreno do antigo Museu do Índio, intimidando os presentes e repetindo para as câmeras trazidas por seus correligionários falas como a de que iriam “restaurar a ordem” e que o aldeamento representaria uma ameaça à “saúde pública”. Ao perceber o ataque, um grupo de correu até o lugar em que estavam os invasores e, após uma longa discussão, conseguiu expulsá-los, aos gritos de “Racistas!”.

O incidente aconteceu na tarde da sexta-feira (22), apenas três dias após o movimento indígena conseguir uma importante vitória em um dos processos que tramitam no Tribunal Federal da Segunda Região, relativos à disputa pelo território. Na última terça-feira (19), depois de um longo e intenso debate, o colegiado de desembargadores que julgava a ação decidiu por unanimidade suspender os efeitos da sentença que dava a posse do imóvel para o Estado. O posicionamento se baseou na alegação feita pelo Ministério Público Federal de que há indícios de que o governo estadual não cumpriu as condições determinadas pela decisão contestada pelos indígenas.

As ilegalidades envolvidas na falida concessão do Complexo do Maracanã, que levaram para a cadeia o ex-governador Sérgio Cabral e o empreiteiro Marcelo Odebrecht, eram constantemente lembrados pelos índios no embate travado com os deputados, que defendem o mesmo tipo de “parceria público privada” para a região.

“Cabral roubou, está preso e vocês querem fazer o trabalho dele agora?” revoltou-se o indígena e professor de Cosmologia da Floresta Ash Ashaninka, um dos que protestou contra o presença dos bolsonaristas na aldeia.

Sem se dar por satisfeita, a comitiva dos direitistas continuou rondando as imediações do terreno até o anoitecer, provocando outro tumulto. Perguntado pelo advogado da Aldeia Maracanã, Arão da Providência Guajajara, sobre o porque de haverem entrado lá sem ordem judicial, Knoploch se descontrola: “Abaixa tom, porra! Abaixa o tom quando falar comigo, caralho! Tu tá falando com quem?! Quem é você pra falar comigo?!” grita o político repetidas vezes.

Em seguida, irritado com um grupo de indígenas e apoiadores que o criticam por defender os interesses da especulação imobiliária, Knoploch agride fisicamente um estudante que filmava a cena, a quem ameaçou prender. Questionado por um indígena Xavante, que se apresenta como tal, sobre o motivo da violência, o parlamentar demonstra deboche em relação à etnia do rapaz: “Eu não estou perguntando se você é Xavante, Chabu ou Xampu!”

Esta é a segunda vez que Knoploch é filmado em atitude de flagrante desrespeito a uma nação originária. Em janeiro deste ano, em um vídeo veiculado por ele mesmo e por Amorim, a dupla aparece importunando um jovem Mapuche, a quem Knoploch chega a afirmar que seu povo, a maior população indígena sobrevivente na América Latina, “não existe”.

Em suas contas de redes sociais os dois deputados divulgaram vídeos completamente editados do ocorrido, no qual tentam construir a narrativa fantasiosa de que “em nenhum momento buscaram o conflito”, mas que os indígenas lhes teriam sido hostis por estarem sendo “massa de manobra de partidos de esquerda”.

Essa estratégia, de tratar os povos originários como desprovidos de vontade própria, subestimando sua capacidade de exigir autonomamente os seus direitos, é recorrentemente utilizada por políticos anti-indígenas em todo o . Em setembro de 2015, a Aty Guasu, grande assembléia dos povos Guarani e Kaiowa do Mato Grosso do Sul, chegou a divulgar uma nota em que respondia a acusações semelhantes, feitas pela bancada ruralista local.

“Através desta nota pública, reafirmamos que nós indígenas Guarani e Kaiowá, reocupantes das terras tradicionais tekoha, não somos conjuntos de bonecos, fantoches e não somos robôs para ser manipulados e guiados pelos não indígenas. […] Sabemos muito bem onde se encontram nossas terras tradicionais de nossos ancestrais. No contexto atual, como qualquer ser humano, aprendemos a ler, escrever e dominamos internet, falamos mais de duas línguas, utilizamos todos os tipos de tecnologias modernas, avião, carro, celular, internet, etc.” afirma um trecho do documento.

Em relação à Aldeia Maracanã, especificamente, a insinuação de que o movimento seria patrocinado por “partidos de esquerda” é particularmente ridícula. Foi justamente durante um governo dito “de esquerda”, o de Dilma Roussef (PT), que a Aldeia foi mais perseguida, tendo sido alvo de dois truculentos despejos.

Mais conhecida como Aldeia Maracanã, a Teko Haw Maraká’nà é uma comunidade pluri-étnica existente desde 2006. O espaço recebe indígenas de vários locais do país e do continente, servindo como ponto de referência para os povos originários no Rio. O terreno não foi escolhido ao acaso, mas por seu longo histórico relacionado ao indigenismo brasileiro. Na cosmovisão de seus atuais ocupantes, trata-se de um solo sagrado, morada dos espíritos de seus ancestrais.

Após sucessivas remoções (e retomadas), as lideranças que lá permanecem não querem ser tuteladas pelo Estado. Reivindicam que o território lhes seja entregue oficialmente, para que eles próprios materializem e administrem nele uma Universidade Indígena. A ocupação, em uma área central, serve para chamar atenção para a luta e a cultura dos povos nativos.

Para o cacique Urutau Guajajara, que em 2013 chegou a ficar 26 horas em cima de uma árvore resistindo contra uma desocupação, a postura de Amorim e Knoploch representa uma incitação ao ódio racial:

“Estamos vivendo ataques institucionais nas três esferas de governo: municipal, estadual e federal. Essa fala acirra o ódio que as pessoas que não entendem a questão indígena tem.” avalia.

Deputado estadual Rodrigo Amorim discute com indígenas/ Imagem: Reprodução