“Mulheres Contra Bolsonaro” / Foto: Rafael Daguerre/Mídia1508

Vinte e quatro militantes feministas de diferentes países lançaram nesta quarta-feira (06/03) um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. Na semana do dia 8 de março, em que se realizam mobilizações de mulheres em todo o mundo, a ideia é realizar uma ofensiva internacional para “deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos” – segundo o próprio documento. No , diversas cidades terão manifestações pelo 8M.

O texto, intitulado “Para além do 8 de Março: rumo a uma Internacional Feminista”, convoca ainda as mulheres a se manifestarem por uma série de causas, dentre elas a das lutas contra o encarceramento em massa, a desapropriação de terras e a islamofobia, além de pelos direitos de LGBT+ e imigrantes.

“O novo movimento feminista transnacional é moldado pelo sul, não só no sentido geográfico, mas também no sentido político, e é nutrido por cada região em conflito. Essa é a razão de ele ser anticolonial, antirracista e anticapitalista”, afirma o documento.

Confira o manifesto na íntegra:

Para além do 8 de Março: rumo a uma Internacional Feminista

Pelo terceiro ano consecutivo a nova onda feminista transnacional chamou um dia de mobilização global no 8 de março: greves legais do trabalho assalariado – como as 5 milhões de grevistas do 8 de março de 2018 na Espanha e as centenas de milhares no mesmo ano na Argentina e na Itália; greves protagonizadas pelas bases de mulheres sem direitos ou proteção trabalhistas, greves do trabalho de cuidado e não pago; greves de estudantes, mas também boicotes, marchas e trancamentos de vias.

Pelo terceiro ano consecutivo mulheres e pessoas que por todo o mundo estão se mobilizando contra os feminicídios e toda forma de violência de gênero; pela autodeterminação de seus corpos e acesso ao aborto seguro e legal; por igualdade salarial para trabalhos iguais; pela livre sexualidade. Se mobilizam também contra os muros e fronteiras; o encarceramento em massa; o , a islamofobia e o anti-semitismo; a desapropriação das terras de comunidades indígenas; a destruição de ecossistemas e a mudança climática. Pelo terceiro ano consecutivo, o movimento feminista está nos dando esperança e uma visão para um futuro melhor em um mundo em desmoronamento. O novo movimento feminista transnacional é moldado pelo sul, não só no sentido geográfico, mas também no sentido político, e é nutrido por cada região em conflito. Essa é a razão de ele ser anticolonial, antirracista e anticapitalista.

Estamos vivendo um momento de crise geral. Essa crise não é de forma alguma somente econômica; é também política e ecológica. O que está em jogo nessa crise são nossos futuros e nossas vidas. Forças políticas reacionárias estão crescendo e apresentando-se como uma solução a essa crise. Dos EUA à Argentina, do Brasil à Índia, Itália e Polônia, governos e partidos de extrema direita constroem muros e cercas, atacam os direitos e liberdades LGBTQ+, negam às mulheres a autonomia de seu próprio corpo e promovem a cultura do estupro, tudo em nome de um retorno aos “valores tradicionais” e da promessa de proteger os interesses das famílias de etnicidade majoritária. Suas respostas à crise neoliberal não é resolver a raiz dos problemas, mas atacar os mais oprimidos e explorados entre nós

A nova onda feminista é a linha de frente na defesa contra o fortalecimento da extrema direita. Hoje, as mulheres estão liderando a a governos reacionários em inúmeros países.

Em setembro de 2018, o movimento “Ele Não” juntou milhões de mulheres que se levantaram contra a candidatura de , que agora tornou-se um símbolo mundial dos planos da extrema direita para a humanidade e o catalisador de forças reacionárias na América Latina. Os protestos ocorreram em mais de trezentas cidades no Brasil e em todo o mundo. Hoje, Bolsonaro está colocando em prática uma guerra contra os pobres, as mulheres, as LGBTQ+ e as pessoas negras. Ele apresentou uma reforma da previdência draconiana e afrouxou as leis de controle das armas.

Feminicídios estão disparando num país que já em 2018 tinha um dos maiores números de feminicídios do mundo, sendo 70% dessas mulheres assassinadas negras. 126 feminicídios já ocorreram em 2019. O movimento feminista brasileiro está respondendo esses ataques e se preparando para a mobilização no 8 de março e novamente no 14 de março, no aniversário do assassinato político de Marielle Franco, ao mesmo tempo em que emergem informações sobre os fortes laços entre os filhos de Bolsonaro e um dos milicianos responsáveis por sua morte.

Da mesma forma, o Non Una Meno na Itália é hoje o único movimento organizado respondendo às políticas anti-imigrantes e misóginas do governo de direita da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas. Na Argentina, mulheres lideraram a resistência contra as políticas neoliberais de direita do governo Macri. E, no Chile, o movimento feminista está lutando contra a criminalização da luta dos povos indígenas e o machismo sistêmico de uma muito cara.

O movimento feminista também está redescobrindo o significado da solidariedade internacional e da iniciativa transnacional. Nos últimos meses o movimento feminista argentino usou o evocativo nome de “Internacional Feminista” para se referir à prática da solidariedade internacional reinventada pela nova onda feminista, e em alguns países, como a Itália, o movimento está discutindo a necessidades de encontros transnacionais para melhor coordenar e compartilhar visões, análises e experiências práticas.

Diante da crise global de dimensões históricas, mulheres e pessoas LGBTQ+ estão encarando o desafio e preparando uma resposta global. Depois do próximo 8 de março, chegou a hora de levar nosso movimento um passo adiante e convocar reuniões internacionais e assembleias dos movimentos: para tornar-se o freio de emergência capaz de deter o trem do capitalismo global, que descamba a toda velocidade em direção à barbárie, levando a bordo a humanidade e o planeta em que vivemos.


Amelinha Teles (União de Mulheres de , Brasil)

Andrea Medina Rosas (Advogada e ativista, Mexico)

Angela Y. Davis (Fundadora da Critical Resistance, Estados Unidos)

Antonia Pellegrino (Escritora  e ativista, Brazil)

Cinzia Arruzza (Co-autora de “Feminism for the 99%. A Manifesto”)

Enrica Rigo (Non Una di Meno, Itália)

Julia Cámara (Coordinadora estatal del 8 de marzo, Espanha)

Jupiara Castro (Núcleo de Consciência Negra, Brasil)

Justa Montero (Asamblea feminista de Madrid, Espanha)

Kavita Krishnan (All India Progressive Women’s Association, Índia)

Lucia Cavallero (Ni Una Menos, Argentina)

Luna Follegati (Filósofa e ativista, Chile)

Marta Dillon (Ni Una Menos, Argentina)

Monica Benicio (Ativista de e viúva de Marielle Franco, Brasil)

Morgane Merteuil (ativista feminista, )

Nancy Fraser (Co-authora de “Feminism for the 99%. A Manifesto”)

Nuria Alabao (Jornalista e escritora, Espanha)

Paola Rudan (Non Una di Meno, Italia)

Sonia Guajajara (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil)

Tatiana Montella (Non Una di Meno, Italy)

Tithi Bhattacharya (Co-autora de “Feminism for the 99%. A Manifesto”)

Veronica Cruz Sanchez (Ativista de direitos humanos, Mexico)

Verónica Gago (Ni Una Menos, Argentina)

Zillah Eisenstein (International Women’s Strike, Estados Unidos)

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