Ao invés da bandeira republicana, a esquerda brasileira precisa reivindicar a liberdade radical

A esquerda desconhece ou finge desconhecer o que essa bandeira representa, e o que a frase “ordem e progresso” significa para os povos nativos, africanos entre outros excluídos da construção da “nação”.

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Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a favor da vacinação contra a Covid-19 na cidade de Fortaleza, no Ceará, em 3 de julho de 2021 — Foto: Thiago Gadelha

Há algumas semanas nós vimos setores da brasileira abraçados à bandeira do Brasil reivindicando o símbolo como sendo “de todos os brasileiros” e não só da extrema direita que o enaltece como bons “patriotas”. Parece que essa esquerda desconhece ou finge desconhecer o que essa bandeira representa, e o que a frase “ordem e progresso” significa para os povos nativos, africanos entre outros excluídos da construção da “nação”. A ordem pela força, e o progresso pela prática predatória da natureza, provocando o caos e a destruição, é o verdadeiro significado da frase positivista. Esse “espírito republicano”, em uma república criada com um militar que colocou um marechal autoritário no poder, é nada mais do que a negação do internacionalismo socialista por um pedante e bastante patético nacionalismo. aliás, que sempre foi combustível elementar do e do nazismo, e continua sendo não por acaso.

É claro que não deixa também de ser uma performance política quase cínica para atrair pessoas mais conservadoras, já que a brasileira não acredita em si mesma nem na possibilidade de chegar ao poder sem guinar à direita, promover alianças com grupos inescrupulosos e mostrar-se subserviente aos interesses do capital.

Até aí, nada de novo no front. Apesar disso tudo, é visível que existe um sentimento amplo nas camadas progressistas de que qualquer opção é válida à Bolsonaro, o que é bastante compreensível. Chegamos num cenário tão deplorável, que de fato estamos nos agarrando à qualquer alternativa possível – e é exatamente isso que pretendiam as elites nacionais e internacionais. Mas é bastante sintomático da decadência política brasileira que a se incomode com o uso da bandeira nacional pelos bolsonaristas, mas não perceba o uso nefasto desses mesmos setores da palavra liberdade.

Invés de disputar o uso da bandeira, que tal disputar o significado de liberdade? No que a nossa liberdade se diferencia da liberdade das elites brasileiras? Como podemos de fato destacar e enfatizar nossas profundas diferenças, de forma estratégica e inteligente, invés de buscar nos aproximar simbolicamente de nossos algozes? Ao invés de passar um verniz verde e amarelo, que tal investir mais em estratégias de contra informação? Nas redes sociais e nas ruas, a ação antifascista e de carece de espaço e meios de atingir mais brasileiros. Agarrar-se ao velho e fazer alianças com a direita golpista e criminosa não é “furar a bolha”, é deixar para trás princípios inegociáveis. A velha ordem neocolonial nos quer negociando nossa humanidade eternamente, quando já passou da hora disso ser superado.

Ao invés de promover o personalismo, que tal promover ideias? Apostar que o “povo” não é capaz de se transformar e ter consciência da realidade social é a lógica paternalista.

O quanto estamos pagando agora por não termos acertado as contas com nosso passado onipresente? Continuaremos assistindo ao jogo do pragmatismo “republicano” ao qual o inclusive se apresentou como alternativa? Ainda que seu fracasso parcial seja uma esperança, as ideias e as forças criminosas que o sustentam tiveram tempo para se armar e foram alimentadas por essa mesma república. Como uma “democracia” permite – estou falando juridicamente, tanto quanto politicamente – que um neonazista envolvido com esquemas de corrupção, milícias e abertamente defensor da ditadura e da tortura fosse candidato? Nunca houve competência para investigar a extensa rede de crimes aos quais Bolsonaro está vinculado há 30 anos?

Precisamente repudiar essa república, essa bandeira e essa forma de “democracia” são os princípios básicos da sanidade política na atualidade. A “pátria” que pariu párias, a “nação” que unificou nossas mazelas num processo civilizatório violento é algo que devemos abandonar, rechaçar e repudiar. Essa bandeira não nos unifica nem nunca unificou, ao contrário do que tentam nos fazer acreditar. As excluídas dessa nacionalidade cristã, racista e sexista representam a grande maioria, não o contrário. Felizmente, algumas gerações vêm se empenhando nessa tarefa, jogando as sementes da lucidez e dos caminhos da verdadeira libertação. A liberdade radical deve ser recuperada através da memória de nossas lutas e conquistas, nas trincheiras autônomas que cada uma de nós consegue levantar. Que a primavera não esteja longe, que as utopias renasçam, pois se alguma coisa mudou na história da humanidade, foi graças à elas.

No último ato contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no Rio de Janeiro, diversos manifestantes carregavam bandeiras do Brasil, com o intuito de identificar protestos de com a bandeira — Foto: Rafael Daguerre/1508

Hannah Cavalcanti

Professora de história e escritora. Colunista da Mídia1508.

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