Polícia executa homem na rua já imobilizado e gera revolta na população local

Manifestantes interrompem coletiva de imprensa da polícia e exigem prisão imediata do agente que matou Corey Ruiz.

Manifestantes no dia seguinte, 23 de julho, no cruzamento onde Corey Ruiz foi assassinado em Madison — Foto: Kayla Wolf/AP

Policiais em Madison, capital de Wisconsin, nos EUA, executaram um homem que tentavam prender no dia 22 de julho, durante uma confusão em uma esquina. A cena do policial atirando à queima-roupa três vezes no homem já imobilizado foi registrada por testemunhas, viralizou na internet e provocou protestos na cidade.

A vítima foi identificada como Corey Ruiz, de aproximadamente 30 anos. Uma coletiva de imprensa no dia seguinte, 23 de julho, em Madison, sobre a morte de Ruiz, foi interrompida quando manifestantes tomaram o microfone e impediram as autoridades de concluir suas falas.

A prefeita de Madison, Satya Rhodes-Conway, o chefe de polícia John Patterson e a presidente do Conselho Municipal, Sabrina Madison, estavam entre as autoridades que discursavam na coletiva antes de ela ser tomada por manifestantes que exigiram a acusação imediata do policial envolvido no assassinato.

Um manifestante, que se identificou como Carlos Dixon, da APTAP, tomou o microfone e fez um longo discurso rejeitando o processo de investigação, classificando os procedimentos como um “teatro de marionetes” e um “circo”. Dixon argumentou que nenhuma investigação traria justiça e exigiu saber quais acusações seriam feitas contra o policial. “Não haverá investigação”, disse Dixon.

“Não queremos ouvir esse tipo de conversa. Vocês já nos deram esse discurso de que ‘vão fazer justiça’. Nós vimos as câmeras, vimos que havia uma faca na mão desse jovem. Não queremos ouvir isso hoje”, afirmou Dixon. “Não queríamos ouvir isso quando colocaram o joelho no pescoço de George Floyd, e não queremos ouvir isso hoje.”

“Não importa quem você é ou qual é o seu passado; você não deveria perder a vida como resultado de um encontro com as forças de segurança”, disse Rhodes-Conway.

“Corey poderia ter sido meu irmão, porque meu irmão vive em situação de rua. Ele frequentemente anda de bicicleta”, disse Madison.

Corey Ruiz carregava uma faca, mas “a questão central agora é por que a força letal foi utilizada quando os policiais pareciam já ter imobilizado Ruiz no chão”, destaca a imprensa local.

Local da morte de Corey Ruiz, assassinado pela polícia de Madison, nos cruzamentos das ruas Baldwin e Williamson, em 22 de julho de 2026 — Foto: WMTV-TV

Polícia racista

O homem baleado é um homem preto, enquanto os quatro policiais envolvidos na ocorrência são brancos. Assim como em muitos outros casos de mortes causadas pela polícia nos EUA nos últimos anos, a questão racial intensificou as tensões sobre a justificativa do uso de força letal; um grupo de defesa da comunidade afro-americana afirmou que o homem baleado na capital de Wisconsin é negro.

“A polícia de Madison baleou mais um homem negro. Precisamos de todos os olhos voltados para a polícia de Madison. Nós garantimos a nossa segurança”, disse o grupo Urban Triage em uma mensagem publicada nas redes sociais. Em entrevista coletiva, o chefe de polícia de Madison, John Patterson, descreveu o homem morto apenas como alguém na faixa dos 30 anos e recusou-se a especificar a raça dele ou a de qualquer um dos quatro policiais envolvidos — três homens e uma mulher.

A morte ocorreu quando a polícia atendeu a um chamado sobre uma pessoa suspeita de “verificar veículos estacionados” no bairro de Marquette, em Madison, capital do Wisconsin. Ao localizarem o homem e tentarem abordá-lo, mas ele fugiu de bicicleta, passando por quintais para escapar, informou a polícia em seu comunicado inicial.

A polícia o encontrou pouco depois no cruzamento das ruas South Baldwin e Williamson. Ruiz foi derrubado da bicicleta após uma viatura policial avançar contra ele. Em seguida, quatro policiais entraram em luta corporal com Ruiz para imobilizá-lo.

“É preciso deixar claro: Corey Durell Ruiz não precisava morrer. Sua morte exige mais do que pesar. Exige respostas.Exige uma investigação completa, justa, célere e transparente. Exige que a sociedade compreenda o que aconteceu, por que aconteceu, quais alternativas foram consideradas e o que será feito para garantir que isso não se repita”, declarou em um comunicado a The Urban League of Greater Madison, um movimento popular por liberdade e oportunidade que ficou conhecido como as “Migrações Negras” (Black Migrations).

Memorial improvisado para Corey Ruiz em Madison, Wisconsin, em 23 de julho — Foto: Mark Hoffman/Milwaukee Journal/USA Today Network via Reuters

Protestos ocorreram em toda Madison. Grandes multidões se reuniram no Capitólio de Wisconsin, onde acontecia um show, e manifestações chegaram até a cidade de Green Bay.

Mais tarde, na noite do dia 22 de julho, uma vigília foi realizada perto do local da morte. Esse também foi o local onde a polícia de Madison atirou e matou Tony Robinson, em 2015. O caso também provocou uma forte reação da comunidade, e nenhuma acusação foi formalizada em relação à morte dele.

“Precisamos reconhecer o trauma pelo qual esta comunidade passou e que está vivenciando novamente agora”, disse Patterson, chefe de polícia de Madison. “O uso de força física pela polícia é uma questão de confiança pública sagrada. Quanto mais força um departamento utiliza, menos confiança e apoio ele recebe da população que serve”, concluiu.

Corey Ruiz, assassinado por um policial de Madison na quarta-feira, 22 de julho — Foto: Reprodução

Corey Ruiz

Jazzman Brown, uma organizadora comunitária de Madison, disse que Ruiz era pai, estava em situação de rua e enfrentava problemas de saúde mental.

“Conheço o Corey há mais de 20 anos. Ele era amigo do meu irmão. Estudamos juntos. Ele namorou minha melhor amiga em certa época. Nós nos conhecemos há uma vida inteira”, disse Brown.

Ela recordou Ruiz como uma pessoa “amorosa” e “a alma da festa”, que “preenchia o ambiente com energia sempre que estava presente”.

“Um pai, um filho, um amigo, alguém querido, e ele se foi. E seus filhos, sua mãe, toda a sua família, todos que o amavam e o conheciam, viram-no ser assassinado a sangue-frio”, acrescentou ela.

Brown organizou uma vigília para a noite de 23 de julho a fim de homenagear a memória dele.

“Ele não merecia ser morto a tiros diante do mundo; ele tem pessoas que o amam. E ele é mais do que apenas um número de processo… Não podemos simplesmente continuar permitindo que esse problema persista. Tem de haver algum tipo de mudança”, disse Brown.

Tentativas de contatar familiares de Ruiz não obtiveram sucesso imediato.

Registros públicos de Wisconsin mostram que Ruiz acumulou diversas condenações por delitos de menor e maior gravidade entre 2009 e 2025.

Os crimes incluem roubo com uso de força, estrangulamento, posse de drogas, furto de veículo e agressão a um agente de segurança pública, segundo os registros. Consta nos documentos que as condenações mais recentes de Ruiz foram por resistência à ação policial e posse de utensílios para o uso de drogas.


Fontes:
Madison police shooting a homicide investigation, chief says
Madison police shooting: Corey Ruiz identified as man killed
Protesters burst into press conference day after Madison police fatally shoot man
Witness video of Madison police killing raises questions of why lethal force was used
Urban League of Greater Madison: Statement from the Urban League of Greater Madison on the Death of Corey Durell Ruiz

Mídia1508

A 1508 é um coletivo anticapitalista de jornalismo independente, dedicado a expor as injustiças sociais e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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