Os protestos de rua eclodiram há um mês, impulsionados pela indignação com uma série de escândalos envolvendo exames, incluindo o vazamento ilegal de provas de admissão para o curso nacional de medicina.
Os jovens afirmam que os escândalos comprometeram seus futuros e minaram a confiança no sistema educacional. Eles responsabilizam o Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, que renunciou ao cargo no sábado (23) após intensos protestos.
No entanto, as manifestações evoluíram para um descontentamento mais amplo em relação à responsabilidade do governo, espalhando-se para outras cidades.
Enquanto milhares de manifestantes ocupam as ruas da capital indiana, eles travam uma campanha paralela na internet, inundando as redes sociais com memes, vídeos de paródia e piadas.
Ao fazer isso, eles também estão vencendo Narendra Modi — o poderoso primeiro-ministro, muito preocupado com sua imagem — em seu próprio jogo.
Modi construiu sua marca política nas redes sociais. Agora, os manifestantes usam essa mesma plataforma para zombar de sua administração, ridicularizar a cobertura televisiva favorável ao governo, transformar confrontos com a polícia em conteúdo viral e assumir o controle da narrativa online.
A campanha levou os protestos — que exigem responsabilidade e reformas educacionais — para além das ruas, ampliando seu alcance e intensificando a pressão sobre um governo receoso de parecer ceder a um movimento jovem em rápido crescimento.
Um estudante de 21 anos disse que não há maneira melhor de desafiar Modi do que usando as redes sociais que ajudaram a construir sua imagem política.
“Estamos apenas respondendo a ele na linguagem dele”, disse o jovem.
Um cartaz com a imagem do Ministro da Educação perguntava: “Quando a IA vai tomar o emprego dele?” Outro capturava o espírito do movimento com o slogan: “Toda piada é uma [pequena] revolução”.

A piada como ferramenta política da juventude
A campanha digital do movimento “Cockroach Janta Party” (Partido Popular das Baratas) tem sido impulsionada, em grande parte, pelo humor.
Confrontos com a polícia tornaram-se conteúdo viral. Vídeos mostravam manifestantes brincando sobre manter viva sua sequência de atividades no Strava — uma referência ao aplicativo de monitoramento de exercícios usado por corredores — enquanto fugiam de investidas policiais com cassetetes.
Outros editaram imagens de si mesmos desviando de barreiras policiais para imitar o popular jogo de celular do gênero endless runner (corrida infinita) Subway Surfers.
Algumas mulheres adotaram a cultura dos influenciadores, publicando vídeos do tipo “arrume-se comigo” antes das marchas e postagens exibindo o visual (“fit check”) com capacetes, óculos de proteção e outros equipamentos de protesto improvisados. Outros manifestantes criaram vídeos satíricos zombando de apresentadores de TV pró-governo e de seu estilo dramático de transmissão, que rotulou os manifestantes como “antinacionais” e “conspiradores financiados pelo exterior”.
Grande parte da expansão das manifestações foi impulsionada pelo Cockroach Janta Party (CJP), um grupo satírico que iniciou o movimento há dois meses. Por meio de memes, humor e sátira, o grupo ofereceu aos jovens indianos uma nova forma de expressar sua frustração com o governo e ajudou a transformar uma campanha centrada em uma única questão em um movimento juvenil mais abrangente.
Uma manifestante de 25 anos, em entrevista a Associated Press, disse que os memes são mais do que um alívio cômico; são uma forma de lidar com a situação. Ela os vê como uma característica geracional.
Ao contrário das gerações mais velhas, que aprenderam a suportar adversidades, a geração dela tem pouca paciência para “simplesmente aguentar”, disse ela.
“Se nossos dados móveis acabam, não conseguimos nem suportar isso. Então, com certeza não vamos tolerar isso”, afirmou, referindo-se à repressão policial contra manifestantes na capital, ocorrida na segunda-feira.

Piadas têm Modi como alvo
Modi inicia seu 13º ano no cargo. Os protestos quebraram um tabu de longa data: ridicularizar o próprio Modi.
Sua imagem baseia-se na força e na determinação, mas ele corre o risco de afastar os jovens se reagir com excesso de rigor. Quase metade da população da Índia tem menos de 25 anos, o que faz dos jovens eleitores um dos grupos eleitorais mais influentes do país.
Piadas sobre Modi eram raras em protestos anteriores, quando seu governo era criticado por reprimir a dissidência. Mas agora, até ele se tornou alvo de zombaria.
Gestos, pausas e maneirismos de Modi foram transformados em vídeos editados que viralizaram, convertendo suas próprias palavras em piadas políticas.
Quando Modi divulgou, na noite de quinta-feira, um vídeo em estilo selfie dirigindo-se aos manifestantes, ele prometeu medidas legais rápidas contra os responsáveis pelo vazamento de provas acadêmicas ou de concursos.
Contudo, muitos internautas editaram o vídeo com dublagens satíricas e referências a promessas passadas dele que não foram cumpridas.
Um vídeo em particular viralizou.
O discurso original de Modi começou com ele se referindo aos manifestantes como “amigos”. Um vídeo de paródia manteve essa abertura e, abruptamente, mostrou três jovens olhando para a câmera e respondendo: “Não, não somos”.
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Fontes:
– India’s youth protesters are fighting Modi with irreverent humour and memes
– India’s ‘cockroach’ movement ousts minister, but can Modi calm youth?
– India’s ‘Cockroach’ movement ends protests after education minister resigns
