Globo tenta censurar evento acadêmico crítico a Israel

Jornal rotula como "discurso de ódio" debate na UERJ sobre uso de armas israelenses contra jovens negros no Brasil.

Cartaz na rua de Madureira durante a XII Marcha das Periferias pelo Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2023 — Foto: Rafael Daguerre/M1508

Criticadas por ecoar propaganda do governo Netanyahu em meio ao massacre na Faixa de Gaza, as Organizações Globo tornaram a tentar silenciar as vozes que denunciam as violações de direitos humanos promovidas por Israel. Na quinta- feira da semana passada (16/11), por meio de seu veículo de imprensa mais tradicional, o Jornal O Globo, o grupo empresarial da família Marinho publicou reportagem noticiando uma suposta “polêmica” que estaria “incendiando os corredores da Faculdade de Direito da UERJ”. O motivo: um debate, programado pelo Centro Acadêmico Luiz Carpenter (CALC) e pelo Coletivo Negro Patrice Lumumba para o Mês da Consciência Negra, com o título “Racismo e sionismo: as amas de Israel matam jovens no Brasil e na Palestina”.

Sem citar nominalmente suas alegadas fontes, a matéria afirma que haveria na universidade a avaliação de que o evento não estaria protegido pelo direito constitucional à liberdade de expressão, pois se trataria de “discurso de ódio”.

Ainda segundo o texto, a fundamentação desse posicionamento teria a ver com “o fato de a instituição contar com vários alunos e professores de origem judaica — entre eles, os ministros Luiz Fux e Luís Roberto Barroso”. A relação entre a genealogia dos citados magistrados e o porque deveria ser censurada uma reflexão acadêmica sobre as consequências do comércio armamentista Brasil-Israel em nenhum momento é explicada.

Na manhã de ontem (23), o CALC fez uma postagem no seu Instagram, na qual relata que as entidades estudantis da Faculdade de Direito da UERJ vêm sofrendo ataques racistas, de maneira coordenada, por apoiadores de Israel.

O centro acadêmico também repudia o que chama de “tentativa de censura e sabotagem” ao evento, que, segundo os seus organizadores ” busca fomentar um debate fundamental para compreender as dimensões do racismo e suas formas de expressão em todo o mundo.”

Intercâmbio da Morte

Contrariamente ao que sugere o Globo, apontar o papel das armas israelenses no morticínio da juventude negra daqui não é reproduzir nenhuma teoria conspiratória antijudaica. É tão somente apontar um dado de realidade, sabido de longa data e amplamente documentado.

Em 2003 – início do primeiro governo Lula, portanto – as Forças Armadas brasileiras abriram um escritório em Tel-Aviv. Sete anos depois, em novembro de 2010, o Brasil assinou um “acordo de cooperação em segurança” com Israel que facilitava a indexação de contratos entre os dois Estados relativos ao tema.

A partir daí, agentes da e militares brasileiros passaram a realizar treinamentos com seus colegas israelenses, além de o Estado brasileiro iniciar suas compras de produtos da indústria bélica de Israel. O exemplo mais conhecido são os “Caveirões” do Bope do Rio de Janeiro, famosos pelo filme Tropa de Elite, mas sobretudo pelo terror que levam às favelas cariocas.

Desde então é comum ouvirmos movimentos como as Mães de Maio ou a Rede de Comunidades contra a Violência declararem que “as mesmas armas que matam nossos filhos também matam os palestinos” – exatamente a constatação factual que o Globo agora rotula como sintoma de uma dita “nova onda de antissemitismo” em nosso país.

Nem mesmo em Israel esse intercâmbio mortal conseguiu passar isento de contestações. Em 2011, ativistas israelenses da campanha Stop The Wall, que defende a paz com os palestinos, lançaram um manifesto acusando a empresa Israeli Military Industries (IMI) de estar em envolvida em “escândalos de corrupção com a compra de autoridades brasileiras para fazer valer seu interesse comercial”.

“O Brasil reconheceu o Estado palestino nas fronteiras de 1967. A indústria de armas israelense está lucrando conscientemente com a ocupação contínua do território original palestino à medida que desenvolve suas armas graças à “experiência” adquirida na ocupação. O apoio à indústria armamentista israelense contradiz, portanto, claramente o apoio declarado do governo brasileiro para a criação de um Estado palestino nas fronteiras de 1967”, diz trecho do documento.

Cartazes nas ruas de Madureira durante a XII Marcha das Periferias pelo Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2023 — Foto: Rafael Daguerre/M1508

Armas de Assassinato em Massa

Resultado da cisão e da da IMI, a Israeli Weapon Industries (IWI) tem faturado vultosas quantias com o fornecimento de armamentos para polícias de diferentes partes do Brasil. Apenas no ano de 2023, o total dos contratos celebrados já ultrapassa os R$ 40 milhões.

As negociações ocorrem desde 2020, quando a empresa vendeu dez metralhadoras do modelo Negev NG-7 para a Polícia Militar de São Paulo, então sob a gestão de João Dória. À época, o advogado e militante pacifista israelense Eitay Mack entrou com uma ação na justiça de Tel-Aviv em nome de outras 80 pessoas para anular a venda.

As metralhadoras Negev têm calibre 7,62x51mm e podem disparar 600 a 750 tiros por minuto. Com um valor estipulado na ocasião de R$ 56,2 mil por unidade, sua aquisição fez com que Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tivesse de desembolsar um montante de R$ 562 mil.

Ao Uol, em matéria de Rubens Valente publicada em setembro de 2020, Mack contou que viu uma postagem da IWI no Instagram anunciando a venda do equipamento para a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) e achou um grande absurdo.

“Pensei que isso era uma loucura. A Negev não é o tipo de arma que deve ser usada em áreas residenciais. É uma arma muito poderosa, que pode ser usada contra tanques. Não é precisa, é uma arma de mass killing [assassinatos em massa]. O uso em favelas em São Paulo é muito perigoso, pode ser usado em massacres”, recorda.

Maior rede internacional da sociedade civil pró- do mundo, o Movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) também sublinha o potencial genocida do arsenal israelense:

“Muitas pessoas no Brasil, especialmente a comunidade negra, sabem que estes acordos militares, de cooperação para tecnologia, armamentos e treinamento não irão apenas exacerbar a matança na Palestina, mas também no Brasil”, alertou em nota o movimento, após a recente aprovação pela Congresso brasileiro de mais dois tratados do tipo, assinados durante a presidência de Jair Bolsonaro.

Na visão do BDS, caso Lula não revogue tais assinaturas, isso significará “uma demonstração de cumplicidade flagrante por parte das instituições estatais do Brasil naquilo que especialistas em direito internacional descrevem como um israelense em curso contra o povo palestino”.

Cartazes nas ruas de Madureira durante a XII Marcha das Periferias pelo Dia da Consciência Negra, 20 de novembro de 2023 — Foto: Rafael Daguerre/M1508

Ameaça à circulação do conhecimento

A investida do Globo contra a atividade da UERJ se dá duas semanas após a Prefeitura do Rio, sob o comando de Eduardo Paes, ter se tornado a primeira no Brasil a aderir à definição de “antissemitismo” da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês). Por determinação do prefeito Ricardo Nunes, a mesma política foi adotada também no último dia 14 pelo município de São Paulo.

Em nenhum dos casos, foi travada qualquer discussão prévia com a população sobre os impactos das medidas, que têm passado despercebidas até mesmo pela maior parte da esquerda brasileira.

Elaborada no início dos anos 2000, a definição da IHRA codifica uma noção defendida pelos proponentes da chamada “nova teoria do antissemitismo”, a de que o antissionismo – oposição ao projeto etnonacionalista por trás do Estado de Israel – equivaleria ao ódio racial contra o povo judeu.

A oficialização desse discurso é encarada com preocupação por movimentos populares, entidades de direitos humanos e estudiosos. Em novembro de 2022, um grupo de 128 especialistas – incluindo renomados acadêmicos judeus – divulgou uma carta aberta pedindo às Nações Unidas que não aderissem à conceituação proposta pela IHRA, por ter sido “instrumentalizada para para dissuadir a liberdade de expressão e para proteger o governo israelense da responsabilização pelas suas ações.”

Na União Europeia, a sua adoção resultou em restrições generalizadas às liberdades de reunião e manifestação, encorajando e validando a supressão da defesa dos direitos palestinos.

Segundo relatório do Centro Europeu de Apoio Jurídico (ECLS, em inglês), embora, em tese, a definição da IHRA seja “juridicamente não vinculante”, o que tem se verificado na prática são os governos e instituições privadas europeus a utilizarem como como se fosse uma lei.

Como resultado, indivíduos e grupos – que incluem militantes judeus pró-Palestina – têm sido submetidos a acusações de antissemitismo e processos disciplinares. Também foram alvo de campanhas difamatórias, demissões ou enfrentaram um golpe nas suas carreiras acadêmicas e reputações profissionais.

“A minha reputação em público é a de uma antissemita e a minha carreira acadêmica neste país acabou… Sou essencialmente totalmente ignorada ou marginalizada“, afirmou à Al Jazeera Anna-Esther Younes, acadêmica e ativista radicada na Alemanha.

Ela conta que não é mais convidada a participar de painéis ou realizar workshops porque os organizadores temem que associar-se a ela possa colocar em risco o seu financiamento público.

“As cláusulas estatais para financiamento em Berlim, por exemplo, estabelecem que o financiamento estatal pode ser revogado às instituições se pessoas ou grupos que apoiam o BDS forem convidados”, explica.

Em 2019, Younes foi desconvidada de um painel de discussão organizado pelo partido da esquerda institucional alemã Die Linke depois de a organização receber um dossiê secreto horas antes de o evento acontecer.

“Essa é uma forma de acabar com a circulação do conhecimento em público, marginalizando-nos e estigmatizando -nos a tal ponto que ninguém mais nos convide para falar em público”, avalia.

Movimentos prestam solidariedade

No caso brasileiro, mesmo vindas de um dos maiores órgãos de imprensa do país, as insinuações e a pressão não surtiram o efeito por ele desejado. Os organizadores do Mês da Consciência Negra da UERJ,mantiveram a mesa sobre a questão palestina, que deverá acontecer nesta sexta-feira (24/11), às 19h, no sétimo andar do campus Maracanã. Os debatedores serão o ativista palestino brasileiro João Haddad e o militante do movimento negro Ruggero Caetano.

Movimentos de favela e coletivos apoiadores da causa emitiram, nesta terça feira (21), uma nota se solidarizando com a iniciativa.

Confira o texto na íntegra:

NOTA DE APOIO E SOLIDARIEDADE:

Na tarde do dia 16/11 fomos surpreendidos com uma reportagem sobre uma mesa a ser realizada nas atividades do mês da Consciência Negra promovidas pelo Centro Acadêmico Luiz Carpenter e Coletivo Negro Patrice Lumumba. Intitulada “Racismo e Sionismo: as armas de Israel matam jovens no Brasil e na Palestina”, busca debater algo que pra nós, movimentos de favela e organizações em defesa da Palestina, não é novidade: Israel e o Ocidente utilizam a empreitada colonial contra a para promover a exportação de uma política de morte e apartheid, que abastece o complexo industrial-militar-prisional mundo à fora.

A atividade a ser realizada não se trata de uma mera polêmica, como apontam os jornalistas. O Brasil é um dos principais compradores da tecnologia e treinamento militar israelense, e a relação entre Brasil e o Estado de Israel é de longa data, desde o apoio brasileiro à fundação do Estado sionista, o apoio israelense à ditadura no Brasil e o aprofundamento dos laços durante o governo Bolsonaro e governo Witzel no Rio de Janeiro. A é utilizada enquanto laboratório que legitima a indústria bélica de Israel enquanto a população brasileira, sobretudo preta e favelada, também é atingida pela militarização da vida.

Entre 2018 e 2022, o registrou mais de 100 chacinas de intervenção federal, sendo três das mais letais (Jacarezinho, Complexo da Penha e Complexo do Alemão) realizadas sob comando do Governador Claudio Castro. Somente no primeiro semestre de 2023, 49 crianças e adolescentes foram baleadas e 23 mortas no Rio de Janeiro. Todos esses casos não se isolam do extermínio que é provocado em Gaza, se relacionando em seu sentido militar, treinamento e exportação das armas. O genocídio da população negra nas favelas e a política de limpeza étnica de Israel não são práticas que devam ser combatidas isoladamente, mas compreendidas enquanto lutas que devem ser enfrentadas internacionalmente.

É diante da conexão da militarização da e do Brasil e frente à urgência de amplo debate sobre o acirramento do extermínio de palestinos e da população preta e pobre brasileira, que nos colocamos em favor da realização do debate e prestamos solidariedade ao CALC e ao Coletivo Negro Patrice Lumumba. A realização da atividade não se trata de propagação de discurso de ódio, mas sim de uma leitura acertada da realidade que nos assola e o exercício legítimo do papel político que Centros Acadêmicos e coletivos devem desempenhar nas universidades, sobretudo na universidade pioneira na implementação da política de cotas no país.

Assinam:

Julho Negro
Maré 0800
Coalizão de Mídias
ADEP
Iniciativa Direito a Memória e Justiça Racial
M1508 – Coletivo de Jornalismo Independente
Juventude Sanaúd
Cahis UERJ

Ricardo Pitta

Redator e revisor.

Rafael Daguerre

Fotógrafo, Repórter, Editor e Documentarista

Um dos fundadores da Mídia1508. "Ficar de joelhos não é racional. É renunciar a ser livre. Mesmo os escravos por vocação devem ser obrigados a ser livres, quando as algemas forem quebradas" ― Carlos Marighella.

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