Cultura maker é fake na rede estadual do Rio de Janeiro

O projeto maker parece ter como sua real finalidade a produção, não de uma capacitação dos jovens, mas da manutenção de proximidades duvidosas das políticas públicas com os interesses do capital privado.

Evento na Seeduc, dia 02 de junho - Foto: Carina Blacutt/1508

No início do mês de junho foi realizada na sede da Secretaria de do Rio de Janeiro (Seeduc) a capacitação pedagógica sobre a maker com o objetivo de tratar de ferramentas tecnológicas educacionais audiovisuais como a musicalização e a gamificação em sala de aula.

O evento teve duração de dois dias e tal ação foi efeito da implementação do projeto da secretaria de batizado de , um espaço tecnológico para produção discente de projetos inovadores.

No primeiro dia foi apresentado o projeto através de uma série de palestras. Uma parceria público-privada na qual as empresas fornecem aparatos tecnológicos, incluindo material pedagógico para ensino remoto.

Carregado do vocabulário de princípios do suposto empreendedorismo, a digital foi justificada como necessária “para arrumar emprego”, como dito por um dos palestrantes, o que já traz uma contradição em si. Afinal, é política educacional para empreender ou para disputa de mercado de trabalho? Talvez essa ideia de empreendedorismo não convença nem a própria Seeduc.

Outra justificativa interessante de ressaltar, exposta nesse primeiro dia de evento, foi a ideia de que a digital transforma o trabalho em memória pela digitalização. A proposta traz uma perspectiva da tecnologia como salvadora da memória. O discurso de que, por ser digital, os trabalhos realizados não se desgastarão com o tempo e serão acessíveis para sempre é tão falacioso que beira a um cientificismo.

Evento na Seeduc, ralizado no dia 02 de junho — Foto: Carina Blacutt/1508

O argumento aqui é básico: adquirir aparelhos tecnológicos, pois representa uma superação, um progresso da educação. Contudo, basta um pouco de conhecimento para saber que todos os trabalhos podem ser perdidos com uma memória corrompida ou ausência de conexão de qualidade, o que é frequente na maioria das escolas.

Apesar de apresentar uma roupagem high tech, o que temos aqui é a velha política de verba pública tendo como destino as empresas privadas. Nesse caso, temos a Microkids, a editora Divulgação Cultural e a Eureka Digital. Parcerias que ramificam ainda mais a presença de outras empresas, como o Google for Education e a Multilaser.

A Microkids Tecnologia Educacional visa a disponibilização de livros paradidáticos de tecnologia educacional, associados a uma plataforma de recursos digitais, voltados à tecnologia educacional, que possibilitem a compreensão e a prática de metodologia inerentes à Digital.

A Divulgação Cultural, por sua vez, é a empresa por trás do Kit Enem, rejeitado em 2021 e, agora, adquirido por R$ 7,3 milhões mais caro. Tais kits foram apresentados tão rapidamente, que é impossível concordar que os professores presentes foram capacitados para usá-los. A realidade é que grande parte dos docentes presentes no evento já haviam tido contato com os livros nas suas escolas e perceberam que, além dos exercícios já virem com o gabarito para os estudantes, os kits incluem videoaulas as quais provocaram uma grande surpresa para os docentes que não tiveram qualquer tipo de acesso prévio ao seu conteúdo.

Já a Eureka Digital é a responsável pelo projeto Letramento matemático, destinado ao Ensino Fundamental regular, e ao módulo I ao IV do Ensino Fundamental dos anos finais da Socioeducação. “A finalidade do projeto é estimular o raciocínio, a linguagem, leitura, interpretação, escrita e a atenção no processo de ensino e aprendizagem em Matemática, por meio do desenvolvimento de metodologias inovadoras, baseadas na autonomia da aprendizagem”, conforme sinalizado pela Seeduc.

No entanto, o curioso é que supostamente a licitação para concessão dessa parceria com a Secretaria de não está no nome de nenhuma dessas empresas, mas de uma outra única empresa, a MKS Soluções Comerciais e Distribuidora de Materiais, empresa pertencente ao empresário Marcelo Konte, ex-candidato a vereador do PSDB e do DEM em Niterói. 

Aqui, vale ressaltar que estamos falando da mesma MKS Soluções que, em 2020, vendeu máscaras contra a Covid-19 para o governo fluminense sem licitação. Um relatório do Tribunal de Contas do Estado do Rio apontou indícios de superfaturamento de R$ 310 mil.

O projeto maker parece ter como sua real finalidade a produção, não de uma capacitação dos jovens, mas da manutenção de proximidades duvidosas das políticas públicas com os interesses do capital privado.

No segundo dia do evento, foram apresentados aparatos tecnológicos como sugestões para as gestões escolares adquirirem com a verba disponibilizada para tal finalidade. As chamadas oficinas, na verdade, tratavam-se de uma exposição de produtos, com a duração de pouco mais de 15 minutos por apresentação, o que obviamente não capacitou ninguém. 

Além disso, uma quantidade de aparatos apresentados que são incompatíveis com a realidade das escolas estaduais em geral. A impressora 3D, por exemplo, exige uma demanda de horas para imprimir um único objeto. A média é de 6 a 9 horas para imprimir um objeto de 20 cm. A caneta de impressão 3D foi apelidada pelos docentes de “caneta de cola quente”.

No meio de tanto oportunismo, o que é uma pena considerando-se que a tecnologia é de fato um forte instrumento pedagógico, à sua maneira, a categoria dos profissionais da conseguiu demonstrar o descontentamento diante desse governo estadual, exigindo a saída do atual governador. Bastava abrir o wi-fi para perceber que não é nenhum tecno-show que vai enganar os docentes mais atentos.

Docentes usam wi-fi pedindo a saída do governador Cláudio Castro (PL) durante o evento realizado na Seeduc, no dia 2 de junho — Foto: Carina Blacutt/1508

Como apontou Nadine Bloch, na página 72 de Bela baderna: ferramentas para a revolução: “O papel do ativista muitas vezes se assemelha ao da criança em uma história de Hans Christian Andersen: mesmo que todos saibam que o rei está nu, dizê-lo em público pode ter consequências revolucionárias. Expor problemas antes escondidos pode ser o primeiro e mais importante passo para resolvê-los.”.

Carina Blacutt

Carina Blacutt é filósofa e professora da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, doutoranda em Estética e Filosofia da Arte pela UERJ e colunista de educação da Mídia1508.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Últimas Notícias