Milícia de usineiro destrói lavoura do MST destinada a doação de alimentos na pandemia

Desde o dia 9 de março, no início da pandemia, cerca de 100 acampamentos e assentamentos de Sem Terra no Paraná já distribuíram 246 toneladas de alimentos, 6.400 marmitas e 600 máscaras de tecido.

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um grupo de catorze homens armados destruiu na última sexta-feira (03) parte das lavouras em fase de colheita plantadas por cinquenta famílias do Valdair Roque, em Quinta do Sol, na região central do Paraná. Segundo o Movimento dos Rurais Sem-Terra (MST), a ação foi coordenada por Víctor Vicari Rezende, um dos proprietários da usina de açúcar e álcool Sabarálcool. De acordo com a denúncia, o grupo chegou ao local às 7 horas e saiu apenas por volta das 16h30, após a intervenção da polícia.

“Era um grupo encapuzado e armado. Estavam com um trator destruindo as plantações. Desceram de duas caminhonetes e pressionaram. Criaram um clima tenso com as famílias. Foi um dia difícil. As famílias ainda estão assustadas”, relatou Paulo Sérgio de Souza, morador do acampamento, ao portal De Olho Nos Ruralistas.

No mesmo dia, a Horta Comunitária Antonio Tavares, das comunidades Terra Livre e Mãe dos Pobres, também do MST, doou 1500 quilos de alimentos orgânicos a 35 famílias da Aldeia Indígena Alto Pinhal e ao Lar dos Idosos João Paulo II, em Clevelândia.

Desde o dia 9 de março, no início da pandemia, cerca de 100 acampamentos e assentamentos de Sem Terra no Paraná já distribuíram 246 toneladas de alimentos, 6.400 marmitas e 600 máscaras de tecido. São dezenas de produtos distribuídos para centenas de famílias, em 126 municípios, onde o MST está presente, tudo produzido de maneira orgânica e agroecológica Um coletivo formado por militantes do MST, amigos e voluntários também produz 700 marmitas todas as quartas-feiras em Curitiba, desde o início de maio. O tipo de ação de que você verá ser propagandeada no Jornal Nacional…

A coordenação do movimento cobra que a Defensoria Pública, o Ministério Público e o governo estadual impeçam a destruição dos alimentos. O Valdair Roque existe desde setembro de 2015 e tem garantido produção de gêneros alimentícios para o consumo das próprias famílias e para doações à população local. No dia 7 de maio, as famílias participaram de uma doação de 1.500 quilos de produtos à Santa Casa e ao Comitê de Apoio às Pessoas em Situação de Risco Social do campus de Campo Mourão da Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

Há algumas semanas chegou ao conhecimento dos seus moradores que a usina, comandada pelos irmãos Victor e Ricardo Rezende, estaria se articulando com empresas de “segurança” (leia-se: milícias de aluguel) para realizar um ataque ao acampamento.

A ideia, ao que parece, é tentar contornar um decreto recentemente expedido pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), suspendendo por tempo indeterminado todas as ordens de despejo coletivas, em função da pandemia.

Em julho do ano passado, a usina já havia movido uma ação de reintegração de posse contra a comunidade, mas acabou sendo firmado um acordo judicial, no qual as famílias iriam permanecer até 30 de junho de 2020. Depois disso deveria ser estabelecida uma mediação ou oferecida uma nova área para os ocupantes se realocarem.

A determinação do TJ impedindo as remoções, porém, acabou tendo o efeito de suspender esse prazo. Na verdade, antes mesmo do decreto, a expectativa já era de uma decisão favorável aos pequenos agricultores. A usina acumula grande passivo jurídico, com 964 ações trabalhistas somente na Comarca de Campo Mourão. O descumprimento da função social das relações de trabalho levou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) a manifestar-se pela desapropriação da área. No mesmo sentido, desde 2018 existe uma recomendação do Ministério Público Federal para que o Incra intervenha junto a esse conjunto de ações e execuções trabalhistas para adquirir o imóvel e destiná-lo a famílias acampadas.

Inauguração do Centro de Produção Agroecológica Pinheiro Machado, em Quinta do Sol, Paraná, neste sábado (04) / Foto: Alan Bruno Ferreira e Diego Ferreira / MST-PR

Famílias prometem resistir

“Já era para ter sido criado o projeto de assentamento aqui, porque é uma área que tem dívida trabalhista, R$ 30 milhões, e possibilidades reais de virar assentamento. Estamos num período difícil e vamos continuar produzindo” avalia Paulo Sérgio, que, além de residente no acampamento, é membro da direção estadual do MST. “Vamos continuar a luta, a pela conquista da terra”.

Silvano Gomes Barroso, 46 anos, que participa do desde 2015, junto com sua esposa e sua filha, também reafirma a importância do espaço na luta pela reforma agrária.

“Estamos vivendo da terra hoje e é muito importante a gente estar aqui. Estamos com mais 50 famílias residindo na [fazenda] Catarina, e nós todos estamos sobrevivendo da terra, todos firmes lutando por um pedaço de terra. Aqui vivemos bem melhor que na cidade […]. Estamos aqui apreensivos porque ontem fomos surpreendidos pelo que se diz dono da fazenda com um pessoal armado, ameaçando nós. Mas nós estamos aqui firmes e fortes”, declarou, em entrevista ao jornal Brasil de Fato.

Na tarde do sábado (04), dia seguinte ao ataque, o movimento inaugurou no local o Centro de Produção Agroecológica Pinheiro Machado. Além das famílias da comunidade, também estiveram no local moradores da área urbana de Quinta do Sol, religiosos, entidades e outros movimentos sociais, em aos agricultores.

O nome do espaço homenageia o professor Luiz Carlos Pinheiro Machado, que faleceu na quinta-feira (02), aos 91 anos. Pinheirão, como costumava ser chamado, foi um grande cientista e propagador da agroecologia e dos ideais socialistas, crítico da agricultura capitalista.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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