Polícia Militar prepara massacre de camponeses em Rondônia, denuncia LCP

Mesmo sem provas, as acusações sensacionalistas têm desencadeado uma intensa perseguição pelo Estado ao acampamento, onde vivem 600 famílias, cerca de 2.000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

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Foto: Reprodução

Camponeses do Tiago dos Santos, no distrito de União Bandeirantes, em , denunciam estarem sofrendo ameaças por parte da Polícia Militar de . A tensão na região, marcada por conflitos fundiários, aumentou após a morte do oficial da reserva da corporação José Figueiredo Sobrinho, que teria ocorrido na tarde do último sábado (3), em uma fazenda em Nova Mutum Paraná, outro distrito da capital rondonense.

Embora os camponeses neguem qualquer envolvimento com o incidente, veículos de imprensa locais têm se valido do ocorrido para criminalizar o movimento de luta pela terra, em especial a (LCP), a qual o acampamento é ligado. Segundo a versão que tem sido divulgada, Figueiredo teria sido executado enquanto participava de uma pescaria, por “posseiros armados da LCP”, que seriam também os responsáveis por balear outros quatro PMs destacados para averiguar o caso.

Essa narrativa é contestada pela Liga, que chama atenção para o fato de não haver qualquer notícia de que algum dos seus integrantes tenha sido ferido no suposto enfrentamento:

“É impressionante como mentem e são covardes. Se houve como disseram um confronto entre camponeses e policiais, deve haver camponeses feridos. E quem vai responder a esta pergunta?” questiona o movimento, em nota divulgada nesta segunda-feira (5).

O perigo de um novo banho de sangue se intensificou depois de o caso ter ganhado repercussão nacional, por conta de uma reportagem exibida na noite do último domingo no “Fantástico”, programa da Rede Globo de televisão. Ato contínuo, o presidente Jair Bolsonaro não perdeu a oportunidade de também incitar o ódio aos camponeses, divulgando na manhã seguinte em suas redes sociais um vídeo feito por um policial de uma tomada de terra realizada pela LCP.

“Embora tenha ouvido disparo de arma de fogo, não identificamos ninguém aqui com arma de fogo” afirma o PM, durante a gravação, se referindo a um barulho que era claramente o de um rojão. Veja aqui!

Mesmo sem provas, as acusações sensacionalistas têm desencadeado uma intensa perseguição pelo Estado ao acampamento, onde vivem 600 famílias, cerca de 2.000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

Aliado de Bolsonaro, o governador de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (PSL), enviou ao local 60 policiais militares de diversos batalhões da capital, com apoio de helicópteros do Núcleo de Operações Aéreas e viaturas de urgência e emergência do Corpo de Bombeiros, numa operação militar de claro intuito intimidatório contra a LCP.

A ação atende aos interesses do latifundiário Antonio Martins, conhecido como Galo Velho, que foi alvo de mandados de busca e apreensão em julho deste ano, por conta um esquema de grilagem de terras.

Considerado o maior grileiro de Rondônia, Galo Velho já chegou a ter em seu poder 1 milhão de hectares de terras, muitas delas conseguidas por meio da pistolagem e da cumplicidade de autoridades do Executivo e do Judiciário. Segundo o Ministério Público Federal, as fraudes capitaneadas por ele já teriam custado aos cofres públicos mais de R$ 330 milhões.

Fica evidente a farsa que está sendo montada com o objetivo de preparar um massacre contra os trabalhadores do . E não é a primeira vez.

Em 2016, os latifundiários rondonenses iniciaram o mesmo tipo campanha contra a LCP, em conluio com grandes empresas de comunicação. Na ocasião, a Revista IstoÉ fez uma série de reportagens rotulando como “guerrilha” o movimento.

Não por acaso, naquele mesmo ano, diversos dirigentes da Liga foram brutalmente assassinados, como Renato Nathan, executado por policiais e pistoleiros em Buritis (RO), Enilson Ribeiro dos Santos e Valdiro Chagas de Moura, mortos a pedradas em Jaru (RO), e o casal Edilene Mateus Porto e Izaque Dias Ferreira, emboscados com tiros de doze, enquanto se deslocavam de moto para plantar capim no acampamento Área Revolucionária 10, em Alto Paraíso (RO).

A Liga dos Camponeses Pobres

Homenagem no dia 9 de agosto de 2011, no mesmo local onde ocorreu o Massacre de Corumbiara / Foto: Reprodução/LCP

A Liga dos Camponeses Pobres é um movimento de luta pela terra atuante em diversos pontos do Brasil. Seu surgimento se deu em 1995 como uma dissidência do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), após o Massacre de Corumbiara, chacina promovida pela PM de Rondônia que deixou pelo menos 12 vítimas oficiais, mas que, de acordo com seus sobreviventes, pode ter chegado a mais de uma centena de mortos, tendo em vista o grande número de cadáveres ocultados.

Diferente do MST, a LCP conclama seus militantes a perderem as ilusões com a reforma agrária do Estado e a mobilizarem suas forças para promoverem uma transformação radical no campo, por meio da tomada das terras do latifúndio pelas próprias mãos dos camponeses e sua imediata redistribuição entre os mais pobres.

Coerentemente com essa visão, o movimento rejeita a participação eleitoral e o apoio a políticos profissionais de quaisquer partidos.

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