“A época da colonização é essa também, ela acontece todo dia, toda hora e vocês estão assistindo de camarote”, diz um jovem Tupinambá ao repórter de uma das muitas mídias, nacionais e internacionais, que acompanham o 15º Acampamento Terra Livre, de frente para o Congresso Nacional, a casa da oligarquia brasileira.

Por Lívia Antunes para a Mídia1508

O evento de abrangência nacional, que reúne mais de 100 etnias vindas de todas as regiões do país, e que acontece entre os dias 24 e 26 em , amanheceu sob forte vigilância do aparato armado do Governo, que contava até mesmo com helicópteros da Guarda Nacional. No entanto, mesmo com a mudança do local do acampamento dos arredores da Esplanada para a Praça da Cidadania, ao lado da rodoviária do Plano Piloto, as pautas e agendas foram mantidas, e as negociações das lideranças da APIB – Articulação dos Povos do Brasil – fizeram com que, inclusive, os mais de 4.000 não tivessem que se deslocar para o Memorial do Índio, local proposto pela Polícia para a instalação da ocupação. De acordo com uma das lideranças, isso faria com que muitos dos manifestantes não conseguissem ir até as plenárias, e demais reuniões agendadas na Câmara de Deputados e no Senado Federal, o que desmobilizaria grande parte dos .

Foto: Lívia Antunes

Não apenas através de força policial o Governo Bolsonaro buscou prejudicar o Acampamento Terra Livre (ATL) 2019. Em uma live do Facebook o presidente, prosseguindo com suas táticas de fakenews, chegou a questionar “Quem vai pagar a conta dos 10.000 índios que vêm pra cá? É você (se referindo aos contribuintes)”. Contudo, em coletiva de imprensa aberta aos mais de 11 países que acompanham – e apoiam – a causa indígena brasileira, a APIB, em apelo aos jornalistas presentes, pediu comprometimento com a divulgação das informações e reiterou, assim, que, como em todos os outros 14 anos do ATL, todos os custos foram cobertos por apoiadores da causa e com dinheiro da venda de artesanatos e demais mercadorias produzidas pelos indígenas.

Tal provocação apenas reacendeu o discurso unificado que marcou a abertura do evento, onde diversos indígenas demonstraram que não recuariam diante dos retrocessos das políticas públicas e do aumento da opressão que já causou, somente nesse ano, mais de 30 mortes nos mais diferentes territórios indígenas.

Em Marcha ao STF, eles exigiam o fim do Marco Temporal, proposta que prevê o reconhecimento da posse da terra apenas aos povos que comprovem sua presença no local na época da Constituição de 1988, manutenção da Funai no Ministério da Justiça, encerramento do processo de municipalização da , entre muitas outras demandas que se fazem mais urgentes a cada dia desse governo fascista.

Apesar da grande pressão e do clima de apreensão, as lideranças que convocaram seus parentes para a Marcha ao STF, pediram que estes deixassem seus arcos, flechas e lanças nas barracas, em prol de um ato pacífico. A solicitação foi seguida por uma grande maioria, mas foi possível observar, principalmente entre os mais jovens, algumas resistências. Como ser pacífico diante de tanta injustiça?

Foto: Lívia Antunes

Seguidos por alguns atores políticos bastante conhecidos de uma dita esquerda partidária, eles caminharam ao som de cânticos e danças tradicionais que pediam aos encantados proteção e força.

Força essa que os acompanha para enfrentar muitas horas de “negociações” na Câmara e no Senado. Segundo um indígena da etnia Pataxó, do estado baiano, “se eles entendessem que no dia em que todos os índios morrerem, morrerão também as chances de todos eles sobreviverem, a gente não precisaria estar aqui mendigando as coisas mais básicas”. Juntamente com cerca de outros 300 indígenas, ele se manifestava em frente ao Congresso Nacional enquanto as lideranças discutiam as pautas com os parlamentares. Era possível ouvir grupos entoando cantos nas línguas originárias, no entanto hinos de luta bastante escutados durante as manifestações sociais urbanas também se faziam presentes.

Enquanto alguns cantavam “pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça formigueiro”, outros levantavam discursos de proteção às matas e rios.

Estudos realizados pelo Instituto Socioambiental, instituição também presente no ATL, em territórios indígenas da Floresta Amazônica mostram que, sem a presença destes, a floresta provavelmente já teria sido muito mais devastada devido ao avanço do agronegócio, da mineração e outras atividades econômicas capitalistas tradicionais. Sabe-se que a floresta amazônica é essencial para a manutenção de um equilíbrio climático global e, consequentemente, para a vida social daqueles que moram há muitos quilômetros de distância.

Indígenas de diversas etnias que habitam essas regiões denunciam invasões recorrentes em suas terras por capangas armados que, segundo estes, são contratados por madeireiros e latifundiários. Há a denúncia também de que esses atores patrocinam, atualmente, a campanha de diversos políticos para que políticas de proteção ao indígena sejam flexibilizadas, e crimes contra essas populações perdoados.

Desde o início do ano, a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, em Rondônia, por exemplo, tem sofrido com uma intensificação de ataques de grupos armados. No dia 23 de janeiro a aldeia sofreu com a invasão de cerca de 100 homens, o que gerou pânico e muita desse povo que vem sendo perseguido incansavelmente há alguns anos.

Em operação realizada na região, a Polícia Federal descobriu um cadastro feito por madeireiros que continha cerca de 500 nomes de posseiros dispostos a invadir a Terra Indígena. No entanto, desde a posse do presidente , o que, muitas vezes, não passava de ameaça se concretizou de forma fatal e, antes mesmo do marco de 100 dias de governo, os Uru Eu Wau Wau, já haviam passado por seis ataques.

Lívia Antunes é Doutoranda em Geografia no PPGG/UFRJ

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