Na última terça-feira (2), o assassinato do menino Eduardo de Jesus Ferreira completou quatro anos sem justiça. Na tarde do dia 2 de abril de 2015, Eduardo brincava com um celular na porta de casa, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, quando foi alvejado na cabeça por um tiro de fuzil. Ele tinha 10 anos.

Sete meses depois, a Divisão de Homicídios a Polícia Civil, na época chefiada pelo delegado Rivaldo Barbosa, encerrou o inquérito sobre o caso. A “conclusão”, se é que assim podemos chamá-la, foi um verdadeiro absurdo. Mesmo reconhecendo que o tiro partiu da PM, os investigadores decidiram não apontar nenhum culpado. alegando ter se tratado de “legítima defesa” e que não seria possível dizer que agente efetuou o disparo.

Com isso, Marcus Vinicius Nogueira Bevitori e Rafael de Freitas Monteiro Rodrigues, os soldados da Unidade de Policia Pacificadora (UPP) envolvidos na ocorrência, foram isentados de qualquer responsabilidade. A DH descartou até mesmo o indiciamento dos PMs por homicídio culposo (quando não há intenção de matar).

Terezinha Maria de Jesus, mãe de Eduardo, no TJ-RJ. Foto: Leo Coelho

Contrariando o parecer policial, o Ministério Público ofereceu denúncia contra os acusados, lembrando características do crime como o fato de o tiro de fuzil ter sido dado a cinco metros de distância do garoto. Ainda assim, em 2016, o Tribunal de Justiça do Rio arquivou o processo.

A decisão, dos desembargadores Rosa Helena Guita, Flávio Marcelo Horta Fernandes e Paulo de Tarso Neves, provocou a ira da mãe de Eduardo, a doméstica Terezinha de Jesus, de 37 anos: “Os desembargadores tomaram essa decisão porque não foi com o filho deles que morreu com um tiro de fuzil na ”, declarou, após o resultado.

Testemunha ocular do assassinato, ela nega a versão oficial de que tivesse havendo uma troca de tiros entre policiais e traficantes no momento em que o filho foi morto:

“O delegado falou em legítima defesa, mas foi uma legítima covardia, porque não houve troca de tiro no dia em que mataram meu filho. Uma mãe em sã consciência jamais deixaria seu filho do lado de fora de casa se estivesse acontecendo um tiroteio. O único tiro que teve foi o que matou meu filho. Um soldado não pode perder a farda e eu posso perder meu filho? Isso é muito cruel pra mim” questionou a mãe, que hoje vive no Piauí, com medo de represálias.

“Lembro é dos policiais falando pra mim e para minha filha, quando ela tentou tirar a máscara de um deles: ‘A gente vai voltar’. Não me sinto segura no Rio, por isso fui”, relata Terezinha.

Pai do menino, José Maria Ferreira de Souza também denuncia ter sido hostilizado:

“Quando fui socorrer meu filho, o PM falou que eu era vagabundo que nem ele. Falou que matou um vagabundo que era filho de um vagabundo”, declarou o ajudante de pedreiro. “Sou trabalhador, trabalho de carteira assinada”, completou.

O casal teve cinco filhos, mas apenas Eduardo morava com os dois. Apesar de todas as dificuldades, Terezinha afirma que não desistirá de lutar: “Mesmo o processo sendo arquivado eu vou fazer de tudo pra levar pra frente. Enquanto eu tiver vida, vou lutar por justiça pro meu filho. Isso não é justo. O cérebro do meu filho ficou na minha varanda. O crânio do meu filho caiu na minha sala. Isso foi legítima defesa de quê? Que risco meu filho oferecia pra policiais armados com fuzis na minha porta? É muita covardia“, indigna-se.

Foto: Renato Moura(VOZ DAS COMUNIDADES)

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