Elizângela Freitas resolveu quebrar o silêncio e levantar a voz contra a violência. A gota d’água foi a última agressão sofrida: o ex-marido, Gilson Silva, com quem viveu por 21 anos e teve 3 filhos, a agrediu com uma garrafa e cacos de vidro. Tudo na frente da uma das filhas, em sua casa na Baixada Fluminense. Elizângela contou que passou por momentos de horror. Ela tem marcas na pele, curativos em várias partes do corpo, pontos na boca e por todo o rosto que fez questão de mostrar. O ataque ocorreu na madrugada de sábado (16) para domingo (17).

Gilson teve a prisão preventiva decretada e é procurado por tentativa de .

“Eu pedi pra vir falar, eu quis falar (…) Porque já cansei disso tudo. Se eu não fizer isso por mim agora, quem vai fazer?”, disse Elizângela.

Elizângela no hospital com diversos ferimentos no rosto e na cabeça / Foto: Divulgação

A filha também contou o que viu: “Eu fiquei desesperada, pedindo ajuda, gritando! Aí, teve uma hora que eu consegui tirar ele de cima da minha mãe e fui empurrando ele pro lado de fora. Aí, ele saiu falando que ia se entregar. Eu penso que ele não é meu pai pra ter feito isso na minha frente, feito isso com minha mãe na minha frente.”

Indignada, Elisângela relata os momentos de horror: “Eu aturo ele, cuidava dele bem porque é pai dos meus filhos, mas pra mim agora é um bicho, um monstro (…) Pegou o casco da garrafa e saiu me rasgando toda. Ele quebrou jogou em cima da minha cabeça e saiu me cortando.”

“Quase perfurou meu pulmão. Minha filha viu isso tudo, minha filha que é filha dele viu isso tudo. Ela que ajudou, se não eu estava morta”, conta.

A menina conta que ele batia na mãe – quase sempre, após beber álcool – e que diversas vezes ela tinha ferimentos.

Com o ex-marido foragido, Elizângela vive com medo: “Dentro de onde eu moro não posso ficar mais, ficar até quando assim? Até quando foragida? Porque não devo nada à polícia, não devo nada a ninguém, nem à lei. Eu estou como foragida, e eu não sou foragida, né, é o contrário.”

Elizângela é entrevistada com diversos ferimentos no rosto / Foto: Divulgação

Em meio a toda essa situação, a família ainda tem que resolver a burocracia que esse tipo de situação exige. Boletim de ocorrência, exame de corpo de delito, trâmites na Justiça. Quem está resolvendo isso é a irmã dela, que teve dificuldades para registrar o caso – só conseguiu depois de passar por quatro delegacias, ela conseguiu, na noite de terça-feira (19), registrar o caso na Delegacia da Mulher em Nova Iguaçu.

“Eu quero ver ele na cadeia e vou lutar pra isso até o resto da minha vida”, afirma Elisângela.

O ex-marido, Gilson Silva, que está foragido / Foto: Divulgação

Feminicídios em 2019 no Brasil

Um levantamento feito pelo professor Jefferson Nascimento, doutor em Direito Internacional pela Universidade de (USP) aponta que 107 casos de feminicídio foram registrados, contando apenas as primeiras três semanas do mês de janeiro. O docente usou o noticiário nacional como base da pesquisa. De acordo com o levantamento, 68 casos foram consumados e 39 foram tentativas. Há registros de ocorrências em pelo menos 94 cidades, distribuídas por 21 estados.

O Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de assassinatos chega a 4,8 para cada 100 mil mulheres no país.

O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. As mulheres negras são ainda mais violentadas. Entre 2003 e 2013, houve aumento de 54% no registro de mortes de mulheres negras, passando de 1.864 para 2.875 nesse período. Muitas vezes, são os próprios familiares (50,3%) ou parceiros/ex-parceiros (33,2%) os que cometem os assassinatos.

O número de assassinatos de mulheres é crescente. De 2006 a 2016 houve um aumento de 15% dessas mortes; e de 2016 a 2017, um aumento de 6%. Por trás dos feminicídios, é comum encontrar casos de violência doméstica em que as agressões já aconteciam há muito tempo, sem que as mulheres percebessem que estavam diante de um risco real de morte. Portanto, uma agressão, por “menor” que seja, deve ser denunciada – e não necessariamente pela vítima, mas por qualquer pessoa que tenha conhecimento de um fato envolvendo violência.

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