A maior apreensão de fuzis da história policial do Rio de Janeiro não foi fruto de nenhuma operação de investigação e combate ao tráfico de armas, aconteceu meio que “por acaso” como parte das buscas associadas à prisão do acusado do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Foram 117 fuzis modelo M-16, desmontados, que estavam na casa de Alexandre Motta Souza, no Méier, zona norte do Rio. Souza é amigo do PM reformado Ronnie Lessa, 48 anos, denunciado como autor dos disparos que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes, em março de 2018.

O dono da casa, Alexandre Mota, afirmou que Ronnie, seu amigo de infância, entregou as caixas e pediu para guardá-las e não abri-las. Alexandre foi preso por suspeita de tráfico de armas – possível comparsa de Ronnie Lessa. Ele foi rastreado e descoberto através de um barco que seria de Lessa, mas estava em seu nome.

A partir dessa apreensão devemos nos perguntar: quantas apreensões semelhantes “por acaso” poderiam ser feitas caso se investigassem policiais e ex-policiais matadores de aluguel e milicianos?

No dia a dia a polícia prefere realizar “operações” espetaculares, com muitos tiros e mortes nas favelas, para ao final apresentar duas ou três armas apreendidas, quando apresentam – e que muitas vezes são armas plantadas pela própria polícia. Essas “operações” notoriamente inúteis e sangrentas são saboreadas pela imprensa e pelo “público” imbecilizado como “combate ao crime”, e rendem condecorações e homenagens como a que o próprio Lessa já recebeu, junto com seus colegas de crime do 9° Batalhão da Polícia Militar.

Ou seja, festejam operações sangrentas realizadas em favelas por policiais criminosos que são os maiores envolvidos no tráfico de armas. Podemos concluir que a polícia não existe para combater o crime, mas para organizá-lo.

“No Rio de Janeiro a milícia não é um poder paralelo. É o Estado”, afirma o Sociólogo José Cláudio Souza Alves.

O sociólogo explica que a “milícia é mais poderosa do que o tráfico. Milícia se elege, tráfico não se elege. A base econômica da milícia está em expansão, não é tocada, não é arranhada. Traficante não, vive morrendo e sendo morto e matando. Milícia é o Estado.” O sargento aposentado Ronnie Lessa é suspeito de ligação com a milícia que atua na Gardênia Azul, zona oeste do Rio, além de evidências de laços com o Escritório do Crime, um grupo de extermínio.

José Cláudio Souza Alves é o autor do livro Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense. Sociólogo e ex-pró-reitor de Extensão da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), ele estuda as milícias há 26 anos.

Os 117 fuzis e a repressão nas favelas

As peças dos fuzis, sem os canos, estavam em caixas fechadas. Cada fuzil desse modelo, completo, vale cerca de R$ 30 mil. O arsenal, se estivesse com os canos, valeria R$ 3,5 milhões. Na casa também foram encontradas 500 munições, três silenciadores e R$ 112 mil em dinheiro.

Foto: Divulgação

A maior apreensão de fuzis realizada pela polícia do Rio até ontem era de 60 unidades, encontradas em 2017 no aeroporto do Galeão, na Ilha do Governador, zona norte da cidade. Eles tinham sido enviados de Miami para o Rio de Janeiro escondidos em caixas com aquecedores para piscinas. O brasileiro Frederik Barbieri foi preso em Miami, em fevereiro de 2018, acusado pela polícia brasileira de ser o responsável pelo tráfico dessas armas. Em julho, ele foi condenado pela Justiça dos EUA a 12 anos e 8 meses de prisão, quando admitiu ter atuado por cinco anos nesta rota.

Nas maiores apreensões de armas do Rio de Janeiro nenhuma foi em favela, não ocorreu sequer um tiro. Não tinha blindado do BOPE na rua, helicóptero atirando a esmo para baixo, nem criança baleada, não teve invasão de casas com o pé na porta, nem casas reviradas e destruídas de cima abaixo. Nada, nem o velho esculacho, prática policial bastante conhecida pelos moradores de favela. A polícia usou inclusive mandado de busca e apreensão, formalidades legais inexistentes em operações nas favelas. Mas quando a operação é na favela, a coisa funciona diferente.

Recentemente ocorreram operações no Morro do São Carlos, no Centro do Rio, e no Complexo do Alemão, zona norte da cidade, em que helicópteros da polícia atiravam indiscriminadamente na população e a imprensa se calou, tratando uma prática terrorista como “ação policial” no combate às drogas. Nenhuma arma foi apreendida.

Tráfico de armas

Ronnie Lessa / Foto: Divulgação

E-mails enviados pelo PM que fazem parte do inquérito revelam que ele comprava armas de vários países e fornecia, diversas vezes, como endereço para entrega, a casa onde morava e foi preso, no condomínio Vivendas da Barra, na Avenida Lúcio Costa, 3.100, Zona Oeste do Rio.

O tráfico de armas deve explicar o fato de um PM morar em um condomínio de luxo e ter uma mansão em Angra dos Reis, além de carros de luxo que tinham inclusive blindagem.

Em outras oportunidades, ele passava um endereço nos Estados Unidos, que usava quando viajava para o país. Segundo as informações, as armas, desmontadas, chegavam pelo correio. Em um desses endereços ligados a Lessa encontraram os 117 fuzis, do tipo M-16.

Lessa tinha mais de dez armas registradas em seu nome, mas ainda não se sabe como ele comprou a metralhadora MP5 usada na execução de Marielle e Anderson. Lessa fez buscas sobre a arma na internet, que ficaram registradas em sua “nuvem” — o que permite o acesso remoto. Depois, Lessa pesquisou silenciadores que são usados nesse tipo de arma. Testemunhas do crime alegaram que o som dos disparos foi abafado por algum aparelho.

As buscas sobre a arma pararam após a data dos assassinatos.

Lessa é um caveira, como são conhecidos os agentes que tem o curso de Operações Especiais. Ele foi promovido, na década de 1990, por ato de bravura na PM. Por isso, teve o salário aumentado, à época, em 40% por ser um dos agentes agraciados com a premiação por pecúnia. A gratificação foi criada em 1995, durante o governo Marcello Alencar, para premiar quem participava de grandes operações. Ela acabou após três anos de polêmica, já que o número de homicídios subiu no estado, o que fez o bônus ser apelidado de “gratificação faroeste”.

Ninguém jamais havia investigado Ronnie Lessa. Embora a polícia conhecesse a fama do sargento reformado, associada a crimes de mando pela eficiência no gatilho e pela frieza na ação, Lessa era até a operação desta quarta-feira (13/03) um ficha limpa. Egresso dos quadros do Exército, foi incorporado à Polícia Militar do Rio em 1992, atuando principalmente no 9º BPM (Rocha Miranda), até virar adido da Polícia Civil, trabalhando na extinta Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE), com a mesma função da atual Desarme, na Delegacia de Repressão à Roubo de Cargas (DRFC) e na extinta Divisão de Capturas da Polinter Sul. A experiência como adido foi o motor da carreira mercenária de Lessa.

Fuzis encontrados na casa de Alexandre, usada por Lessa / Foto: Divulgação

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