Gritos, lágrimas, trocas de ofensas e pedidos de reforço policial marcaram a assembleia em que representantes da Vale se recusaram, na última terça-feira (6), a aceitar os pedidos de uma comunidade rural afetada pelos rejeitos da barragem da mineradora em Brumadinho (MG). Os atingidos pelo crime ambiental reivindicavam que a mineradora assumisse as dívidas de camponeses com financiamentos para plantações destruídas pela lama tóxica e pagamentos mensais até que as indenizações sejam determinadas pelo judiciário.

Mais de 400 pessoas que perderam parentes, casas, empregos, documentos e objetos pessoais acompanharam a reunião, que se estendeu por quase quatro horas sob uma tenda no bairro do Parque da Cachoeira.

Os camponeses exigiam um salário mínimo para moradores adultos, meio salário mínimo para adolescentes entre 14 e 18 anos e 25% do salário mínimo para crianças, além da doação de R$ 5 mil para as famílias que vivem no local.

“Perdi o emprego, agora vou viver como?”, gritou um morador da plateia ao ouvir que a empresa não atenderia aos pedidos.

“Vocês mataram meu irmão em 10 segundos e agora vão esperar quantos meses para amenizar o que minha mãe está sentindo?”, disse uma senhora, soluçando.

“Para matar vocês são rápidos”, disse outra mulher, amparada por colegas. “Em Mariana foi igualzinho”, completou, em referência à ruptura da barragem de Fundão, em 2015, quando 50 milhões de metros cúbicos de restos de mineração e produtos químicos foram lançados sobre comunidades e atingiram o rio Doce, chegando até o oceano Atlântico.

Muro na região de Brumadinho recebe pixação contra a Vale / Foto: Igo Estrela

Enquanto bebês choravam no colo de mães que não tinham onde se sentar (a mineradora disponibilizou cadeiras em número bem inferior ao de participantes) e idosos caminhavam com dificuldade pelo terreno de terra batida, três funcionários da Vale – Edvaldo Braga, Vítor Libânio e Humberto Pinheiro – diziam que “não tinham autonomia” para atender às demandas.

“Não temos condições de assumir responsabilidade sobre algo que não temos conhecimento. Precisamos entender a extensão deste problema. Ainda não temos informações suficientes para responder a estas solicitações”, repetiam os representantes da mineradora à plateia, 12 dias após o rompimento da barragem que deixou, segundo o corpo de bombeiros, 157 mortos, 182 pessoas desaparecidas e 103 desabrigadas.

Quase duas semanas depois da ruptura da barragem, a maioria dos presentes está morando nas casas de amigos e parentes. Esta é a terceira reunião entre moradores e representantes da empresa – em nenhuma delas houve consenso.

No último dia 28, Luciano Siani, diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale, havia anunciado que a mineradora doaria R$ 100 mil para famílias que perderam parentes na tragédia.

Segundo informações da própria empresa, a Vale apresentou lucro recorrente de R$ 8,3 bilhões e distribuiu dividendos da ordem de US$ 1,142 bilhão, apenas no terceiro trimestre de 2018.

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