/

Dor e revolta no enterro de bebê morta pela PM na Bahia

“A gente não quer só que eles percam a farda; a gente quer que eles paguem na cadeia”, declarou à imprensa local a irmã mais velha de Agatha, uma adolescente que preferiu não dizer o nome.

Familiares e amigos carregam fotos da bebê / Foto: Almiro Lopes

O corpo da pequena Agatha Sophia, de apenas 7 meses, foi sepultado na tarde da última sexta-feira (1/1), no Cemitério da Plataforma, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. “Veja bem o que vocês fizeram”, dizia a mãe, Jessica Maciel, 26 anos, que passou o velório agarrada ao caixão da filha. A frase se dirigia aos policiais militares que participaram da ação que terminou com a morte da bebê, atingida por uma bala de borracha na cabeça. A família prometeu que não vai descansar enquanto não se fizer justiça.

“A gente não quer só que eles percam a farda; a gente quer que eles paguem na cadeia”, declarou à imprensa local a irmã mais velha de Agatha, uma adolescente que preferiu não dizer o nome. Ela também ajudou o pai, Arivaldo Soares da Silva, a carregar o caixão da irmã de 7 meses. A comoção no enterro atingiu a todos, desde crianças – muitas chorando – até idosos.

Pai se emociona durante enterro / Foto: Almiro Lopes

Ainda no início do velório, com a mãe da criança agarrada ao caixão, uma gritaria começou na porta do cemitério. O tumulto aconteceu após amigos e familiares identificarem um policial à paisana no local.

“Eu estava filmando minha família, esse momento triste da perda de minha sobrinha, quando, de repente, percebi aquela presença estranha. faz parte da comunidade, porque lá todo mundo se conhece. Eu filmei ele e foi quando ele arrancou o celular de minha mão”, contou Reginaldo Maciel, tio de Agatha. “Eles não deixam a gente em paz nem aqui. Já não basta o que fizeram?”, se revolta.

Uma multidão correu atrás do homem, que vestia uma camisa social listrada, azul. Ele, que segurava e mexia no celular de Reginaldo, devolveu o aparelho, sendo expulso logo em seguida.

Muito abalada, uma amiga da família disse que a comunidade não consegue nunca ter paz, porque toda semana tem alguma ação da Militar. Avaliação partilhada pela mãe da vítima:

“Além de ser uma criança, é mais um inocente. Agora eles (policiais) não podem mais dizer que trocaram tiros com a vítima, como costumam afirmar durante as ações. Todo mundo amava minha filha”, disse Jéssica, que também tem um filho de 5 anos.

O crime aconteceu na noite de 27/1, no bairro soteropolitano de São Marcos. Jéssica voltava de um aniversário na localidade Recanto São Rafael, acompanhada das duas crianças e da irmã, quando foi surpreendida por uma dupla de polícias militares atirando bombas de gás e balas de borracha.

“Foi bater e inchar a cabeça dela, imediatamente. Ela chorou até desmaiar”, relatou. Com a filha já desmaiada nos braços, a vendedora e a irmã pediram ajuda aos dois militares, que negaram socorro. “Eles olharam pra mim e um deles falou: ‘A senhora está na hora errada e no lugar errado, infelizmente não posso fazer nada’. Aí fui correndo e me joguei na frente de uma moto que estava passando’”.

Jéssica denuncia ainda que chegou a ser abordada por policiais enquanto sua filha ainda estava entre a vida e a morte, no Hospital Geral do Estado. Os PMs pediram que ela fosse até a sede da 50ª Companhia Independente de  Militar (CIPM/Sete de Abril) para “prestar esclarecimentos”.’ “Eu disse que não tinha nada pra fazer lá, que eu ia na corregedoria, e foi o que fiz”.

Mãe ficou agarrada ao caixão todo o tempo / Foto: Almiro Lopes

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.

Últimas Notícias

1 ano sem Moïse

A mãe de Moïse esteve pela primeira vez no quiosque onde seu filho foi assassinado. Revoltado,…