O levante popular na não é feito apenas dos protestos de rua e da raiva contra a desigualdade promovida pelo neoliberalismo do governo de Macron. Em alguns casos, por enquanto ainda não generalizados mas significativos, as pessoas dão um passo além e começam a elaborar propostas alternativas, mais globais ao sistema político que privilegia o capital e uma minoria de abastados em detrimento da grande maioria. Vejam no vídeo a leitura coletiva do apelo dos “Gilets Jaunes” () de Commercy, uma cidadezinha do nordeste da França, na região de Lorraine. O apelo, que propõe a multiplicação de assembleias populares como via para uma , está traduzido a seguir.

Além das propostas, o apelo descreve como se dá a organização do movimento no dia a dia, com ampla participação e discussão coletiva. Também criticam e deploram a intenção do governo e de alguns setores do movimento (como a extrema direita, com certeza) de fazer sobressair “representantes” do povo insurgente.

Lembramos que nas cidades pequenas e médias da França e de boa parte da Europa, o uso do automóvel não é uma ostentação, mas uma necessidade, pela insuficiência de transporte coletivo.

Tradução abaixo:

APELO DOS COLETES AMARELOS DE COMMERCY POR ASSEMBLÉIAS POPULARES EM TODOS OS LUGARES.

RECUSEMOS A RECUPERAÇÃO! VIVA A DEMOCRACIA DIRETA! NENHUMA NECESSIDADE DE “REPRESENTANTES” REGIONAIS!

Por quase duas semanas, o movimento de coletes amarelos colocou centenas de milhares de pessoas nas ruas de toda a França, muitas vezes pela primeira vez. O preço do combustível foi a gota de gasolina que incendiou a planície. O sofrimento, a vergonha e a injustiça nunca foram tão generalizados. Agora, em todo o país, centenas de grupos locais estão se organizando com diferentes maneiras de fazer as coisas.

Aqui em Commercy, no Meuse, temos operado desde o início com assembleias populares diárias, onde cada pessoa participa em igualdade de condição. Organizamos bloqueios da cidade, estações de serviço e barragens seletivas. Na sequência, construímos um galpão na praça central. Nós nos encontramos lá todos os dias para nos organizar, decidir as próximas ações, dialogar com as pessoas e dar as boas-vindas àqueles que se juntam ao movimento. Também organizamos “sopas solidárias” para viver belos momentos juntos e nos conhecermos. Em total igualdade.

Mas eis que o governo e certas facções do movimento propõem nomear representantes por região! Ou seja, algumas pessoas que se tornariam os únicos “interlocutores” das autoridades públicas e abafariam nossa diversidade.

Mas nós não queremos “representantes” que acabem forçosamente falando por nós!

Vejam o problema. Em Commercy, uma delegação isolada se reuniu com o subprefeito, nas outras grandes cidades se reuniu diretamente com o Prefeito. Eles JÁ fizeram aumentar nosso ódio e nossas reivindicações. Eles JÁ sabem que estamos determinados a acabar com esse odioso presidente, esse detestável governo e o sistema podre que eles encarnam!

E é exatamente isso que amedronta o governo! Pois ele sabe que, se ele começa a ceder nos impostos e sobre os combustíveis, ele também terá que recuar nas aposentadorias, os desempregados, o estatuto dos funcionários públicos e todo o resto! Ele também sabe MUITO BEM que corre o risco de intensificar UM MOVIMENTO GENERALIZADO CONTRA O SISTEMA!

Não é para compreender melhor nosso ódio e nossas reivindicações que o governo quer “representantes”. É para nos enquadrar e nos enterrar! Tal como acontece com as direções sindicais, ele procura intermediários, gente com quem ele poderia negociar. Nestes em quem ele pode em seguida controlar e pressionar a dividir o movimento para enterrá-lo.

Eles desprezam a força e a inteligência do nosso movimento. Desprezam o fato que estamos pensando, nos organizando, fazendo evoluir nossas ações que os apavoram tanto e que ampliam o movimento!

E acima de tudo, eles não levam em conta que há uma coisa muito importante: em toda parte, de várias formas, o movimento dos coletes amarelos reivindicam muito além do poder de compra! O que os coletes amarelos reivindicam é o poder ao povo, pelo povo, para o povo. É um novo sistema onde “aqueles que não são nada”, como eles dizem com desprezo, assumem o poder sobre todos aqueles que se empanturram, sobre os dirigentes e sobre os poderosos do dinheiro. É a igualdade. É a justiça. É a liberdade. Eis o que queremos! E isso começa pela base!

Se nomearmos “representantes” e “porta-vozes”, isso nos tornará entes passivos. Pior: vamos rapidamente reproduzir o sistema e funcionar de cima para baixo como os canalhas que nos dirigem. Estes chamados “representantes do povo” que estão enchendo seus bolsos, que fazem leis que apodrecem a vida e servem aos interesses dos ultra ricos!

Não coloquemos nem um dedo na engrenagem da representação e da recuperação. Este não é o momento de delegar nossa palavra a um punhado de indivíduos, mesmo que pareçam honestos. Que escutem a todos nós ou não escutem a ninguém!

A partir de Commercy, portanto, propomos a criação em toda a França de comitês populares, que funcionem em assembleias gerais regulares. Espaços onde se liberta a palavra, onde se ousa se expressar, se preparar, ajudar fraternalmente um ao outro. Se deve haver delegados, é ao nível de cada comitê popular local de coletes amarelos, o mais próximo possível da palavra do povo. Com mandatos imperativos, revogáveis e rotativos. Com transparência. Com confiança.

Propomos também que centenas de grupos de coletes amarelos possuam um galpão como em Commercy, ou uma “casa do povo”, como em Saint-Nazaire, em suma, um lugar de compartilhamento e de organização! E que eles se coordenem, em nível local e provincial, em condição de total igualdade!

É assim que vamos ganhar, porque isso, lá em cima, eles não estão acostumados a controlar! E isso os faz tremer de medo.

Não nos deixaremos ser dirigidos. Não nos deixaremos dividir e recuperar. Não aos representantes e porta-vozes autoproclamados! Retomemos o poder sobre nossas vidas! Viva os coletes amarelos em sua diversidade!

VIVA O PODER AO POVO, PELO POVO, PARA O POVO!”

Fonte (tradução): https://bit.ly/2QLD5uD
Texto: Maurício Campos