Raphaela Souza/ Foto: Arquivo pessoal

A cabeleireira e militante LGBT Raphaela Souza, de 32 anos,  coordenadora do Grupo Social Coletivo Finas de Travestis e Transexuais, foi assassinada a tiros na noite de quarta-feira (14) em Vitória da Conquista, na .

O crime ocorreu no Conjunto Habitacional Pau Brasil, no Bairro Miro Cairo, por volta das 23h. Moradores relatam que escutaram barulhos de disparos e logo depois encontraram o corpo de Raphaela. Ela estava na porta de casa com três tiros na cabeça, já sem vida.

Um amigo próximo da militante fez uma carta de despedida, que foi publicada em um blog local. O comunicador social Danillo Bittencourt relembrou no texto as lutas de Raphaela, primeira funcionária trans da Secretaria de Desenvolvimento Social da cidade.

“Realizamos juntos duas conferências territoriais de Direitos LGBT; preparamos uma campanha publicitária para combater o estigma e o preconceito da sociedade em relação às travestis e transexuais […]. Com Rafa, e sua luta junto às travestis e transexuais de nossa cidade, nos tornamos a terceira cidade do Estado a possuir decreto-lei que garante o uso do nome social de travestis e transexuais nos serviços prestados por qualquer órgão da Administração Pública Municipal Direta, Indireta, Autarquias, Fundações e nas instituições públicas de ensino”, relembra Bittencourt.

Danillo conta que foi depois dessa experiência que Raphaela se reconheceu enquanto militante e defensora dos . Quando seu contrato com a Prefeitura terminou, ela foi fazer Serviço Social e se engajou ainda mais, se tornando a primeira presidente do Coletivo Finas. Ela também dava aulas gratuitas de  cabeleireira para beneficiados do programa Bolsa Família.

No texto, o ativista pede que a imagem da amiga não seja associada às drogas ou ao tráfico e sim as lutas e conquistas que ela alcançou pela população trans. “É essa Rafa que eu conheço. Não a que foi morta pela sociedade discriminatória e que não tem uma política adequada sobre drogas. Não quero a imagem da Rafa que, por inúmeros motivos, encontrou no uso e no tráfico, um alento e um respeito”, clama.

Raphaela foi detida em 25/10 por suspeita de associação ao tráfico, sendo liberada em seguida. Três semanas depois da prisão, a ativista foi executada. Até o momento nenhum suspeito foi identificado ou preso.

Em 2017, o Brasil se manteve líder do ranking mundial de homicídios de travestis e trans pelo sexto ano consecutivo. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram contabilizados 179 assassinatos de travestis ou trans no período. Isso significa que, a cada 48 horas, uma pessoa trans foi morta no país. É o maior número de vítimas fatais de registrado pelo levantamento em dez anos.

Em números absolutos, a Bahia foi o segundo estado que mais assassinou travestis e pessoas trans, com 17 mortes.

Segundo a Antra, a expectativa de vida de uma mulher trans ou de uma travesti é de apenas 35 anos. A probabilidade de uma pessoa desse segmento ser assassinada é 9 vezes maior do que para o restante da população brasileira.  Em 80% dos casos, os assassinos não possuem relação com a vítima.

Dentre as ocorrências, apenas 18 tiveram a prisão dos suspeitos, representando um percentual de 10%. Com os poucos dados oficiais, o levantamento anual é produzido com base na pesquisa de reportagens veiculadas por jornais e relatos encaminhados para a organização.

Ao conhecer os assassinatos a associação deparou-se com o modo de como os crimes acontecem, sendo em sua maioria por armas de fogo, 52%, 18% por arma branca e 17% por espancamento, asfixia e/ou estrangulamento.

Em 94% dos casos, as vítimas são mulheres, dentre as quais, 67,9% tinham entre 16 e 29 anos. Os casos se reduzem entre as mais velhas, quando entre os 30 e 39 anos, a taxa cai para 23%, já entre 40 e 49 anos cai para  7,3%, e 1,8% para acima dos 50 anos.

Também têm cor preferencial. De acordo com o documento, em “80% dos casos foram identificadas como pessoas negras e pardas, ratificando o triste dado dos assassinatos da juventude negra no Brasil”.