Cinco dias após a morte de Moa do Katende, apoiadores do candidato de extrema direita (PSL) ceifaram mais uma vida. Na madrugada da última terça-feira (16), um grupo de cerca de cinco homens esfaqueou uma travesti em frente a um bar, no Largo do Arouche, centro de . Testemunhas informaram à imprensa que os criminosos gritavam “Bolsonaro” e “ele sim” enquanto agrediam a vítima. A travesti, identificada dias depois como Priscila, ainda conseguiu andar 400 metros até cair e pedir ajuda a seguranças de um hotel próximo. Ela foi encaminhada pelos bombeiros ao pronto-socorro da Santa Casa, mas acabou falecendo no caminho. Os assassinos fugiram logo após o ataque.

O homicídio concretiza uma ameaça à comunidade LGBT feita dias antes por simpatizantes do ultradireitista. Um video de 4 de  outubro, que viralizou nas redes sociais, mostra dezenas de torcedores entoando um canto lgbtfóbico na estação de da praça da Sé, também na capital paulista. Em ritmo de música de arquibancada, gritavam “Ô bicharada, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar viado!”.

Bolsonaristas realizam pelo menos 50 ataques em 10 dias

Um levantamento realizado pela entidade Open Knowledge contabilizou, entre os dias 30 de setembro e 10 de outubro, 70 casos de agressão relacionados com a disputa eleitoral. A grande maioria deles provocados apoiadores de Bolsonaro (50, enquanto apenas 6 foram direcionados contra eleitores do ex-deputado). Em muitas das ocorrências, o terror político veio associado à perseguição a lésbicas, gays, travestis e pessoas transgênero.

Como muitas notícias capazes de comprometer a imagem do candidato, esses fatos mal tem sido mostrados pelos telejornais do país. Para a “grande mídia” brasileira, que fez tanto escândalo a respeito da dita “violência” dos protestos de 2013, vidraças de bancos importam mais do que as vidas LGBTs.

Uma jovem transgênero – que pediu para não ser identificada – relata ter sido torturada e ameaçada por um grupo de cinco homens com camisas de Jair Bolsonaro, depois de ter saído de uma festa no dia 30 de setembro em Belo Horizonte.

“Eles me puxaram para dentro do carro pela janela. Os dois de trás sentaram em cima de mim e deram muitos socos no meu rosto, jogaram cigarro aceso e ainda cuspiram”, contou, acrescentando que um deles estava armado.

“Durante todo o tempo, eu escutei: ‘Se ele ganhar, vamos poder caçar mais macacos. Traveco. Não vamos te matar agora porque você ainda pode ter jeito, mas, se não tomar, você vai morrer de aids’.”

Depois da tortura, eles a mandaram descer sem olhar para trás, ameaçando atirar. “Meu amigo insistiu muito para que eu denunciasse à polícia, e a tentativa foi um total desastre. Todo o processo mais parecia uma tentativa de me incriminar de algo do que a solução de um crime cometido contra mim, a vítima”, critica.

A (ódio contra travestis e pessoas transgênero) também se fez sentir no caso do espancamento da cabeleireira Netinha Matias, de 40 anos, em Sigefredo Pacheco, no Piauí.  No dia 27 de setembro, dois adolescentes  invadiram e sua casa e disferiram vários socos e chutes no rosto e nas pernas da trans. Netinha gravou um vídeo denunciando os seus agressores e a motivação política do crime.

”Foi o Pedro de maior e o […] que vai fazer 18 anos daqui a quatro meses. Eu dizia pra eles que não votava no Bolsonaro e eles diziam que ia me bater, igual tão fazendo” afirma na gravação, na qual são visíveis os ferimentos.

Mas o absurdo não pára por aí. Se aproveitando de a dicção da vítima estar comprometida, bolsonaristas ainda conseguiram distorcer completamente o significado da denúncia. Na versão divulgada pelos cabos eleitorais, a travesti teria apanhado… por ser a favor de Bolsonaro!

Para a jovem transgênero Guilderth Andrade,  a única palavra que vale para descrever o momento atual é medo. “É a única coisa que consigo definir no momento”, afirmou a cabeleireira, de 21 anos.

Moradora de Belo Horizonte, Guil, como é conhecida, foi derrubada no chão por um manifestante pró-Bolsonaro. O ataque aconteceu na véspera do primeiro turno das eleições, durante um ato a favor do candidato na Praça da Estação, centro da capital mineira. A discussão começou após o bolsonarista colar um adesivo à força na jovem, que estava parada em um ponto de ônibus.

“Eu falei: ‘Não quero votar nele, você tem que ter respeito’, e tirei o adesivo.” De repente, sentiu um “tapão” nas costas. O cabo eleitoral havia colado outro adesivo. “Eu o arranquei novamente.” O homem deu então uma rasteira na cabeleireira. “Eu caí, a bota dele cortou meu tornozelo. Se eu tentasse levantar, ele ia continuar me agredindo”, relembra.

“A situação está muito extrema, não que não era difícil, mas está ficando pior”, avalia. “A gente vai ficando acuado, trancado em casa, não estou conseguindo trabalhar. Eu quero poder existir sem ser questionada e pressionada o tempo todo”, lamentou a jovem, que tem ouvido relatos parecidos de seus amigos LGBT.

Juliana Garcia estava no Bar do Zeca, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, no dia 5 de outubro, com a namorada. Na camisa, trazia os adesivos “Ele não” e “O filho dele também não”. Quando levantou para ir ao banheiro, dois homens foram atrás. “Começaram a falar: ‘Você está totalmente equivocada, vai defender bandido, só Bolsonaro salva esse país’.”

Juliana disse que tentou argumentar, mas mesmo assim um dos homens continuou em um tom agressivo. “Teve um momento em que ele fez o movimento das armas com as duas mãos apontadas para o meu rosto. Aí eu não tive reação, o outro homem do lado começou a rir. Saímos correndo do bar.” Ela admite ter medo de voltar ao bar e andar pela cidade.

O estudante Gabriel Garcia foi ameaçado por dois homens enquanto caminhava pela rua, perto de sua casa, no bairro do Ipiranga, em São Paulo: “Aqui é Bolsonaro, caralho. A gente vai acabar com os viados do Brasil”, gritou um deles, direcionando a fala para Gabriel. E o outro complementou: “É só eleger que vamos acertar lâmpada nessas porras”. “Infelizmente, tive que baixar a cabeça e seguir caminho com uma vontade imensa de retrucar sabendo já de antemão que iria terminar apanhando feio e que não teria nenhum efeito”, desabafou o jovem.

‘Sou homofóbico, sim, com muito orgulho’, afirma Bolsonaro em vídeo

Apontado como favorito a vencer o pleito presidencial de 2018, a carreira política de Jair Bolsonaro está alicerçada em discursos machistas, racistas, anti- e lgbtfóbicos.

Vídeos com declarações suas demonstrando ojeriza a pessoas pertencentes a grupos historicamente oprimidos pipocam aos montes nas redes sociais. Um deles, de 2013, no entanto, tem se destacado. Nele, o político afirma ter orgulho de falar “sou homofóbico, sim”.

“Não existia essa quantidade enorme de homossexuais como temos hoje em dia. E eles não querem igualdade, eles querem privilégios. Eles querem é nos prender porque nós olhamos torto pra eles, nos prender porque nós não levantamos de uma mesa pra tirar nossos filhos menor de idade de ver dois homens ou duas mulheres se beijando na nossa frente, como se no restaurante fosse um local pra fazer isso. Eles querem é se impor como uma classe à parte. E eu tenho imunidade pra falar que sou homofóbico, sim, com muito orgulho se é pra defender as crianças nas escolas”, esbraveja Bolsonaro, que reitera que os LGBTs “não terão sossego” com ele.

Como praticamente tudo em sua campanha, a suposta “defesa das crianças” por Bolsonaro é baseada em mentiras. Em agosto deste ano, em entrevista ao Jornal Nacional,  o presidenciável deu a entender que o livro Aparelho Sexual & Cia, do suíço Phillipe Chappuis, teria sido entregue pelo governo federal em escolas. Na verdade, a publicação jamais foi adquirida ou distribuída pelo Ministério da .

Brasil lidera ranking de assassinatos de travestis e pessoas trans

A luta do movimento LGBT jamais foi por “privilégios”, mas sim por direitos básicos, como o de não ser morto só por se ser quem se é. Em 2017, o Brasil se manteve líder do ranking mundial de homicídios de travestis e trans pelo sexto ano consecutivo. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), foram contabilizados 179 assassinatos de travestis ou trans no período. Isso significa que, a cada 48 horas, uma pessoa trans foi morta no país. É o maior número de vítimas fatais de transfobia registrado pelo levantamento em dez anos.

Segundo a Antra, a expectativa de vida de uma mulher trans ou de uma travesti é de apenas 35 anos. A probabilidade de uma pessoa desse segmento ser assassinada é 9 vezes maior do que para o restante da população brasileira.  Em 80% dos casos, os assassinos não possuem relação com a vítima. Em 95% deles, o crime é cometido com requintes de crueldade.

“A associação mais comum é com a agressão física, tortura, espancamento e facadas. […] vemos notícias de corpos gravemente mutilados, tendo objetos introduzidos no ânus das vítimas, tendo seus corpos incendiados e jogados de viadutos”, diz o documento.

“Não é só matar. É matar, esquartejar. Para expurgar toda e qualquer possibilidade de existência e também de humanidade”, analisa Bruna Benevides, secretária da Antra. Apesar dessa situação, a impunidade também é uma marca presente nesses crimes, conforme a associação. De acordo com o relatório, foram encontradas notícias de apenas 18 casos em que os suspeitos foram presos, o que representa pouco menos de 10% do total.

As vítimas também têm cor preferencial. De acordo com o mapa, “80% dos casos foram identificadas como pessoas negras e pardas, ratificando o triste dado dos assassinatos da juventude negra no Brasil”. Relacionando diferentes formas de opressão, Benevides conclui: “não é seguro, hoje, no Brasil, ser travesti e transexual, como não é seguro ser mulher e negro no país”.