Por Maurício Campos dos Santos.

Se são verdadeiras as tendências apontadas pelas últimas pesquisas do Ibope e Datafolha, me parece claro que a causa mais provável do avanço de Bolsonaro foi a antecipação do voto útil anti-PT, diante do crescimento expressivo de Haddad nas semanas anteriores. O que prova o notável aumento da rejeição ao poste do Lula, bem como a queda continuada das intenções de voto em Marina e Alckmin, entre outros.

Mas não faltaram os que, confusos ou mal intencionados, acharam meios de culpar as manifestações #EleNão pelo resultado. Não tem nada a ver. Nunca há uma relação direta entre capacidade de mobilização nas ruas e votos, e na verdade erra profundamente quem acha que a mobilização tem que ter algum resultado eleitoral em vista. Mobilizações bem feitas podem atingir seu resultado específico mesmo diante de um quadro político-institucional adverso.

Deixa eu contar uma história bem representativa disso. No início dos anos 1970, os EUA estavam tomados de protestos e manifestações de rua. Os motivos vinham desde a década anterior, as lutas dos negros, das mulheres, contra discriminações, pobreza, etc. Mas a causa que fez todas convergirem foi a oposição à Guerra do Vietnam. Embora as pesquisas mostrassem ainda haver um substancial apoio à política do governo Nixon (o mais próximo de um presidente fascista que os EUA teve antes de Trump), ela diminuía sensivelmente. E os “patriotas” partidários da guerra não conseguiam traduzir sua maioria estatística em mobilização. Aliás, as únicas manifestações significativas pró guerra foram as de operários brancos da construção civil, que, fiéis à sua tradição racista e patriarcal (nos EUA) atacaram violentamente protestos pacifistas (a série documental A Guerra do Vietnã, de Ken Burns e Lynn Novick, conta bem essa história toda).

Nixon estava incomodado, mas apelou repetidamente para a “maioria silenciosa” que o apoiava. E o resultado das eleições presidenciais de 1972 pareceram lhe dar razão: Nixon obteve uma vitória esmagadora contra o candidato democrata.

As manifestações de rua não se abalaram e prosseguiram. Na verdade, praticamente ninguém que ia para as ruas naqueles tempos pensava em favorecer eleitoralmente os democratas com isso, os manifestantes anti-guerra sabiam muito bem que haviam sido governos democratas (Kennedy e Johnson) que haviam iniciado a sangrenta escalada dos EUA no Vietnam. O foco era claro, combater e acabar com a guerra, independentemente de resultados eleitorais.

Mesmo com o triunfo nas urnas, Nixon seguiu tão pressionado pelas mobilizações que não pode voltar a se aprofundar na guerra, que era seu objetivo secreto, como provaram gravações telefônicas mais tarde reveladas. Na verdade, ficou tão paranoico em tentar provar um suposto financiamento comunista ao movimento anti-guerra, e em desmoralizar as denúncias que se sucediam (como a divulgação dos chamados Pentagon Papers), que ordenou toda uma série de operações sujas de espionagem e sabotagem contra seus inimigos internos, algo que no final das contas deu no escândalo Watergate e em sua vexaminosa renúncia em 1974. Quem no final venceu? Nixon ou as ruas?

A mobilização #EleNão foi importante em si mesma não por qualquer resultado eleitoral, mas por apontar o caminho da luta de rua e dos protestos como a forma básica e garantida de resistir ao avanço das tendências fascistas, seja qual for o candidato eleito neste mês de outubro.

 

Como foi na luta contra a guerra do Vietnam nos EUA, para nos mantermos com esse exemplo, a contra-ofensiva antifascista tem que estar organizada, enraizada em comitês de antifascista nos bairros, categorias, escolas, grupos e coletivos. Os motivos concretos para nos mobilizarmos não faltam e não faltarão, ataques a direitos e aumento da social e política já estão acontecendo e vão piorar significativamente doravante. As eleições passarão, mas as ruas, que são nosso terreno, permanecem.

Maurício Campos do Santos é engenheiro e ativista. Foi colaborador da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência.