Manifestantes com deficiência e suas famílias confrontaram a polícia de choque em frente ao Congresso argentino na última terça-feira (5), exigindo a revogação do veto do presidente Javier Milei à legislação de proteção à pessoa com deficiência.
Os protestos emocionantes contaram com pessoas de muletas e cadeiras de rodas empurrando as barricadas policiais.
“O veto é um retrocesso e nos deixa devastados. Esperamos que essa situação seja revertida pelo bem de todos”, disse Sandra Daniela, manifestante e mãe de uma criança com deficiência.
Milei vetou três projetos de lei que aumentariam as pensões e os benefícios por invalidez, provocando indignação em grupos de defesa dos direitos humanos e dos legisladores que aprovaram as medidas.
Os projetos de lei “quebrariam o equilíbrio fiscal do governo”, disse Javier Milei, e insistiu que “não havia dinheiro” para financiar as medidas, que o Congresso Nacional aprovou no início de julho.
Os aposentados estão entre os mais afetados pela chamada campanha de austeridade “motosserra” de Milei e têm realizado manifestações semanais em frente ao congresso, todas as quartas-feiras, faça chuva ou faça sol.
Os manifestantes seguravam cartazes com mensagens como “Abaixo o veto” e “Não ao veto”. Outros pedidos incluíam pedidos para que os juízes argentinos “parassem com a repressão aos aposentados” e para que o presidente e o Ministério da Saúde fornecessem “ajuda e solidariedade”.
Um cartaz dizia: “Nossa pobreza é seu excedente”, acusando Milei de ser um “golpista”. Ao longo do dia, os manifestantes gritaram a favor de uma greve geral e acusaram Milei de orquestrar uma “ditadura”.
Para derrubar o veto presidencial é necessário uma maioria de dois terços no parlamento. Caso isso aconteça, Milei anunciou que pretende contestar os projetos na Justiça.
“É impossível sobreviver com uma pensão mínima”, disse Eduardo Barnei, de 79 anos, da cidade de Berazategui, nos arredores de Buenos Aires, que relara ter recebido 370.000 pesos no mês passado (cerca de R$ 1.510,00), incluindo um bônus de 70.000 pesos (cerca de R$ 285,00).
Um dos projetos de lei vetados por Milei propunha um aumento de 7,2% para todas as pensões e elevaria o bônus mensal para 110.000 pesos.
Mesmo com o ajuste, o total ainda ficaria bem abaixo dos 1.200.523 pesos (R$ 4.901,00) que a Defensoría de la Tercera Edad — uma ouvidoria para idosos — estima como o custo de vida mensal mínimo para um aposentado.

“[No mês passado] tive que gastar mais de 100.000 pesos em remédios, outros 80.000 em gás e eletricidade, e agora tenho que sobreviver com o que sobrou. Simplesmente não é possível”, disse Barnei, que começou a trabalhar aos 15 anos e continuou até se aposentar aos 68.
“A vida é muito difícil”, disse Edda Beitia, 77, da região metropolitana de Buenos Aires, que tem comparecido aos protestos semanais dos aposentados — muitas vezes superados em número pelas forças de segurança, incluindo as polícias militar, federal e naval, que tentam impedi-los de bloquear estradas, frequentemente usando força, inclusive disparando gás lacrimogêneo e balas de borracha.
Em março, depois que torcedores de futebol se juntaram aos aposentados nos protestos, 124 manifestantes foram detidos e 46 pessoas ficaram feridas em confrontos com a repressão policial — entre elas um fotógrafo que ficou gravemente ferido após ser atingido na cabeça por uma granada de gás lacrimogêneo.
“Continuo vindo aos protestos toda semana porque penso em todos os aposentados que, como eu, estão lutando. Esta é uma luta coletiva”, disse Beitia.
Milei também vetou uma lei que permitiria que mulheres com mais de 60 anos e homens com mais de 65 anos se aposentassem mesmo que não tivessem completado os 30 anos obrigatórios de contribuições previdenciárias.
O terceiro projeto de lei estabeleceria uma pensão para pessoas com deficiência e garantiria acesso a um programa de assistência médica, mas também foi totalmente vetado pelo presidente de extrema direita.
Vários parlamentares condenaram a decisão do governo. O senador Pablo Blanco a classificou como “lamentável e vergonhosa “, enquanto o senador Oscar Parrilli a descreveu como “uma política de crueldade contra os setores mais vulneráveis da sociedade”.
“Estamos sobrevivendo com dificuldade, mas muitos de nós agora temos que ajudar nossos filhos que perderam o emprego”, disse Beitia. “Também penso em todos os jovens que nunca se aposentarão. O governo deveria ter vergonha do que está fazendo.”

