PMs que mataram Claudia Ferreira, mulher negra arrastada por viatura, são absolvidos

Segundo o juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira, a auxiliar de serviços gerais teria sido morta por PMs em ato de "legítima defesa" a "suposta agressão".

Os PMs envolvidos na morte de Claudia: Manoel Arcanjo (em 1º plano), Alexsandro da Silva Alves (no meio) e Adir Serrano Machado (ao fundo) deixando a delegacia após prestar depoimento, em 2014 — Foto: Marcelo Carnaval / 19.03.2014

Dez anos depois de sua morte, Cláudia Ferreira da Silva é mais uma vez vítima do racismo estrutural da sociedade brasileira. Contra todas as evidências, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) absolveu seis policiais militares envolvidos no crime, ocorrido em 16 de março em 2014, no subúrbio carioca de Madureira, zona norte da cidade. O caso ganhou notoriedade após um vídeo flagrar o corpo baleado da mulher sendo arrastado por mais de 300 metros por uma viatura da PM.

A decisão é do juiz Alexandre Abrahão Dias Teixeira, da 3ª Vara Criminal, e foi tomada no último dia 22 de fevereiro, mas divulgada apenas nesta segunda-feira (18/3). Os PMs Rodrigo Medeiros Boaventura e Zaqueu de Jesus Pereira Bueno eram acusados de homicídio, por terem atirado em direção à vítima. À época, ambos chegaram a ser presos.

Uma pessoa registra o momento em que a viatura arrasta Claudia Ferreira — Foto: Reprodução

A investigação da Civil concluiu que o tiro que atingiu Claudia partiu do ponto onde estavam os policiais. No entanto, o magistrado considerou que os PMs teriam agido em “legítima defesa” para repelir “uma suposta agressão, incorrendo em erro na execução que resultou na morte de Claudia”.

Após a absolvição, Boaventura foi nomeado superintendente na Vice-Governadoria do estado. Já Bueno permanece na PM, apesar de ter sido preso anteriormente sob acusação de integrar uma milícia, também na zona norte.

Foram absolvidos ainda os agentes Adir Serrano Machado, Alex Sandro da Silva Alves, Rodney Miguel Archanjo e Gustavo Ribeiro Meirelles, que eram acusados de fraude processual, por terem removido o corpo da vítima do local em que ela foi baleada.

Uma câmera da prefeitura registra o momento em que a viatura arrasta Claudia Ferreira — Foto: Reprodução

O resultado do julgamento gerou a de ativistas e protestos nas redes sociais:

“Estou chocada. Nenhuma responsabilidade [foi] atribuída aos policiais que mataram e arrastaram o corpo de uma mulher negra, mãe e trabalhadora”, declarou a diretora da organização civil Criola, Lucia Xavier, em entrevista à Agência Brasil.

No X (antigo Twitter), a Rede de Observatórios de Segurança postou uma mensagem relembrando detalhes sobre o caso: “A auxiliar de serviços gerais era mãe de quatro filhos e cuidava de mais quatro sobrinhos. No momento do crime, ela estava indo comprar o café da manhã das crianças”, recorda o texto.

“Para nós, fica mais uma vez a sensação de injustiça perante uma vida negra e favelada tirada pela ação violenta e racista de agentes do Estado”, protestou a entidade de defesa dos Justiça Global. “Quantos mais têm que morrer para essa guerra acabar?”

Claudia Silva Ferreira.

Reportagem do Jornal A Nova na época:

Na tarde de ontem, dia 17 de março, moradores do Morro da Congonha, zona norte do Rio, voltaram a protestar em repúdio ao assassinato da auxiliar de serviços gerais Claudia Silva Ferreira, de 38 anos. A trabalhadora foi morta por policiais militares que faziam uma operação na favela na manhã do último domingo. Cláudia foi colocada com vida em um camburão que foi flagrado momentos depois, com o porta-malas aberto e a trabalhadora sendo arrastada por ao menos 250 metros.

A equipe de AND foi à casa de Cláudia conversar com o seu marido, o operário Alexandre Fernandes da Silva. Ele contou como percebeu, antes da divulgação das imagens pelo jornal Extra, que sua esposa havia sido arrastada por policiais. Assista o vídeo:

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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