Do luto à luta: mãe desiste da cremação do próprio filho para ter provas contra o Estado

"Eu preciso provar que o Estado fez isso, então preciso do corpo, da ossada do meu filho", diz a mãe, Bruna da Silva.

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Bruna da Silva abraça amigos no Cemitério do Cajú, Zona Norte do Rio — Foto: Stella Nemer/1508

Em junho de 2018, o jovem Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, foi morto pela Civil durante uma operação policial na da Maré, que ainda teve o apoio do Exército. Além de Marcos, outras seis pessoas morreram.

Na operação, o helicóptero da Civil deu cobertura a quatro blindados que entraram na com policiais e militares.

No dia 24 de julho de 2021, três anos após o assassinato, a mãe de Marcos, Bruna da Silva, transferiu o corpo do adolescente do Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde foi enterrado, para o Cemitério de São Francisco Xavier, conhecido popularmente como Cemitério do Cajú, no bairro do Caju.

Após a morte do filho, Bruna fez um pedido para a cremação do corpo e conseguiu autorização. Segundo ela, transtornada com a situação e pela tristeza, sequer lembra de todo esse processo. Hoje, ela desistiu dessa decisão e por uma questão política. “Eu preciso provar que o Estado fez isso, então preciso do corpo, da ossada do meu filho”, diz Bruna. “Muitas vezes a gente precisa de um vídeo para provar que foi o Estado que fez aquilo, não vai precisar de um corpo?”, conclui a mãe, que tem como lema do luto à luta.

Ela relata (vídeo) que movimentos sociais, militantes e amigos ajudaram a essa difícil decisão. Bruna não quis gravar entrevistas, apenas contou sobre a decisão de não cremar os restos mortais de seu filho. Segundo ela, não tinha o que falar. Queria apenas sentir aquele momento doloroso quieta, dividir com as pessoas que ali se encontravam, e guardar para ela.

Levar o filho para o Cemitério do Cajú, Zona Norte do Rio, ao lado da da Maré, foi um conforto para Bruna e a família. “Aqui ele está próximo da gente, de volta as suas origens. A Zona Sul não era o lugar dele.”

Bruna da Silva deixou o trabalho de doméstica para se dedicar integralmente a causas de direitos humanos. Após 11 meses atuando como militante, ela passou a integrar em 2019 o quadro de ativistas da “Redes da Maré” – Organização não governamental (ONG) que atua na garantia de direitos no Conjunto de Favelas da Maré, que se divide em 16 favelas onde vivem cerca de 137 mil pessoas.

Em abril deste ano, Bruna esteve em uma audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, e pediu paz, mas com justiça:

“A gente quer resposta, porque sem justiça não tem paz. A gente quer paz, mas a gente precisa dessa justiça. Marcos Vinícius poderia estar aqui contando a história dele se a gente tivesse direito a uma ambulância. A gente não tem, seu ministro”, disse Bruna ao Supremo.

A audiência pública era sobre a redução da letalidade policial no Rio, como parte dos debates em torno da ADPF (Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635. Bruna lembrou que os policiais impediram que uma ambulância entrasse na para socorrer seu filho – a presença de ambulâncias durante operações policiais é um dos pleitos na ADPF 635.

Bruna é amparada por amigos no Cemitério do Cajú, Zona Norte do Rio — Foto: Rafael Daguerre/1508

Levado por moradores, Marcos chegou na UPA com vida. Transferido para o Hospital Getúlio Vargas, ele foi operado. Teve o baço e um rim retirados, além de ter levado pontos no estômago. Mas não resistiu. “Meu filho lutou, meu filho não queria morrer. Ele era um guerreiro”, disse Bruna na época.

A caminho da escola

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) revelou que o estudante Marcos Vinícius foi baleado pelas costas, quando caminhava para a escola no Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A testemunha que socorreu Marcos Vinícius contou, em depoimento na Divisão de Homicídios, a mesma versão da família do menino.

Segundo o relato, a testemunha disse que o tiro que atingiu o adolescente partiu da polícia. “De bandido não tinha troca de tiro na rua. A única coisa que tinha dando tiro dentro da comunidade era o helicóptero de cima para baixo. Não tinha troca de tiro na comunidade[…]. As únicas pessoas que tinham na rua eram eles, porque a rua estava vazia”, afirmou a testemunha.

Bruna da Silva, 39 anos, segura caixa com os restos mortais de seu filho no Cemitério do Cajú, ao lado da da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro — Foto: Rafael Daguerre/1508

A testemunha estava na mesma rua em que o jovem e chegou a levá-lo para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em seu próprio carro. A versão contada por ela é a mesma que o menino contou à mãe, antes de morrer.

“Quando cheguei na UPA ele estava com vida. Ele falou ‘mãe eu sei quem atirou em mim, eu vi quem atirou em mim’. Eu falei ‘meu filho, quem foi que atirou em você?’. ‘Foi o blindado, mãe. me viu com a roupa de escola’”, contou.

De acordo com peritos, a bala não ficou alojada no corpo. A informou que foi ao local para cumprir 23 mandados de prisão. Ninguém foi preso.

Durante o enterro de seu filho, em 2018, o desabafo: “A culpa é desse Estado doente que está matando as nossas crianças com roupa de escola”, afirmou.

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