Garimpeiros voltam a atirar contra indígenas Yanomami

Duas crianças Yanomami, de um e de cinco anos, morreram durante uma das investidas. Assustadas com os tiros, eles fugiram pela mata e acabaram caindo em um rio, se afogando em seguida.

Foto: Reprodução

Garimpeiros voltaram a atirar contra indígenas da comunidade Palimiú, nesse domingo (13). A região, que fica dentro da Terra Yanomami, em Roraima, vive uma sequência de ataques armados desde o final de abril. Há 35 dias os indígenas não conseguem dormir e precisam se manter a postos para fugir dos atentados.

Duas crianças Yanomami, de um e de cinco anos, morreram durante uma das investidas. Assustadas com os tiros, eles fugiram pela mata e acabaram caindo em um rio, se afogando em seguida. 

O relato mais recente das lideranças locais foi divulgado nesta segunda-feira (14) pela Hutukara Associação Yanomami (HAY), em ofício assinado pelo presidente da entidade, Dario Kopenawa.

O novo ataque, conforme a HAY, aconteceu por volta das 19h30. Garimpeiros chegaram na região divididos em três barcos. Após atracar nas margens da comunidade, eles iniciaram os disparos. Para fugir dos tiros, os indígenas precisam se esconder na mata. Logo depois, os invasores seguiram viagem.

A comunidade fica às margens do rio Uraricoera, no município de Alto Alegre, trajeto usado pelos invasores para chegar até os acampamentos no meio da floresta.

A Terra Yanomami é a maior reserva indígena em extensão territorial do Brasil, com quase 10 milhões de hectares entre os estados de e Amazonas, e tem mais de 360 comunidades, onde vivem cerca de 27 mil indígenas.

Ataques em série

O primeiro conflito aconteceu no dia 27 de abril de 2021, quando um grupo Yanomami interceptou cinco garimpeiros que subiam o Uraricoera em direção ao Korekorema, em uma voadeira carregada de combustível para avião e helicóptero, apreendendo a carga de 990 litros de combustível. No episódio, garimpeiros que desciam o rio em direção a Boa Vista, reagiram disparando contra os indígenas.

Duas semanas depois, em 10 de maio, os ataques voltaram a acontecer e se tornaram diários.

Além das duas crianças, cachorro também foi morto pelos mineradores ilegais como forma de ameaça aos indígenas. Os ataques são feitos com embarcações, armamento pesado e bombas de gás lacrimogêneo

No Brasil, a venda das bombas de gás lacrimogêneo é de controle do Exército Brasileiro e somente as Forças Armadas e de segurança pública ( Militar, Civil e Federal) podem usar gás. Até o momento nenhuma informação oficial foi divulgada pelo governo brasileiro acerca de como esses armamentos foram conseguidos pelos criminosos.

Desmatamento

O estudo Cicatrizes na floresta: evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020, produzido em conjunto pela HAY e pela Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), revelou que, se considerados os 12 meses de 2020, 500 hectares de floresta Amazônica foram destruídos pelo garimpo ilegal no Território Indígena Yanomami (TIY), Roraima.

Se convertida a área total desmatada, que é de 2.400 hectares, a dimensão seria composta por mais de 3.300 campos de futebol, sendo 500 só em 2020, que representa um aumento de 30% no avanço do garimpo ilegal no último ano.

Em plena da covid-19, a atividade criminosa avançou pelos rios e abriu novos núcleos de exploração.

Atuando tão próximo às comunidades, os invasores levam diversos riscos aos aldeados. Além de doenças como a malária e a covid-19, problemas com violência e álcool também são consequências da proximidade dos invasores com os povos originários.

Os novos pontos de garimpo gerados no último ano são colados às comunidades Yanomami e Ye’kwana. Pistas clandestinas de pouso, agora, ficam a poucos metros do lugar de morada dos indígenas.

Os indígenas isolados Moxihatëtëma também correm sérios riscos de extinção com a exposição forçada pelos garimpeiros.

O levantamento demonstrou que a atividade garimpeira no Território Indígena Yanomami se realiza, via de regra, de duas maneiras: em dragas flutuantes, localizadas nos leitos de grandes rios (Uraricoera, Mucajaí, Catrimani e Parima), e em terra firma, de modo semimecanizado, com o uso de mangueiras e motores à combustão para extrair o sedimento de cavas ou barrancos. 

Por meio do monitoramento remoto, foi possível examinar o conjunto das cicatrizes deixadas por essa segunda modalidade, que inclui desmatamentos recentes, solo exposto, áreas recém abandonadas e pequenas lagoas de rejeito.

O rio Uraricoera concentra mais da metade (52%) de toda a área degradada pelo garimpo identificada por sensoriamento remoto. 

O relatório também revela que, protegidos pela inércia dos órgãos públicos, os núcleos garimpeiros passam a se impor sobre a dinâmica de comunidades indígenas e utilizam de forma parasitária sua infraestrutura, como pista de pouso, postos de saúde e roçados. 

Ao Instituto Socioambiental (ISA), o xamã Davi Kopenawa, liderança espiritual da etnia, manifestou sua com a atual invasão garimpeira. 

“Você vê a água suja, o rio amarelado, tudo esburacado. Homem garimpeiro é como um porco de criação da cidade, faz muito buraco procurando pedras preciosas como ouro e diamante”, afirma Kopenawa.

“Há vinte anos conseguimos mandar embora esses invasores e eles retornaram. Estão entrando como animais com fome, à procura da riqueza da nossa terra. Está avançando muito rápido. Está chegando no meio da terra Yanomami. O garimpo já está chegando na minha casa”, completa.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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