Haitiana grávida morre após ser tratada como “mula” em voo da Gol

O voo fez um pouso de emergência em Manaus, onde Elunise foi atendida pela Infraero. O óbito foi atestado às 16h 01m, menos de duas horas depois de a passageira ter embarcado.

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Elunise Clervil / Foto: Arquivo Pessoal

No último dia 2 de abril, a haitiana Elunise Clervil, de 27 anos, morreu após passar mal dentro de um avião da empresa Gol Linhas Aéreas, que partia de para Brasília. Na nota, a companhia aérea, que tratou o caso como um “incidente”, dizia que “uma passageira passou mal a bordo”, sem citar o nome da vítima ou detalhes do caso. Segundo reportagem do site Amazonia Real, ela estava grávida de sete meses, mas foi tratada como uma “mula” do tráfico de drogas, conforme relatou um outro passageiro.

O voo fez um pouso de emergência em , onde Elunise foi atendida pela Infraero. O óbito foi atestado às 16h01 (17h01 em Brasília), menos de duas horas depois de a passageira ter embarcado no avião em , às 14h42. A Polícia Federal no registrou a ocorrência no mesmo dia, mas não informou se instaurou inquérito para investigar se houve ou não omissão no socorro.

A nota oficial do Instituto Médico Legal (IML) da capital amazonense deixou expresso que havia a suspeita da morte por ingestão de entorpecentes: “O laudo inicial apontou que a mulher morreu em decorrência de um edema agudo no pulmão. Ainda de acordo com os exames preliminares, não havia resquícios de entorpecentes no estômago ou no intestino dela”.

“Dizem que minha mulher morreu por falta de atenção e atendimento. Por preconceito racial e da pele. Parece que tinham medo de tocar nela. Se não tivessem medo, eles socorreriam, e ela não morreria com o filho na barriga” revoltou-se Valmyr Westerley, viúvo da vítima, que trabalha como condutor de tratores em .    

O casal havia deixado o um mês após o matrimônio, em  17 de fevereiro de 2020, em Cap-Haïtien, no norte do país. No dia 2 de março do ano passado, eles atravessaram a fronteira da Guiana com o Brasil e, como já fizeram mais de 100 mil refugiados haitianos nos últimos 11 anos, buscaram um refúgio para ter uma vida melhor.

Fixados inicialmente em Boa Vista, os dois trabalharam duro para sobreviver e alugar uma pequena casa: Valmyr como ajudante de pedreiro e camelô e Elunise fazendo tranças nos cabelos de outras haitianas. No entanto, com o agravamento da pandemia da Covid-19 e o isolamento social, o casal teve uma diminuição nos seus recursos e, como não tinha como pagar aluguel, acabou despejado. Um amigo os abrigou “no puxadinho” de uma casa.

Elunise Clervil / Foto: Arquivo Pessoal

Vendo a fome aumentar e a expectativa diminuir, o haitiano aceitou um convite do pastor evangélico Augustin Laguerre para viajar no fim de março para a capital paulista.

No dia da morte da cabelereira, a aeronave Boeing 737 que a transportava deveria fazer uma escala por volta das 19h30 em Brasília, no Distrito Federal. Aguardando no aeroporto de Guarulhos, Valmyr achou estranho que ela não tivesse chegado no horário previsto, depois de meia-noite, e passou a procurar a mulher.

“A GOL não fez contato, só descobrimos por causa de uma outra reportagem da TV de Boa Vista e porque procuramos na internet”, conta Augustin Laguerre.

Com o apoio da Pastoral do Migrante da Igreja São Geraldo, em Manaus, Valmyr conseguiu fazer o reconhecimento do corpo de Elunise e do bebê. O sepultamento de ambos aconteceu no dia 14 no cemitério municipal Nossa Senhora Aparecida, com o apoio do SOS Funeral, destinado às pessoas pobres pela Prefeitura de Manaus. 

“Presumiram que uma mulher negra, indo de Boa Vista com destino a São Paulo, começou a passar mal, espumar pela boca, era mula [do tráfico de drogas]. Ela não poderia ser uma mulher negra, grávida, que estaria indo encontrar o marido em São Paulo?”, protestou Dessana Paiva, advogada da Pastoral. “O nome disso é estrutural. Ninguém abriu a bolsa dela, onde estava tudo: fraldas, pasta com o caderno de anotações da gravidez, toda a documentação, com regimento médico.”

Segundo a plataforma Brasil de Direitos, racismo estrutural é a “naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial”.

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