Trump pede a prisão perpétua de três manifestantes do “Black Lives Matters”

Colinford Mattis, Urooj Rahman e Samantha Shader são prisioneiros políticos. No final de maio, esses três ativistas foram presos por uma suposta destruição de propriedade durante uma das manifestações que eclodiram em todo o país. Todos os três ainda permanecem na prisão, sem possibilidade de sair pagando fiança, e correm risco de serem condenados a prisão perpétua por conta das leis federais.

Por Rebecca Margolies | 23/06/2020

Quando as manifestações contra o racismo e a violência policial começaram na cidade de no final de maio, a polícia respondeu primeiro com prisões em massa, repressão e brutalidade, enquanto o prefeito impôs um toque de recolher e deu carta branca à polícia da cidade para aterrorizar a população.

Nas últimas semanas, a polícia de Nova Iorque e a polícia do resto do país mudaram suas táticas repressivas em uma tentativa de apaziguar o movimento. Eles agora preferem trabalhar com os colaboradores internos do movimento para pacificar as manifestações em vez de agir com violência e prender os manifestantes. Entretanto, três manifestantes presos no início do movimento ainda estão sendo mantidos prisioneiros no Centro Correcional Metropolitano em Nova Iorque. Ao fazer isso, o Estado está empregando outra tática: intimidar os manifestantes dando exemplos.

Colinford Mattis e Urooj Rahman nasceram e cresceram em meio a classe trabalhadora do Brooklyn. Ambos trabalham agora na cidade como advogados. Rahman é uma advogada da área pública que trabalha para o Departamento Jurídico do Bronx. Ambos estão muito envolvidos com suas respectivas famílias: irmãos adotivos no caso de Mattis, e uma mãe idosa no caso de Rahman. Eles foram presos por jogarem um coquetel molotov pela janela de um carro da polícia já quebrado e abandonado da cidade de Nova Iorque no dia 29 de maio, quando havia protestos em torno da cidade, principalmente no bairro Forte Greene (Brooklyn).

Urooj Rahman e Colinford Mattis / Foto: Reprodução

Samantha Shader tem uma longa história de oposição e resistência à polícia. Ela foi presa separadamente dos outros na mesma noite, também por supostamente ter jogado um coquetel molotov. O coquetel, que não acendeu, tinha como alvo um carro da polícia, com policiais dentro.

Ao contrário dos policiais de Nova Iorque, Mattis, Rahman e Shader não feriram ninguém naquela noite. A única coisa pela qual eles poderiam ser condenados é a tentativa de danificar bens – que é exatamente o que a polícia deve evitar e o que eles foram criados para fazer, muitas vezes à custa de vidas humanas. A própria Rahman analisou brevemente este contraste em uma entrevista em vídeo pouco antes de sua prisão:

“O que eu vi foram pessoas que tinham como alvo a propriedade, e nenhuma propriedade é mais importante do que a vida humana. Destruir a propriedade não é nada como matar pessoas. Portanto, entendo porque as pessoas fazem isso. É uma maneira de mostrar sua dor, sua raiva, porque ela nunca pára.”

O que é terrível é que hoje os três enfrentam a vida na prisão, com uma pena mínima de 45 anos, por vários crimes federais que incluem o uso de explosivos, incêndio intencional, uso de explosivos para cometer um crime, incêndio intencional premeditado, uso de dispositivo destrutivo, desordem civil, ou ainda fabricação e posse de dispositivo destrutivo. Além disso, e de forma incomum, todos os três estão presos sem direito à fiança, apesar dos pedidos da família, amigos, membros da comunidade e até de ex-procuradores federais, e apesar do fato de Shader ter sido ferida durante sua prisão e não estar recebendo tratamento médico adequado.

“Quando você olha para os crimes que Rahman e Mattis supostamente cometeram, você normalmente esperaria que eles fossem julgados sob a lei estadual em um tribunal estadual”, disse Ramzi Kassem, um professor de direito da Universidade de Nova Iorque, em uma entrevista para o The Intercept. “O fato de o governo federal ter recuado para encontrar uma lacuna legal que permitisse que o caso ficasse sob jurisdição federal tem a intenção de enviar uma mensagem dissuasiva aos ativistas”, disse Vincent Southerland, diretor executivo do Centro de Pesquisa sobre Discriminação Racista da Universidade de Direito de Nova Iorque, acrescentando: “Além disso, é extremamente raro que o Departamento de Justiça recorra da concessão de fiança em tal medida. Tudo isso sugere que o governo está tentando fazer dessas pessoas um exemplo e enviar uma mensagem ao público – uma mensagem de medo para aqueles que fazem parte desses protestos antirracistas”.

Esta severidade é liderada pela administração de Trump, que tem trabalhado muito para passar o caso do tribunal estadual para o tribunal federal com base em elementos muito fracos como, por exemplo, o fato de que desde que os carros da polícia de Nova Iorque vêm de fora do estado, os crimes cometidos por Mattis, Rahamn e Shader estão sob a jurisdição federal. Trump e seus aliados usaram o caso nas redes sociais como vitrine para sua campanha contra os “antifa”.

Se compararmos as acusações e o tratamento severo que Mattis, Rahman e Shader recebem por suposta destruição de propriedade com a forma como o sistema de justiça dos EUA lida com policiais que realmente mataram pessoas, os “dois pesos da mesma medida” do sistema de justiça dos EUA são claros. O Estado agiu prendendo os policiais que mataram George Floyd antes da eclosão dos protestos em massa, e um dos policiais envolvidos no assassinato conseguiu até mesmo sair pagando fiança. Os policiais que invadiram a casa de Breonna Taylor e a mataram no meio da noite nem sequer foram presos. O policial de Nova Iorque que dirigiu seu carro em direção aos manifestantes, e felizmente não matou nenhum deles, não está na cadeia. Os oficiais em Buffalo que agrediram um idoso só foram demitidos, e foi somente após forte pressão do governador Cuomo que eles foram acusados. Isto não quer dizer que a resposta esteja nas soluções prisionais, mas há uma diferença muito clara de tratamento entre aqueles que têm como alvo a propriedade em nome da defesa da vida dos negros e aqueles que tiram essas vidas.

Mattis, Rahman e Shader são prisioneiros políticos. As acusações exageradas contra eles e a decisão escandalosa de negar-lhes a fiança são postas em prática para assustar todos aqueles que lutariam ou se manifestariam contra o Estado. Como socialistas, estamos todos conscientes de que poderíamos estar no lugar deles, trancados neste centro de encarceramento, que poderíamos estar em seu lugar enfrentando o risco de prisão perpétua.

Os governos do Estado de Nova Iorque e dos EUA mostraram claramente que não há maneira aceitável de combater seu regime assassino e racista. Em vez de nos assustarmos com o exemplo que eles procuram dar, devemos nos inspirar nele para lutar de modo mais intenso – pela libertação dos negros, pela libertação de todos os presos e pela abolição do estado prisional. Um primeiro passo é fazer todo o possível para garantir que estas acusações ridículas sejam retiradas e que Mattis, Rahman e Shader possam voltar às ruas para lutar conosco.

Fonte: https://www.revolutionpermanente.fr/Trump-demande-la-prison-a-perpetuite-pour-trois-manifestants-de-Black-Lives-Matter

Tradução > Estrela (Agência de Notícias Anarquistas)

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