Morreu na manhã dessa quinta-feira (18) o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo, 27 anos, baleado enquanto tentava prestar socorro à família do músico Evaldo dos Santos Rosa, cujo carro foi fuzilado com mais de 80 tiros por militares do no bairro de , zona norte do , enquanto se dirigiam para um chá de bebê. Luciano, que levava o nome da mãe no braço, Aparecida Macedo, deixa a esposa, Daiana Horrara, grávida de cinco meses.

Ainda segue internado no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, Sérgio Guimarães de Araújo, sogro de Evaldo, que foi baleado nos glúteos. No veículo veículo estavam Evaldo, sua esposa – Luciana Nogueira –, o filho do casal de 7 anos, o sogro, e uma amiga da família. Antes de ser atingido, o catador ajudou o menino a sair do carro, o carregando no colo até um local seguro.

 A cena foi descrita por sua mulher, Daiana Horrara, que testemunhou o momento em que o marido foi alvejado por três tiros no peito.  Os disparos aconteceram no momento em que o jovem tentava resgatar Evaldo, que morreu na hora. O relato é confirmado por parentes do músico assassinado.

Macedo estava internado desde o dia 7 de abril no Hospital Estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, também na zona norte. O jovem, que teve os pulmões perfurados, respirava por ventilação mecânica, usando dreno de tórax e sedativos. Ele apresentava febre recorrente, sinalizando quadro de infecção generalizada, o que poderia ser fatal. Luciano necessitava de uma cirurgia devido a complicações nos pulmões provocados pelos tiros e o hospital não tinha condições de operá-lo.

O advogado João Tancredo, que acompanha a família, aponta que a Justiça havia determinado sua remoção para uma unidade mais bem equipada, mas a decisão não foi atendida. Segundo Tancredo, militares do Exército estiveram no hospital nesta quarta-feira (17/4) e queriam levá-lo para prestar depoimento em uma unidade militar.

“Ao saber disso, liguei para o coronel Cláudio Viana Pereira, que deu a ordem de busca, e contestei a atuação dos militares. Na ocasião, o coronel disse que Luciano teria que prestar depoimento, já que ele era uma das partes envolvidas no inquérito”, relatou o advogado à imprensa.

Uma familiar do catador criticou a ação do Exército. “É revoltante. O Exército baleou e sequer veio para dar alguma assistência. Ninguém veio aqui dar apoio para a mãe dele. Estamos vivendo em uma ditadura. Alguns militares vieram aqui ontem para saber lá Deus o quê e sequer falou com a mãe dele”, afirmou, indignado.

Luciano vivia com a esposa nas ruas. Ele estava juntando pedaços de madeira para construir um barraco na do Muquiço, em Guadalupe, próxima ao local do crime. No momento em que o carro de Evaldo foi fuzilado pela patrulha dos militares na Estrada do Camboatá, o casal passava, com um carrinho de mão, pela via a caminho do local onde o catador coletava as vigas para a construção da casa.

“É triste demais, não sei o que falar. É só mais um, né?! Não adianta a gente falar, ele será só mais num, amanhã será outro. Não adianta falar, não adianta espernear” desabafou Lucimara Macedo, de 38 anos, irmã mais velha do catador.

Segundo Lucimara, o irmão teve infância difícil, nas proximidades da favela do Final Feliz, em Anchieta. Perdeu o pai cedo, num acidente doméstico. Os dois irmãos foram criados pela mãe, a auxiliar de serviços gerais Aparecida Macedo. Luciano estudou até a 5ª série. Quando completou 18 anos, saiu de casa e decidiu que iria viver sozinho: acabou indo morar nas ruas.

Nesse período, segundo seus parentes, Luciano passou fome e até chegou a ser preso por um roubo. Para conseguir comprar comida, passou a catar latinhas nas ruas. Há dois anos, reencontrou Daiana, uma paixão antiga, e começou um relacionamento. O casal vivia um momento feliz esperando a chegada do filho.

Dos 12 militares em patrulha naquele dia, nove seguem presos e serão investigados e julgados pela Justiça Militar. O tenente Ítalo da Silva Nunes Romualdo, oficial de mais alta patente entre os envolvidos, é reconhecido como o primeiro a atirar, ao que se seguiram os outros.

“O Exército não matou ninguém”

Após seis dias de silêncio sobre a morte de Evaldo – e, agora, também a de Luciano -, o presidente (PSL) negou que as Forças Armadas tenham executado uma pessoa. “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte”, declarou Bolsonaro, ele próprio um capitão reformado do Exército.

O discurso ecoa uma fala feita dias antes por seu ministro da Justiça e Segurança Pública, . Em entrevista ao programa de “Conversa com Bial”  da Rede Globo, dada em 8/4, o ex-juiz federal também o usou o termo “incidente” para se referir ao caso. “Foi um incidente bastante trágico. Lamentavelmente, esses fatos podem acontecer”, disse.

O escritor e ativista do movimento negro Henrique Oliveira criticou essa retórica: “A palavra incidente significa que houve um acontecimento inesperado, imprevisto. Nesse caso, só poderíamos chamar de incidente, se um carro ocupado por pessoas brancas, tivesse sido fuzilado na zona sul do Rio de Janeiro. Quando se trata de pessoas negras, estamos diante de uma política racial de extermínio” avalia, lembrando que dois dias antes de matarem Evaldo o Exército já havia executado o jovem Christian Felipe Santana, de 19 anos, pelas costas, por não parar em uma blitz.

“Tudo isso após uma semana de discussão, se o Exército deveria ou não comemorar e rememorar o golpe de 1964, com tentativas do governo federal, formado por militares torturadores, de reescrever a história e apagar a existência da ditadura. Comemorar a ditadura não é nada, quando se pode fuzilar pessoas em plena democracia” conclui.

Segundo o Instituto de Segurança Pública, autarquia vinculada ao governo estadual, o número de mortes “por intervenção de agentes de Estado” tem batido recordes históricos no Rio. Os registros do primeiro bimestre de 2019 mostram que a quantidade de pessoas mortas dessa forma aumentou 67% em dois anos (de 183 para 305). Esta é a primeira vez na história que os registros superam a marca de 300 vítimas no período. Foram 160 mortes no primeiro mês deste ano e 145 no segundo. Isso significa uma média de 5,1 mortes por dia.

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