Na noite do último domingo, a produtora e roteirista de cinema Lua Guerreiro, de 24 anos, foi espancada na praça da Cantareira, em , região metropolitana do Rio. A agressão aconteceu após a jovem, que é transgênero, pedir um isqueiro em uma barraca e não ficar calada ao ser destratada por um vendedor.

“Fui agredida. Mas, não somente. Sofri uma tentativa de homicídio. Vários homens cis me batendo de forma covarde, suja e baixa como sabemos que fazem. Quebraram uma cadeira na minha cabeça. Me derrubaram por trás várias vezes pra ser um alvo mais fácil. Fui espancada. Sangrei da cabeça aos pés”, relatou a vítima em uma rede social.

Lua conta que outros homens se aproveitaram da situação para agredi-la. “Eu não sei quantos foram. Vieram pessoas aleatórias me agredir também. Quebraram uma cadeira na minha cabeça.” declarou à imprensa. “Eles se revezavam para me bater. Eu levantava, eles me davam rasteira por trás, e eu caía de novo. Fiquei desorientada, não tenho noção de como tudo aconteceu.”

Na ambulância rumo ao Hospital Azevedo Lima, a amiga que a acompanhava registrou em vídeo o primeiro desabafo da roteirista. Logo depois, já na emergência, Lua conta ter sido alvo de deboche pelos enfermeiros que a receberam.

— Faziam piadas sobre mim, me tratavam pelo outro gênero e acabaram até discutindo com minha amiga que criticou a falta de profissionalismo (da equipe de enfermagem). Eu levei pontos na cabeça porque bati a cabeça várias vezes, e não me fizeram um raio-x. Não sei se isso é normal, sabe? — questiona Lua.

Em seguida, ao chegar à delegacia, deu de cara com o homem que havia iniciado as agressões, acompanhado de outros dois homens e de uma mulher. Reconheceu de pronto um dos agressores. Não soube dizer quem eram os demais (“Não consegui ver o rosto deles enquanto apanhava”). Sentindo-se intimidada, ainda assim, deu início a seu relato para os policiais.

— O tratamento já vinha sendo desagradável, meus agressores estavam lá sorrindo, à vontade. Mas tudo piorou quando o policial pegou meu RG e viu que meu nome no documento era outro. Aí ele ficou transtornado. Eu expliquei que era meu direito usar o nome social e que os documentos oficiais devem trazer o nome de registro com o nome social ao lado, mas ele se recusava a ouvir — recorda. — Depois disso, me colocaram numa espera incessante. Os policiais ficavam passando, e eu ali toda machucada, dolorida.

Eram mais de 2h de domingo para segunda e os policiais assistiam à televisão (“Ironicamente, viam um programa sobre ”).  Ao questionar o motivo da espera, ouviu como resposta a frase: “Estamos ocupados”.

— Eu disse a eles: ‘Estou cansada, estou com dor’. E me falaram que a previsão de atendimento era de mais duas horas. Então desisti. Depois ouvi dizer que é uma tática muito comum usada pelos policiais para desencorajar o registro da queixa. Parece que eles costumam fazer isso para desestimular a denúncia mesmo — afirma.

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), pelo menos 163 pessoas trans foram assassinadas no país no ano passado. O levantamento, feito com base em notícias de jornal, aponta ainda que 97% das vítimas são travestis e mulheres trans, 82% foram identificadas como “pretas ou pardas” e 60,5% tem entre 17 e 29 anos.

Lua Guerreiro/ Imagem: reprodução