Após apenas três dias de trabalho de campo, o grupamento militar israelense enviado ao sob pretexto de ajudar no resgate de vítimas em Brumadinho (MG) deixou o país ontem (31). A missão “humanitária”, realizada por uma das tropas que mais viola no mundo, resultou um grande fiasco.

Os 136 agentes sionistas desembarcaram na noite de domingo (27) em Belo Horizonte com 16 toneladas de equipamentos. Foi divulgado que o maquinário trazido poderia reconhecer o calor de corpos. “Todos os corpos [na área] são frios. Então esse já é um equipamento ineficiente”, esclareceu, já na segunda (28), o tenente-coronel dos bombeiros Eduardo Ângelo, que comanda as operações de resgate na região.

Outra tecnologia que seria utilizada dependia da análise de uma amostra da lama da barragem. Para localizar seres humanos, radares identificariam materiais de composição diferentes da lama. A tecnologia israelense consegue localizar corpos em até três metros de profundidade. A profundidade da lama da barragem rompida da Vale chega até 15 metros.

Entre os profissionais brasileiros, virou motivo de chacota a imagem de um israelense se afundando na lama e sendo retirado por um bombeiro de Minas. A cena é também uma síntese do uso propagandístico e ideológico pelo governo Bolsonaro de um dos crimes ambientais mais graves da história do país, com 115 mortos confirmados e centenas de desaparecidos.

No sábado (26), um dia após o rompimento da barragem, o presidente (PSL) fez uma publicação no Twitter sobre uma oferta de ajuda de nas buscas de desaparecidos em Brumadinho. “Aceitamos e agradecemos mais essa tecnologia israelense a serviço da humanidade” dizia a postagem.

Diferente do sugerido pelo discurso oficial, a parceria nada teve de nobre e altruísta. É a promoção desnecessária de um Estado racista e assassino que pratica crimes, ambientais  e de outros tipos, todos os dias há mais de 70 anos. No mesmo dia em que o anúncio era feito por Bolsonaro, atiradores israelenses executavam com um tiro nas costas, em uma aldeia perto de Ramala, o palestino Hamdi Taleb Na’san, de 38 anos, pai de quatro crianças pequenas.

Nos territórios invadidos em 1967 – Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental –, a política de apartheid israelense ceifou quase 300 vidas palestinas somente em 2018 e coloca 2,5 milhões de pessoas necessitadas de assistência humanitária, além de 1,6 milhão em situação de insegurança alimentar. Os dados são da da Coordenação de Assuntos Humanitários da Organização das Nações Unidas (ONU).

Militar israelense executa a estudante Hadil al-Hashlomon, 18, na Cisjordânia / Foto: Marcel Leme

O estreitamento das relações entre Brasil e Israel ocorre desde o início do novo governo. No dia 18 de janeiro, Bolsonaro concedeu a medalha Cruzeiro do Sul, a mais importante honraria do Estado brasileiro, ao primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu, que é acusado de corrupção e envolvimento de escândalos de propina. Em 2015, mais de 108 mil pessoas assinaram um pedido no site do parlamento britânico para prender Netanyahu  em sua chegada a Londres, por cometer crimes de guerra contra a Palestina.

Durante o período de transição, Bolsonaro prometeu transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do presidente estadunidense Donald Trump, em decisão condenada por ampla maioria na Assembleia Geral da ONU. A fala rendeu ao Brasil ameaças de retaliações comerciais por parte de países da Liga Árabe. Depois da China, os países do grupo são aos maiores compradores de produtos agropecuários brasileiros.

Na mesma época, o político de extrema direita anunciou também que seu ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, iria a Israel para visitar “instalações de dessalinização” de água. “Ainda em janeiro”, Bolsonaro prometeu, seria construída uma “instalação piloto para retirar água salobra de poço, dessalinizar, armazenar e distribuir para agricultura familiar”, como solução para acabar com a seca Nordeste.

A notícia causou perplexidade na imprensa e no meio acadêmico. Foi lembrado que há mais de 15 anos, pelo menos, os dessalinizadores não são novidade nenhuma no sertão e existem em centenas de comunidades do semiárido.

Na opinião da jornalista palestina Soraya Misleh, “a ‘ajuda’ a Brumadinho, ao que tudo indica, vai ao encontro da aproximação explicitada pelos representantes sionistas e por Bolsonaro, como amplamente anunciado já durante a campanha eleitoral.”

“Esse governo declara abertamente seu amor por Israel e promete mais acordos bilaterais. Assim, a ação traduz-se também em publicidade para a venda ao Brasil de mais tecnologias testadas sobre as “cobaias” humanas que Israel converte os palestinos cotidianamente. Na contramão do que reivindica o movimento de BDS (boicote, desinvestimento e sanções), que traz as reivindicações básicas ao fim da ocupação, entre elas que se cumpra o legítimo direito de retorno dos milhões de refugiados palestinos às suas terras. E algo bem distante da verdadeira solidariedade internacional – expressa às vítimas de Brumadinho também por palestinos em todo o mundo” avalia.

Foto: Igo Estrella

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