Foto: Lucas Hallel

Com voz embargada, o cacique Háyó , da aldeia Naô Xohã, fala sobre a perda do Rio Paraopeba, contaminado pela lama de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos da mineradora Vale. “Para nós, comprometidos com a preservação ambiental, ver o rio neste estado é uma ferida, uma dor similar a de perder um braço. Nós temos vida, mas não podemos avançar porque nosso rio morreu. Estamos com o coração ferido, crianças e idosos chorando ao ver o Paraopeba destruído, eles colhiam camarão do rio, pescávamos juntos” desabafa.

Foto: Lucas Hallel

A comunidade, cujo nome em patxohã significa “espírito guerreiro”, fica no município de São Joaquim de Bicas, vizinho a (MG), onde aconteceu a tragédia. A prefeitura local foi uma das seis da região que emitiram alertas para que a população se mantenha longe do leito do rio, pois o nível pode subir com o acréscimo de lama. Bairros foram evacuados, incluindo a aldeia. Os indígenas, no entanto, decidiram não ficar na cidade, permanecendo na parte alta do seu território, de 33 hectares.

“Em Bicas é difícil. Não dava pra ficar lá. É muito preconceito. Onde a gente vai na cidade botam a guarda municipal, polícia. Aqui na aldeia estamos bem”,  explica a liderança. Mesmo na parte alta, mais afastada do rio, a orientação repassada às 27 famílias é a de não chegar perto do leito ou tampouco fazer qualquer uso de suas águas.

Apesar da decisão, o cacique tem dúvidas sobre como a aldeia irá sobreviver aos impactos ambientais gerados pela contaminação do rio: “O café da manhã era peixe com farinha e mandioca cozida. Agora temos de pedir forças pros nossos encantos. Quando se trata de índio, aqui ninguém nem chega nem perto. A Funai nos ajuda muito pouco. O rio era a nossa fonte de vida e a de muita gente aqui nessa região. Vidas perdidas, o rio destruído… é uma tragédia”.

Foto: Lucas Hallel

Presidente da Federação dos Povos Indígenas do Brasil, Ãngohó Pataxó cobra explicações das autoridades. Ela lembra que nem a Vale, nem a Defesa Civil visitaram o aldeamento desde o desastre.

“Ficamos olhando até onde vai a ganância dos homens. Queria saber dos governantes e do pessoal da Vale se o cérebro deles é de minério. Eles não raciocinam. Será que eles consegue dormir em paz? Imagina se o filho deles pede água e na torneira deles saísse essa água vermelha”, questiona.

Tradicionalmente, os Pataxó fazem a Festa das Águas e fumam o timberio, um cachimbo que leva aneska, capim de aruanda e alecrim, em uma mistura que eles chamam de Xanduca. Nos últimos rituais, eles agradeceram por não terem sido mortos pela lama e pediram desculpas à natureza pelo que aconteceu.

O crime se repete

Há três anos, em novembro de 2015, a barragem de Fundão rompeu, devastou a bacia do Vale do Rio Doce e afundou em lama o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), deixando 19 mortos e centenas de desalojados. Os rejeitos chegaram até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo. A Samarco, empresa com participação da mineradora Vale, é uma das principais responsáveis pelo .

Cerca de 126 famílias do povo Krenak vivem espalhadas em sete aldeias às margens do Rio Doce. Antes do desastre de Fundão, pescavam, caçavam e viviam abastecidos pela água do rio. Com a poluição gerada pela lama de rejeitos, os Krenak se vêem hoje dependentes de recursos estatais e da alimentação comprada em supermercados. Não podem plantar, os animais desapareceram da região e o rio segue contaminado, em um processo de recuperação que pode levar mais de uma década.

A morte do rio representou uma agressão a uma importante referência para os Krenak, que consideram sagrado o Watu, nome pelo qual chamam o Rio Doce. ”Os anciões executavam rituais sagrados nas ilhas do Watu. Assim como o Rio Doce morreu, nossa está morrendo”, lamenta o índigena Leonir Boka.

O problema é ainda mais crítico para aqueles que têm de estar em contato direto com as águas do rio. É o caso de Jose Krenak, de 66 anos. Todos os dias ele usa seu bote para transportar passageiros pelo rio. Incapaz de evitar o contato com a água, ele relata já ter contraído vários tipos de doença.

“Da última vez, fui hospitalizado por nove dias após entrar na água para trazer meu barco para a margem. Tento não tocar na água porque ela irrita todo o corpo. Quando preciso entrar nela, coloco calças compridas. Mas não adianta. É uma água venenosa. Antes era um rio doce, agora está amargo”, ironiza.

Jovens Krenak à beira do Rio Doce |Foto: Nicoló Lanfranchi