Pistoleiros incendeiam aldeia Kaiowa em Dourados (MS)

Um vídeo gravado pelos Kaiowá na manhã de hoje mostra o momento exato em que os jagunços ateiam fogo à casa.

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Incêndio provocado por seguranças privados por volta das 11 horas da manhã desta segunda-feira (6), destruiu uma casa Guarani Kaiowá no tekoha Avae’te — Foto: Povo Guarani Kaiowá

Em uma semana, pistoleiros a serviço do agronegócio incendiaram três moradias tradiocionais na comunidade indígena de Avae’te, em Dourados (MS). O ataque mais recente ocorreu hoje (6) às 11h da manhã, quando os invasores atearam fogo à casa de uma família com três crianças. Segundo relatos, os ataques na área são constantes e se intensificaram nos últimos dias.

Um vídeo gravado pelos Kaiowá na manhã de hoje mostra o momento exato em que os jagunços ateiam fogo à casa. Eles estavam em duas caminhonetes e, segundo os indígenas, antes de iniciar o incêndio, haviam efetuado disparos de arma de fogo.

“Quando chegou ali, deram tiro. E aí a criançada saiu da casa e correu, e a mãe também, o marido e as três crianças. Por isso que ele aproveitou, chegou lá e queimaram”, relata Kunha Redyi, uma das moradoras da aldeia.

Com medo, a família e seus três filhos abandonaram a casa, que foi então queimada. No vídeo, é possível perceber que um dos milicianos caminha do automóvel branco até a casa coberta de sapé – material sagrado para a etnia e altamente inflamável.

Enquanto isso, os homens da caminhonete preta dão cobertura – de acordo com os indígenas, foi deste veículo que partiram os disparos. Sem demonstrar nenhum constrangimento pelo fato de estarem sendo filmados, eles impedem que os Kaiowá se aproximem da casa, que rapidamente arde em chamas. Antes de ir embora, contudo, garantem que retornarão à noite para destruir o resto das casas.

“Quando viram que a gente filmou, falaram assim: ‘vamos vir de noite, porque de noite não dá para tirar vídeo e nem foto, que é escuro. Vamos à noite mesmo, derrubar todas essas casas aí’”, conta a testemunha.

Segundo Kunha Poty, moradora da casa que foi queimada na manhã de hoje (6), esta já é a terceira vez que sua casa é queimada pelo bando.

“Nós queremos e precisamos de ajuda para reconstruir a nossa casa. Até nos meus filhos já atiraram, não temos sossego. Nessa hora, nós nos juntamos e saímos correndo. Esses Karaí [não indígenas] nos perseguem. Não precisamos deles para ficar aqui. Queremos ficar fortes para nos juntar. Não vamos nos intimidar. Vamos reconstruir a nossa casa”, afirmou a indígena ao Cimi Regional do Sul, em visita ao local, nesta segunda.

Violência Constante

A comunidade do Avae’te é uma das áreas próximas aos atuais limites da reserva de reivindicada pelos indígenas como parte de seu território tradicional. O conflito fundiário está diretamente ligada ao contexto de apropriação privada do perímetro da reserva, que passou por sucessivas reduções desde sua criação, no início do século XX.

Atualmente abrigando 30% da população indígena do do Sul, a Reserva Indígena de é a terra indígena de maior densidade populacional no país – com  20 mil indígenas vivendo confinados em apenas 3,4 mil hectares. O cenário, às vezes, lembra o de uma favela, mas mais espalhada. E, como em favelas, a falta de serviços públicos é um problema.

A água é escassa. Não chega à casa de todos. É comum que indígenas tenham que lavar suas roupas em rios que passam perto da reserva e até bebam dessa água — que não é tratada. Há escolas, mas elas não atendem a todas as crianças. Projeções baseadas em dados oficiais de 2014 indicavam que mais de 800 crianças da reserva não estudavam.

Fugindo desse cenário de precariedade, muitas famílias acabam se lançando na luta pela retomada das terras que foram retiradas à força do seu povo, mas acabam sendo confrontadas com um cotidiano de violência extrema e constante, com atentados quase diários de funcionários das fazendas do entorno, que utilizam uma caixa d’água como base de operações no local.

Outra ferramenta característica da atuação dos fazendeiros na região é o uso de um trator blindado e modificado com chapas de metal, utilizado para atacar os indígenas e derrubar os barracos das retomadas – além de servir, segundo os relatos das lideranças, como plataforma de tiro contra os Kaiowá. Por este motivo, o veículo foi apelidado pelos indígenas de “caveirão”.

Segundo as denúncias da comunidade, o caveirão ainda continua atuando na região, e foi utilizado nos ataques contra os moradores, na semana passada. “O ‘caveirão’ ainda está rodando por aqui”, afirma Rendyi.

As ofensivas se intensificaram a partir de outubro de 2018. Na noite em que foi confirmada a eleição de à presidência da República, no dia 28 daquele mês, 15 indígenas foram feridos por disparos feitos com balas de borracha e de gude. Desde então, as investidas já deixaram inúmeros feridos por projéteis de borracha e armas de fogo, muitos com gravidade.

“É todo dia, né. O homem [que teve a casa queimada] já teve o braço direito ferido. Aí outro atiraram também na perna, não conseguiu mais movimentar. Com arma de borracha também foi ferida gente… eles não têm mesmo dó. Não é de agora que tem ameaça. Já vai fazer três anos que todos os dias eles vêm. Se não vêm de manhã, vêm de tarde. Por isso que a gente não fica no sossego”, explica a indígena.

Mídia1508

A 1508 é um coletivo de jornalismo independente anticapitalista, dedicado a expor as injustiças sociais brasileiras e a noticiar as mobilizações populares no Brasil e no mundo.

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