“Justicia por Orellana y Soria” / Foto: Midia1508

A última segunda-feira (26/11) foi marcada por um grande nas ruas de Buenos Aires. Ele foi motivado pelo assassinato pelo Estado, na semana anterior, de dois jovens moradores de bairros pobres (ou villas, como eles são conhecidos no país).

Em 22/11, Rodolfo “Ronald” Orellana, de 35 anos, foi morto a tiros durante um ataque policial à ocupação Villa Celina, em La Matanza, periferia da capital argentina.  Dois dias depois, Marcos Soria, de 32 anos, foi executado pela polícia em Córdoba, onde vivia, após fugir de uma abordagem na qual havia sido espancado pelos agentes da repressão. Ambos eram militantes vinculados a CTEP (Confederación de Trabajadores de la Economía Popular), que reúne diversas organizações de trabalhadores informais, como ambulantes, catadores, guardadores de automóveis, etc.

Rodolfo Orellana e Marcos Soria / Foto: Reprodução

A manifestação reivindicou também a soltura de Mirian Calizaya, Hugo Vedia, Alanes Coria e Wilson Delgado, outros quatro militantes da CTEP detidos arbitrariamente durante a mesma ação policial que assassinou Orellana. Após a forte pressão popular, os quatro foram libertados ontem (27/11).

Embora a CTEP estivesse à frente, o ato contou com a adesão de várias outros coletivos. O protesto reuniu cerca de 20 mil pessoas. Um número admirável quando se leva em conta o pouco tempo de mobilização e a escassez de recursos da maioria dos manifestantes.

“Justicia por Orellana y Soria” / Foto: Mauricio Campos dos Santos

O caráter social do movimento ficava evidente pela origem étnica majoritária de seus participantes. Os rostos de nítida ascendência indígena e até mesmo negra (embora os negros tenham sido quase inteiramente exterminados na Argentina) dominavam a marcha. No dia a dia, tais rostos só se vêem pelas ruas centrais da cidade em pedintes, moradores de rua, trabalhadores mais explorados do comércio, etc. Foi algo como aquela nossa frase carioca “o morro desceu e não foi carnaval”, só que por aqui não há morros, mas grandes villas nas periferias.

“Justicia por Orellana y Soria”/ Foto: Midia1508

A diferença com a organização (ou falta de organização) popular no Brasil é gritante. Cada ala/bloco, com centenas ou milhares de participantes, contava com enormes painéis e sua própria bateria, com os infalíveis bumbos dos protestos argentinos. Muitas traziam seus próprios veículos (carros de som, ambulâncias etc) todos recuperados a partir de automóveis usados. Apesar das batucadas, o clima nada tinha de festivo. Os manifestantes compenetrados, muito poucas selfies e pouquíssima gente tomando cerveja, embora não faltassem vendedores oferecendo.

“Justicia por Orellana y Soria” / Foto: Midia1508

O contraste se explica se levarmos em conta o processo histórico diverso dos dois países no último meio século, aproximadamente. As organizações locais, que nos anos 1960/70, travaram uma luta armada de grandes proporções, tinham uma profunda inserção entre os operários, moradores das villas. Mesmo tendo sido massacradas pela ditadura militar nas décadas seguintes, esse legado não se perdeu.

“Justicia por Orellana y Soria” / Foto: Midia1508

Nos anos 1980/90 a devastação neoliberal dizimou a classe operária tradicional e jogou milhões de trabalhadores no desemprego e na informalidade. Mas logo se articulou o combativo movimento piquetero, que deu a base principal para os levantes do início dos anos 2000. Esse tipo de mobilização é a matriz comum dos grupos que foram à rua segunda.

Piqueteros em manifestação na Argentina/ Foto: Reprodução

O período kirchnerista, com sua política de conciliação de classes, pôs algum freio à revolta e à auto-organização dos movimentos sociais. Ainda assim, muito do que foi construído em épocas anteriores permanece. Apesar de um certo recuo, em nenhum momento, os trabalhadores mais explorados abriram mão do seu arsenal de estratégias de autodefesa econômica e social, como as asambleas e comedores populares, tomas de tierras (ocupações), etc.

Na Argentina, como no Brasil, os tempos são duros. Empobrecimento, repressão e ódio da parte dos opressores. Mas resistência, para os hermanos, é muito mais que uma palavra.

(Com informações de Maurício Campos dos Santos)