A guerrilha marxista paraguaia EPP (Exército do Povo Paraguaio) sequestrou em uma fazenda de San Pedro, no Paraguai, o latifundiário brasileiro Valmir de Campos, 48, na última segunda-feira (19), que extraia madeira, explorava trabalhadores e desmatava a região. O madeireiro foi encontrado morto, com 11 tiros. Campos é sobrinho do prefeito da cidade de Coronel Sapucaia (na divisa com o Paraguai, a 400 km de Campo Grande), Rudy Paetzol.

Na fazenda onde ele foi capturado, os guerrilheiros deixaram um panfleto exigindo o fim da plantação de soja e do desmatamento de áreas florestais da região. Além do panfleto com as exigências, os revolucionários deixaram um rastro de incêndio no local. A guerrilha queimou máquinas utilizadas na área, como tratores, carros e caminhões (fotos). A mesma fazenda já havia sido atacada pelo EPP em 2015.

A exploração da terra por empresários do ramo agropecuário de origem brasileira em território paraguaio é conhecida e combatida pelos anticapitalistas do EPP. Por isso, latifundiários e madeireiros brasileiros residentes na área de fronteira já foram alvo da guerrilha. De acordo com informações, Campos foi sequestrado por volta das 23h45 de domingo (19) e justiçado durante a madrugada.

O justiçamento é uma tática de guerrilha contra capitalistas, latifundiários, assassinos e torturadores. Trata-se de uma resposta a quem explora os trabalhadores e a terra para enriquecimento próprio. Foi defendida e praticada por muitos revolucionários ao longo da história. Dentre eles, o brasileiro Carlos Marighella (1911-1969). Em seu Manual do Guerrilheiro Urbano, Marighella escreve:

“É necessário que todo guerrilheiro urbano [ou rural] mantenha em mente que só poderá sobreviver se estiver disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão. E se está verdadeiramente dedicado a expropriar a riqueza dos grandes capitalistas, os latifundiários e os imperialistas.”

Guerrilha rural marxista

O EPP é um dos grupos insurgentes que atuam no norte do Paraguai. Suas operações se baseiam principalmente no Chaco – uma área de floresta, pouco povoada, na divisa com o Mato Grosso do Sul. Surge em 1º de março de 2008, tendo entre seus membros militantes egressos do extinto Partido Patria Libre.  Segundo uma de suas mensagens se definem como “comunistas, de princípio marxista-leninista”, reivindicando uma série de ações armadas. Os comunicados do EPP geralmente são emitidos por seus integrantes presos, como Carmem Villalba, sua porta-voz.

Trator incendiado pelos guerrilheiros

Apenas 15 dias após sua fundação, o EPP queimou o maquinário agrícola de um latifúndio pertencente ao brasileiro Nabort Boht, no distrito de Santa Hermínia, departamento (estado) de Concepción. O latifúndio, de 20 mil hectares, vinha sendo denunciado pelos camponeses pela fumigação de agrotóxicos, que estavam contaminando a população local.

Em 31 de dezembro de 2008, os guerrilheiros atacaram o quartel militar de Tacuatí, expropriando armas e incendiando as instalações. Em 29 de abril de 2009, uma bomba foi encontrada no Palácio de Justiça em Assunção. Os militares explodiram a bomba no pátio do prédio. O EPP também reivindica esta ação.

Há também casos de sequestros praticados pela organização, principalmente de latifundiários. Nessas situações, o EPP costuma exigir como forma de resgate não apenas dinheiro, mas também que as famílias dos sequestrados distribuam alimentos em comunidades indígenas, camponesas e bairros pobres da cidades.

Na década de 2010, o grupo intensifica suas atividades, realizando dezenas de ataques, sequestros e expropriações. Em abril de 2010, eles são acusados de promoverem um atentado a tiros contra o senador do departamento de Amambay, Robert Acevedo. Em resposta, o governo do Paraguai chegou a decretar estado de exceção no norte do país em 2010 e 2011, por períodos de 60 dias. Os departamentos de San Pedro e Concepción se tornaram áreas militarizadas, mas o movimento resiste até hoje. Até o momento, estima-se em 21 o número de agentes da repressão mortos por suas ações.