A marcha de segunda-feira (20) — realizada por manifestantes que, ironicamente, autodenominam-se “Cockroach Janta Party” (Partido Popular das Baratas) para zombar do nome do partido de direita e governista do primeiro-ministro Narendra Modi — foi ainda maior do que o esperado. O número de participantes aumentou devido à indignação com a hospitalização forçada, no sábado (18), do veterano ativista Sonam Wangchuk, de 59 anos, que está em greve de fome há três semanas em solidariedade ao movimento.
Mais de 10 mil pessoas marcharam em direção ao Parlamento da Índia, em Nova Délhi. Os manifestantes romperam várias barreiras de ferro erguidas pela polícia.
A ação policial contra uma das maiores manifestações na capital nacional nos últimos anos deixou várias pessoas feridas. A polícia entrou em ação em meio a um corte de internet no distrito de Nova Délhi, enquanto os representantes do “Cockroach Janta Party” (CJP), Saurav Das e Ashutosh Ranka, reuniam-se com o Ministro da União J.P. Nadda para solicitar formalmente a renúncia do Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan.
Enquanto marchavam, os manifestantes gritavam palavras de ordem exigindo a renúncia de Modi e do Ministro da Educação.
“Este sistema podre se recusa a agir”, disse a professora de ioga Jyoti Rajput à Aljazeera. “Ele não consegue enxergar a dor dos estudantes, e é por isso que tantas pessoas aderiram a este movimento.”
O governo de Modi, abalado pelo surgimento do movimento “Barata” em maio, ofereceu uma pequena concessão ao convidar dois ativistas para uma reunião com o Ministro da Saúde, J.P. Nadda.
“O governo entrou em contato pela manhã para propor conversas”, disse o porta-voz principal do grupo, Saurav Das, em uma publicação no X. “Nossas exigências são claras. Os jovens se reuniram em grande número.”
Milhares de ativistas haviam se reunido durante a noite no Jantar Mantar, um parque no coração de Nova Délhi que abriga instrumentos astronômicos do século XVIII e que se tornou o ponto central do protesto. Quando começaram a marcha pela manhã, a polícia logo tentou dispersar a manifestação, que coincide com o primeiro dia da sessão de monções do Parlamento.
“Vimos protestos eclodirem até mesmo dentro de estações de metrô, já que o governo bloqueou as saídas de algumas estações próximas ao Jantar Mantar. Isso não impediu os manifestantes; eles têm descido em estações mais distantes e seguido a pé, sempre gritando palavras de ordem e erguendo a bandeira da Índia”, relatou Neha Poonia, da Al Jazeera, diretamente de Nova Délhi. “Recebemos relatos de um tumulto que teria ocorrido no local do protesto há pouco tempo. A polícia de Délhi — que mobilizou um grande efetivo, incluindo tropas de choque — afirmou que se trata de desinformação e que não houve tumulto algum; no entanto, vídeos que circulam na internet mostram uma realidade bem diferente, com a tropa de choque usando cassetetes para repelir as pessoas.”
A multidão que marchava sob a garoa constante das monções incluía estudantes, profissionais e famílias com crianças pequenas. Muitos carregavam mochilas com comida e água, prevendo um longo dia.
“Votei neste governo, por isso acredito que ele tem a obrigação de responder às nossas perguntas”, disse Sneha Eppili, uma manifestante de 26 anos. “Esse é um direito humano básico ao qual tenho direito.”

Caos nos exames
O movimento de protesto surgiu em meio a intensas críticas públicas devido a alegações de corrupção e má gestão no sistema educacional.
O Ministro da Educação, Pradhan, acusou os manifestantes de agirem contra a nação.
Cerca de 2,2 milhões de aspirantes a médicos tiveram de refazer o exame anual de admissão para cursos de medicina na Índia, sob forte esquema de segurança, no mês passado, pois a prova original, realizada em maio, foi anulada após o vazamento das questões. O popular aplicativo de mensagens Telegram foi temporariamente banido pelo governo na tentativa de evitar novos vazamentos.
Estudantes que enfrentavam meses de estresse e longas horas de estudo antes do exame ficaram indignados ao saberem que a prova inicial havia sido anulada e que teriam de fazê-la novamente. Relatos indicam que mais de uma dezena deles cometeu suicídio.
“Nosso país merece um governo que se importe com o que os jovens têm a dizer e que esteja disposto a corrigir seus erros”, disse Sumit Kumar, de 18 anos.
Depois que o presidente da Suprema Corte da Índia comparou alguns jovens desempregados a “baratas”, os manifestantes adotaram o insulto como um símbolo de honra para o movimento.
A campanha começou online com memes satíricos virais que ridicularizavam o governo e rapidamente conquistou milhões de seguidores nas redes sociais. No entanto, o “Cockroach Janta Party” (Partido Popular das Baratas) transformou-se em um movimento capaz de mobilizar milhares de pessoas nas ruas, como demonstrou a marcha de segunda-feira.
Os manifestantes afirmam que o espaço para a dissidência diminuiu sob o governo de Modi, que tem sido criticado por reprimir protestos e prender ativistas. O atual movimento liderado por jovens representa um raro desafio público ao governo de direita nacionalista hindu de Modi — que está em seu terceiro mandato — e conta com o apoio de partidos de oposição e de algumas celebridades de Bollywood.
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Fontes:
– Police attack Cockroach activists as thousands march on Indian parliament
– Lathis, tears, barricades: How CJP march was halted by police
– CJP march: Forces lathicharge as protesters try to breach barricades near Parliament Street
